Algumas histórias ficam marcadas não pela velocidade da embarcação, mas pelas decisões tomadas quando tudo parece dar errado. A entrega desta Sedna 65 2018/2019, realizada em dezembro de 2018, foi exatamente assim.
Fui contratado pelo proprietário para realizar o recebimento técnico da embarcação, executando uma inspeção completa (Survey) antes da entrega definitiva do estaleiro no iate clube de Santos. Além disso, também seria responsável pelo translado da lancha da Marina Astúrias, no Guarujá (SP), até a Marina Pier 33, em Biguaçu (SC).
A primeira inspeção
Permaneci aproximadamente por mais de uma semana no Guarujá, entre os dias 10 e 18 de dezembro de 2018, realizando uma inspeção detalhada de todos os sistemas da embarcação.
Como acontece em praticamente todo barco novo, surgiram diversos ajustes e acabamentos que precisavam ser corrigidos antes da entrega definitiva.
Elaborei uma lista completa de pendências, apresentei ao proprietário e ao estaleiro e retornei para Santa Catarina aguardando a conclusão dos serviços.
Poucos dias depois, em 23 de dezembro de 2018, recebi a ligação informando que a embarcação estava praticamente pronta para ser retirada, restando apenas a realização do teste de mar e da entrega técnica dos motores pela equipe da Volvo Penta, etapa indispensável antes da liberação definitiva da embarcação.
Organizamos rapidamente a viagem. Passei o Natal com minha família e, na noite do dia 25 de dezembro, embarquei novamente para São Paulo acompanhado do marinheiro Giba e de seu ajudante.
O problema apareceu no teste de mar
Assim que chegamos ao estaleiro percebemos que boa parte das pendências ainda não havia sido solucionada.
Foi necessária uma nova vistoria, novos apontamentos e uma verdadeira corrida contra o tempo para finalizar a entrega.
Nesse mesmo período, a equipe da Volvo Penta compareceu para realizar a entrega técnica dos motores.
Foi durante o teste de mar que surgiu o verdadeiro problema.
A Sedna simplesmente não ultrapassava aproximadamente 10 nós de velocidade.
Os técnicos realizaram diversos testes, mas não conseguiram identificar a origem da falha.
Quando chegou o dia 28 de dezembro, veio a notícia que ninguém queria ouvir.
A concessionária da Volvo Penta entraria em recesso e somente retornaria após o dia 15 de janeiro.
Uma decisão pouco convencional
Naquela noite, enquanto conversávamos, fiz uma pergunta ao Giba:
— Quando você está fazendo arrasto de camarão, qual é a velocidade normal do seu barco?
Ele respondeu:
— Entre 2 e 3 nós.
Foi aí que surgiu a ideia.
Se o problema só aparecia em altas rotações, por que não trazer a embarcação navegando em velocidade de deslocamento?
Na madrugada do dia 29 de dezembro de 2018, soltamos as amarras da Marina Astúrias.
Mantivemos velocidade constante entre 8 e 10 nós, sem exigir grande vazão de combustível dos motores.
Uma viagem de aproximadamente 310 milhas
A primeira perna, com cerca de 160 milhas náuticas, foi do Guarujá até o iate clube de Paranaguá (PR), onde realizamos o reabastecimento e pernoitamos.
Durante a parada, liguei para o proprietário apenas para informar nossa posição.
Ele perguntou imediatamente:
— Conseguiram resolver o problema?
Respondi apenas:
— Quando eu chegar em Biguaçu conversamos.
Na manhã do dia 30 de dezembro, iniciamos a segunda perna, navegando aproximadamente 140 milhas náuticas entre Paranaguá (PR) e Biguaçu (SC).
Ao todo foram cerca de 300 milhas náuticas, percorridas em dois dias de navegação, monitorando constantemente todos os parâmetros dos motores.
A Sedna chegou com segurança à Marina Pier 33.
Na manhã do dia 31 de dezembro, o proprietário foi recebê-la.
Expliquei toda a situação com absoluta transparência.
O problema permanecia.
Porém, como a Volvo possuía assistência técnica também em Santa Catarina, ele poderia utilizar a embarcação durante o Réveillon enquanto aguardávamos o retorno da equipe técnica após o recesso.
