NAUFRÁGIO DO COSTA CONCORDIA: O DIA EM QUE O MAIOR ERRO ESTAVA NA PONTE DE COMANDO
Por Ney Broker
Durante os meus 38 anos no mercado náutico, aprendi uma lição que o mar repete diariamente: na maioria dos grandes acidentes, o verdadeiro problema não está na embarcação.
Está nas decisões tomadas por quem está na ponte de comando.
Motores quebram.
Equipamentos falham.
Tempestades aparecem.
Mas quase sempre existe uma sequência de pequenas decisões equivocadas que começa muito antes do primeiro impacto.
Foi exatamente isso que aconteceu com o Costa Concordia.
Depois de assistir ao documentário lançado pela Netflix, resolvi pesquisar muito além do filme. Consultei reportagens internacionais, documentos técnicos e análises publicadas ao longo dos últimos anos.
Quanto mais eu estudava aquele acidente, mais convicto ficava de que o mar foi apenas o cenário da tragédia.
O verdadeiro desastre começou muito antes do casco tocar as pedras.
Um gigante que não deveria estar ali
Na noite de 13 de janeiro de 2012, o Costa Concordia navegava pelo Mar Tirreno transportando 4.229 pessoas entre passageiros e tripulantes.
Era um dos navios mais modernos da frota da Costa Cruzeiros.
Tudo transcorria normalmente até que o comandante decidiu realizar uma manobra conhecida na Itália como "inchino", uma saudação em que o navio passa propositalmente muito próximo da costa para homenagear moradores da ilha.
Era uma tradição.
Mas tradição nenhuma pode estar acima da segurança da navegação.
Aquela aproximação colocou um navio de mais de 114 mil toneladas em uma área onde simplesmente não deveria estar.
Bastaram alguns segundos
Às 21h45, o casco atingiu um conjunto de rochas submersas próximo à Ilha de Giglio.
O impacto abriu uma enorme avaria lateral.
Compartimentos começaram a inundar rapidamente.
A praça de máquinas perdeu energia.
Os sistemas elétricos falharam.
A propulsão ficou comprometida.
Mesmo assim, durante vários minutos, os passageiros continuavam ouvindo anúncios informando que existia apenas um problema elétrico.
Enquanto isso, a situação piorava minuto após minuto.
O erro que custou vidas
Na minha opinião, o maior erro daquele acidente não foi a colisão.
Foi a demora em reconhecer que a situação havia saído do controle.
Quando existe possibilidade real de perda da embarcação, cada minuto vale ouro.
A ordem de abandono demorou cerca de uma hora.
Quando finalmente foi dada, o navio já apresentava forte inclinação.
Diversos corredores estavam praticamente inutilizados.
Alguns botes salva-vidas já não podiam ser lançados.
A evacuação passou a acontecer nas piores condições possíveis.
Mesmo assim, graças ao trabalho extraordinário de inúmeros tripulantes, militares, mergulhadores e moradores da Ilha de Giglio, 4.197 pessoas sobreviveram.
Infelizmente, 32 pessoas perderam a vida.
O comandante abandonou o navio
Outro fato que marcou a história foi a saída antecipada do comandante Francesco Schettino.
Enquanto centenas de pessoas ainda aguardavam resgate, ele já estava fora da embarcação.
A gravação da Guarda Costeira italiana entrou para a história.
O comandante Gregorio De Falco repetia diversas vezes:
"Volte para bordo!"
Essa frase virou símbolo da responsabilidade que existe sobre qualquer comandante.
Posteriormente, Schettino foi condenado a 16 anos de prisão por homicídio culposo múltiplo, abandono da embarcação e outros crimes relacionados ao desastre.
Um herói que poucos conhecem
Entre tantas histórias daquele naufrágio, existe uma que merece respeito.
O garçom filipino Russel Terence Rebello permaneceu auxiliando passageiros durante a evacuação.
Nunca conseguiu sair do navio.
Seu corpo foi encontrado apenas em 2014, durante a desmontagem do Costa Concordia.
Foi a última vítima oficialmente localizada.
Enquanto alguns abandonaram suas responsabilidades, outros permaneceram até o fim tentando salvar vidas.
Essa diferença diz muito sobre caráter.
O que eu teria feito?
Essa é uma pergunta que muitos clientes já me fizeram.
É claro que analisar um acidente depois que tudo aconteceu é muito mais fácil do que tomar decisões em tempo real.
Mas olhando tecnicamente para esse caso, acredito que alguns procedimentos eram indispensáveis.
Primeiro, eu jamais teria autorizado uma aproximação daquela distância da costa sem necessidade operacional.
Depois do impacto, a prioridade seria avaliar imediatamente os compartimentos estanques e identificar a extensão da avaria.
Confirmada a inundação, a perda de propulsão e o risco de comprometimento da estabilidade, iniciaria sem demora todos os preparativos para uma possível evacuação.
Ao mesmo tempo, manteria informações claras para passageiros e tripulantes, evitando boatos e reduzindo o pânico.
E existe uma regra que considero sagrada.
O comandante deixa o navio por último.
Enquanto existir uma pessoa a bordo precisando de ajuda, seu lugar continua sendo na ponte de comando.
O maior salvamento da história moderna
Pouca gente sabe, mas retirar o Costa Concordia do local do acidente foi quase tão impressionante quanto o próprio naufrágio.
A operação utilizou uma técnica conhecida como parbuckling, que consistiu em girar lentamente o navio até recolocá-lo na posição vertical.
Depois disso, enormes caixas metálicas foram instaladas nas laterais para fornecer flutuabilidade.
Somente então o casco pôde ser rebocado até Gênova para desmontagem.
Foram anos de trabalho.
Mais de US$ 1,5 bilhão investidos.
Centenas de engenheiros, mergulhadores e especialistas participaram daquela que é considerada uma das maiores operações de salvamento naval da história.
A maior lição
Sempre digo aos meus clientes que um barco não afunda apenas por causa do mar.
Normalmente ele afunda porque alguém ignorou um procedimento, assumiu um risco desnecessário ou acreditou que sua experiência era suficiente para desafiar a segurança.
O Costa Concordia continua sendo estudado em escolas náuticas do mundo inteiro justamente por isso.
Ele mostra que tecnologia, equipamentos modernos e milhares de horas de navegação não substituem aquilo que continua sendo o principal equipamento de segurança de qualquer embarcação:
O bom julgamento do comandante.
Foi uma tragédia que jamais deveria ter acontecido.
Mas as lições que ela deixou continuam extremamente atuais para todos nós que vivemos o mar.
⚓ O mar nunca deixa de ensinar. Esta foi apenas uma das muitas histórias reais que ainda tenho para compartilhar. Até o próximo artigo.
Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval
- Continue navegando pelo Blog do Ney Broker.
- Conheça o catálogo de embarcações disponíveis.
- Acompanhe meu trabalho no Instagram.
- Meus serviços
Comentários