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A NOITE DE CARNAVAL EM BIGUAÇU: O INCÊNDIO, O RESGATE E A LIÇÃO QUE O MAR DEIXOU

Existem histórias que o tempo não apaga. Algumas ficam gravadas na memória pelo perigo. Outras, pelas vidas que cruzam o nosso caminho. E há aquelas que nos lembram, de forma dolorosa, o verdadeiro valor da vida.

A noite de 4 de março de 2025, última noite de Carnaval, foi uma delas.

Já estávamos encerrando o expediente na marina. Eu, o gerente da marina e a responsável pela conveniência nos preparávamos para ir embora quando, de repente, o vigia correu em nossa direção e gritou, completamente aflito:

— "Tem um barco pegando fogo lá na baía, perto da entrada do canal do Rio Biguaçu!"

Naquele instante, não havia tempo para pensar.

Pegamos os extintores que encontramos pelo caminho. A responsável pela conveniência ajudou a transportar os extintores até o bote de resgate. Enquanto isso, eu, o gerente da marina e dois vigilantes embarcávamos para seguir imediatamente em direção ao incêndio. Em poucos minutos, já navegávamos pelo canal do Rio Biguaçu rumo ao local da ocorrência.

A primeira decisão

Assim que deixamos o canal e chegamos ao mar aberto, vimos uma cena impressionante.

A embarcação já estava completamente tomada pelas chamas. O fogo iluminava a noite e podia ser visto à distância. Naquele momento, ficou evidente que não havia mais nada que pudesse ser feito para salvar o barco. Nossa missão agora era outra: encontrar pessoas na água.

Sabíamos que, se aquela embarcação estava queimando daquela forma, havia uma grande possibilidade de existirem pessoas tentando sobreviver no mar.

Por isso, decidimos contornar a área do incêndio por fora.

Além de facilitar a busca, queríamos evitar que o nosso bote inflável de apenas cinco metros atropelasse algum náufrago à deriva, invisível na água escura.

O celular piscando na escuridão

Enquanto nos aproximávamos, vi uma pequena luz piscando.

Era a tela de um celular.

Logo em seguida ouvimos gritos.

Naquele instante, ficou claro que havia pessoas na água precisando de socorro.

O resgate

Começamos a retirar os sobreviventes da água um a um.

Nossa intenção inicial era embarcar primeiro as mulheres, já que o bote era pequeno e tinha capacidade limitada.

Mas o desespero de quem luta pela própria vida falou mais alto.

Em poucos instantes, todos já estavam dentro do bote.

Mesmo sobrecarregado, conseguimos manter a embarcação estável e seguimos imediatamente para a marina.

Ao todo, resgatamos nove pessoas com vida.

Outros sobreviventes também foram retirados da água por amigos que chegaram rapidamente em jet-skis e prestaram apoio fundamental naquela ocorrência.

A parte que mais dói

Infelizmente, apesar do esforço de todos que participaram da operação, um passageiro não sobreviveu.

Segundo as informações recebidas posteriormente, ele não conseguiu deixar a cabine da embarcação a tempo.

Essa é a notícia que ninguém gostaria de dar.

Uma lição que nunca esquecerei

Quem trabalha no mar aprende cedo que embarcações podem ser reconstruídas.

Motores podem ser substituídos.

Equipamentos podem ser comprados novamente.

Mas uma vida perdida jamais será recuperada.

Naquela noite, enquanto retornávamos para a marina com os sobreviventes, ficou ainda mais claro para mim que nenhuma embarcação vale mais do que uma única vida humana.

É uma lição simples.

Mas que o mar insiste em ensinar, às vezes da forma mais dura possível.

Meus sentimentos

Deixo aqui minhas mais sinceras condolências aos familiares e amigos da vítima.

Que Deus conforte seus corações e lhes conceda força para atravessar este momento de profunda dor.

⚓ O mar nunca deixa de ensinar. Esta foi apenas uma das muitas histórias reais que ainda tenho para compartilhar. Até o próximo artigo.

Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
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