Ele ficou extremamente satisfeito.
Ao invés de deixar o barco parado por mais de quinze dias no estaleiro, pôde navegar com a família pela Baía Norte de Florianópolis e aproveitar seu primeiro Réveillon a bordo.
Por que o problema não foi identificado no Guarujá?
Essa é uma pergunta que certamente muitos profissionais da área irão fazer.
Se o problema estava na alimentação de combustível, por que ele não foi descoberto durante a entrega técnica?
A resposta está no contexto da época.
Tudo aconteceu na última semana de dezembro.
O estaleiro já havia dispensado praticamente toda sua equipe técnica por causa do recesso de fim de ano. Restavam apenas alguns funcionários para manter as operações básicas.
Na Volvo Penta a situação era semelhante.
Havia apenas dois técnicos de plantão para atender toda a região do Guarujá, que concentra dezenas de marinas e centenas de embarcações.
Sem equipe completa e sem todos os equipamentos de diagnóstico disponíveis, realizamos apenas os testes possíveis naquele momento.
Não havia disponível, por exemplo, o VODIA, equipamento oficial de diagnóstico eletrônico da Volvo Penta.
Outro detalhe dificultava ainda mais a investigação.
Os dois motores apresentavam exatamente o mesmo comportamento, enquanto o gerador funcionava normalmente.
Como cada motor possui seu próprio pescador de combustível (um diferente da altura do outro) e o gerador utiliza outro pescador independente, nada indicava naquele momento que a restrição pudesse estar dentro do tanque.
Se a causa tivesse sido identificada ainda no Guarujá, naturalmente o problema teria sido resolvido antes da entrega da embarcação.
A verdadeira causa
Depois que o proprietário utilizou a embarcação por cerca de quinze dias, a equipe completa da Volvo retornou com todos os equipamentos de diagnóstico.
Durante um novo teste de mar, utilizando o VODIA, foi constatado que os motores não estavam recebendo vazão suficiente de combustível quando exigidos em altas rotações.
A investigação passou então para o sistema de alimentação.
Como a embarcação ainda estava sob responsabilidade do estaleiro, optei por não desmontar componentes estruturais por conta própria. Solicitei que a própria equipe do estaleiro abrisse os tanques.
Os pescadores estavam aparentemente limpos.
Mas, ao passarmos a mão no fundo do tanque, encontramos uma camada espessa de resíduos com aspecto gelatinoso, semelhante a uma borra.
Borra num tanque de combustível 0km, e com somente dois abastecimento?
O revestimento interno do tanque havia sofrido uma falha de fabricação e esse material estava se desprendendo.
Em baixa rotação, a vazão de combustível era suficiente.
Quando os motores exigiam maior volume de diesel, essa borra era puxada contra os pescadores, restringindo a passagem do combustível e impedindo que os motores desenvolvessem potência.
Todo o diesel foi retirado, filtrado, os tanques foram completamente limpos e lavados e, em seguida, o combustível retornou para a embarcação.
O resultado foi imediato.
Os motores passaram a desenvolver toda a potência prevista de fábrica.
Uma lição que ficou
Essa travessia me ensinou que experiência vai muito além de conhecer motores ou sistemas eletrônicos.
Em alguns momentos, o mais importante é tomar decisões técnicas seguras para atender o cliente, mesmo quando a solução definitiva ainda depende do fabricante.
Também reforçou algo que defendo há quase quatro décadas.
O recebimento técnico de uma embarcação nova não deve ser tratado como mera formalidade.
Uma inspeção independente, realizada por um profissional experiente, é capaz de identificar falhas, documentar responsabilidades e evitar que problemas importantes acabem sendo descobertos somente depois que o barco já está nas mãos do proprietário.
Foi exatamente isso que aconteceu com esta Sedna 65.
Uma história que começou com um problema inesperado, terminou com uma travessia segura de aproximadamente 300 milhas náuticas e deixou mais uma importante experiência para minha trajetória no mercado náutico.
Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico
Due Diligence Naval • Laudo Blindado – 217 Itens • Broker • Survey • Skipper • Retrofit
WhatsApp: https://wa.me/5548984611646
Comentários