TESTE DE MAR: MUITO ALÉM DE UMA SIMPLES VOLTA DE BARCO
O que realmente é avaliado durante um teste de mar profissional?
Por Ney Broker
Quando um comprador agenda um teste de mar, é comum ouvir a seguinte frase:
"Vamos dar uma voltinha para ver se o barco está bom."
Depois de 38 anos trabalhando no mercado náutico brasileiro, posso afirmar que um teste de mar profissional está muito longe de ser apenas uma volta de barco.
Na realidade, essa é uma das etapas mais importantes durante a compra de uma embarcação seminova.
É nesse momento que motores, transmissões, comandos eletrônicos, direção, sistemas hidráulicos e diversos outros equipamentos passam a trabalhar sob carga, revelando comportamentos que dificilmente apareceriam com a embarcação parada na marina.
Por isso quero compartilhar com voces um pouco do teste de mar desta Azimut 58 Fly, ano 2011, equipada com dois motores MAN R6-800 de 800 HP cada, transmissão por eixo, comandos eletrônicos e direção hidráulica.
Mais do que registrar números de velocidade, o objetivo era confirmar se toda a embarcação trabalhava dentro dos parâmetros estabelecidos pelo fabricante.
Muito além da velocidade máxima
Ao contrário do que muita gente imagina, nosso objetivo não é descobrir apenas quantos nós a embarcação alcança.
Durante um teste de mar profissional são avaliados dezenas de parâmetros técnicos, entre eles:
- Comportamento da embarcação em diferentes rotações;
- Velocidade de cruzeiro;
- Consumo de combustível;
- Temperatura de trabalho dos motores;
- Pressão de óleo;
- Sistema de arrefecimento;
- Resposta dos comandos eletrônicos;
- Aceleração e retomada;
- Vibrações;
- Ruídos anormais;
- Fumaça dos escapamentos;
- Funcionamento da direção hidráulica;
- Estabilidade em curvas;
- Alinhamento do conjunto propulsor.
Dependendo do escopo da inspeção, também podem ser avaliados:
- Compressão dos motores;
- Bombas injetoras;
- Bicos injetores;
- Turbocompressores;
- Coxins;
- Selos mecânicos;
- Módulos eletrônicos;
- Sistema elétrico;
- Alternadores;
- Bancos de baterias;
- E diversos outros componentes mecânicos e eletrônicos.
Cada teste possui condições diferentes
Outro detalhe importante, que muitos ignoram, é que nenhum teste de mar deve ser analisado apenas pelos números.
Antes mesmo de ligar os motores, registramos diversas informações que influenciam diretamente o desempenho da embarcação:
- Temperatura ambiente;
- Temperatura da água;
- Direção e intensidade do vento;
- Altura das ondas;
- Estado do mar;
- Quantidade de combustível nos tanques;
- Quantidade de água doce;
- Número de pessoas embarcadas;
- Peso dos equipamentos pesados a bordo.
- Numeração do pase dos Hélices
Todos esses fatores interferem na velocidade final, no consumo e no comportamento da embarcação.
Por isso, comparar apenas a velocidade entre dois barcos semelhantes pode levar a conclusões completamente equivocadas.
O trabalho não termina quando o barco atraca
Muitas pessoas acreditam que o teste termina quando a embarcação retorna à marina.
Na verdade, em muitos casos, é justamente aí que começa outra etapa extremamente importante.
A embarcação é retirada da água para uma inspeção completa do conjunto submerso.
Nesse momento avaliamos:
- Casco;
- Eixos;
- Hélices;
- Lemes;
- Buchas;
- Selos mecânicos;
- Alinhamento;
- Corrosão;
- Sinais de impactos;
- Reparos estruturais anteriores.
- Ralos de Fundo
Não é raro encontrarmos problemas que jamais seriam percebidos apenas durante a navegação.
Interpretar os números faz toda a diferença
Durante este teste de mar registramos os seguintes resultados:
1) Velocidade máxima
31,8 nós — 2.279 RPM
Consumo aproximado: 290 litros/hora.
Essa velocidade não foi feita para navegar durante horas.
Ela serve para confirmar que os motores conseguem atingir a rotação prevista pelo fabricante e verificar se todo o conjunto está trabalhando corretamente.
Sempre recomendo que o proprietário acelere os motores até essa faixa por aproximadamente um minuto, uma vez por mês, sempre com os motores totalmente aquecidos.
Esse procedimento ajuda a eliminar resíduos da combustão, reduz o acúmulo de carbonização e mantém os motores trabalhando dentro das especificações do fabricante.
2) Cruzeiro rápido
23 nós — 2.000 RPM
Consumo aproximado: 210 litros/hora.
É a velocidade ideal quando existe necessidade de reduzir o tempo de deslocamento, aceitando um consumo maior de combustível.
3) Cruzeiro de passeio
21 nós — 1.800 RPM
Consumo aproximado: 180 litros/hora.
Na minha opinião, esta é a melhor faixa de operação para passeios com família e convidados.
O conforto aumenta, o ruído diminui e o consumo permanece bastante equilibrado.
4) Cruzeiro econômico
17 nós — 1.650 RPM
Consumo aproximado: 140 litros/hora.
Essa costuma ser a velocidade utilizada em translados longos.
Mantém a embarcação em planeio, reduz significativamente o consumo e oferece excelente rendimento operacional.
10 erros que um comprador dificilmente percebe sem um teste de mar
Mesmo um comprador experiente pode deixar passar problemas importantes durante uma simples visita à marina.
Entre os mais comuns estão:
1. Motores que não atingem a rotação máxima especificada pelo fabricante.
2. Consumo de combustível acima do normal.
3. Superaquecimento em alta carga.
4. Vibrações provocadas por eixos ou hélices desalinhados.
5. Falhas intermitentes nos comandos eletrônicos.
6. Excesso de fumaça indicando problemas de combustão.
7. Instabilidade ou dificuldade para manter o planeio.
8. Ruídos anormais em transmissões, mancais ou redutores.
9. Direção hidráulica com folgas ou funcionamento irregular.
10. Qualidade do combustível e estado de conservação do tanque.
São detalhes que normalmente passam despercebidos durante uma visita na marina, mas podem representar despesas de dezenas — ou até centenas — de milhares de reais após a compra.
Um teste de mar faz parte da Due Diligence Naval
Costumo comparar o teste de mar ao teste de direção realizado antes da compra de um automóvel.
A diferença é que uma embarcação possui dezenas de sistemas mecânicos, hidráulicos, elétricos e eletrônicos trabalhando simultaneamente.
O objetivo não é simplesmente verificar se o barco navega.
O verdadeiro objetivo é confirmar que todos esses sistemas funcionam corretamente quando submetidos às condições reais de operação.
Por isso, o teste de mar é apenas uma das etapas de uma Due Diligence Naval.
Quando combinado com uma inspeção estrutural, análise documental e vistoria técnica completa, ele oferece ao comprador muito mais segurança para tomar uma decisão consciente.
No mercado náutico, experiência é fundamental.
Mas experiência sem método pode deixar passar detalhes importantes.
Já um método técnico bem aplicado, aliado à experiência de quem realiza centenas de inspeções ao longo da carreira, reduz significativamente os riscos e transforma a compra de uma embarcação em um investimento muito mais seguro.
"O mar nunca deixa de ensinar. Esta foi apenas uma das muitas histórias reais que ainda tenho para compartilhar. Até o próximo artigo."
Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217 Itens • Vistoria In Loco
WhatsApp: (48) 9 8461-1646
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