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* AO MAR, COM TODA FAMÍLIA


No País, barcos e luxo já funcionam como segunda casa. E é a mulher que discute o estilo com especialistas


Olívia Fraga

Que iates são símbolo de luxo, todo mundo sabe. A novidade está na companhia do ‘capitão’: anos atrás, barcos de grande porte evocavam a imagem de um homem rico ao lado de loiras exuberantes. Hoje, donos de iate fazem questão de ter a família por perto, tornando a embarcação requintada extensão da própria casa.



“Agora quem toma a decisão de ter um barco é a mulher”, garante a arquiteta e designer de interiores Ana Cláudia Moreno, uma das primeiras a se dedicar à decoração de barcos no Brasil. “Velejadores profissionais não nos procuram porque fazem barcos com acabamento voltado para competições”, diz Ana. “Mas, se a decisão estiver relacionada ao lazer da família, a mulher se interessa pelo tema.”

Animada com a temporada de 16 dias recém-concluída dentro de um barco de 70 pés da Ferretti, Goldeti Glass e o marido Renato não querem saber de outra diversão. “É tão confortável que não vejo a hora de chegar o fim de semana para zarpar”, diz Goldeti. Ela lembra que o marido voltou tão fascinado pelo passeio que fez no barco de um amigo, há dois anos, que foi atrás de fabricantes. Depois de Renato acertar o negócio com a Ferretti, quem tomou as rédeas do projeto foi Goldeti, que exigiu um décor prático - o barco foi entregue em outubro passado. “A vida é simples dentro dele, não tinha por que complicar... E, se não gostar do vizinho, é só encontrar outro lugar para atracar”, diz ela, que se dá ao luxo de ser atendida por uma equipe de três marinheiros, ‘alugada’ para tomar conta da ‘segunda casa’ do casal.

O mercado de decoração em iates de luxo no Brasil só tem crescido de anos para cá. A cada bom vento na economia, dezenas de endinheirados decidem lançar-se ao mar com barcos cada vez mais sofisticados. Exclusividade para poucos: o valor está na casa dos milhões de reais e o negócio funciona sob encomenda - o barco pode levar dois anos para ficar pronto.

O maior iate da América Latina

Ana Cláudia Moreno trabalha quase sempre com estaleiros do Rio e do litoral paulista. É arquiteta que presta serviços à Intermarine, uma das principais fabricantes nacionais, capaz de entregar 10 barcos de luxo por mês. Boa parte dessas embarcações tem de 30 a 40 pés, segundo Ana Cláudia, que agora participa, em Manaus, da construção do maior barco da América Latina: 120 pés (cerca de 36 m de comprimento). Para se ter uma idéia, o barco de 50 pés tem espaço interno de 40 m², com direito a cabine de comando, duas suítes, salão de convivência e cozinha.

O Intermarine 680, do paulistano Silvio Arantes, por exemplo, tem até quarto de bebê com proteção, além de cama extra para a babá. Apaixonado por mar desde jovem, Silvio comprou sua primeira embarcação há 25 anos. “ O 680 foi feito em apenas quatro meses, pois já tinha experiência com barcos”, diz ele. Sua mulher pediu uma decoração clean, com mobiliário claro. “Todo fim de semana mudamos para dentro dele”, revela.

“Os iates são autênticas casas flutuantes”, define Tânia Ortega, arquiteta que trabalha há 14 anos com esse tipo de decoração, desde que a italiana Ferretti atracou por aqui. Segundo ela, a Spirit Ferretti, revendedora exclusiva da marca no Brasil, entrega cerca de 60 barcos por ano. Ele chega em peças e é montado em estaleiros do Rio e de São Paulo.

Colocar um barco no mar exige tecnologia de ponta. Na estrutura dos cascos usa-se fibra de vidro e fibra de carbono combinada com kelvar, produto da Dupont de última geração que torna a construção mais resistente. Fernando de Almeida, que faz parte do seleto grupo de brasileiros especializados em projetar barcos, conta que é possível construir a estrutura de barco com uma fina camada de pedra (6 mm) fixa a um painel tipo sanduíche de honeycomb, material leve e sofisticado. “De 10 anos para cá, o desenho e a construção dos barcos tem se aprimorado”, diz. Nascido em família de arquitetos, Fernando saiu formado do Brasil e passou anos no exterior trabalhando em marinas. Na volta, paticipou da construção do Paratii 2, de Amyr Klink. Quatro anos atrás, abriu escritório especializado na construção de barcos de luxo, onde atende a Rio Star.

Segundo Tânia Ortega, os barcos da Ferretti já vêm pré-especificados da Itália - cabe ao arquiteto a montagem e a escolha de cores e revestimentos. “A caixilharia e as ferragens são italianas e a marcenaria é nacional”, detalha. O capricho no design de interiores tem função dupla: além de encantar, é preciso aproveitar cada canto. Os encaixes devem ser perfeitos. O traço arredondado predomina, evitando cantos agudos para ninguém se machucar em alto-mar. “O espaço é todo otimizado. No pé da escada que sobe para o convés, costumo incluir uma bandeja.” Nas divisórias internas, usa-se compensado naval. Tecidos náuticos já são comercializados pelos principais fabricantes do País, como Regatta (couro náutico a partir de R$ 48) e Formatex (a partir de R$ 20, com modelos importados, como Layra Ashley e Beacon Hill).

Mármore, só quando o barco for grande, mas silestone e corian o substituem com louvor. Entre as madeiras, as mais usadas em bases de mesas e armários são as importadas maple (bordo) e cherry (cerejeira), envernizadas para proteger da maresia. A teca também tem vez, por ser resistente à umidade e bonita.

Fonte: O Estado de São Paulo
Foto: Bom Barco

Leia também: Profissão decoradora náutica - Entrevista exclusiva de Bruna Sales (Bom barco) com Tânia Ortega.

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