POR QUE PAGAR 100% DE UM BARCO SE VOCÊ NÃO VAI USAR 100% DO TEMPO?
Tem uma conta no mercado náutico que durante muitos anos ninguém discutia muito.
Queria ter barco?
Comprava o barco inteiro.
Simples assim.
A lancha custa R$ 1 milhão? Você coloca R$ 1 milhão na mesa, registra no seu nome, pega a chave e pronto: agora você é o proprietário.
Só que quem vive marina sabe que a história não termina quando o barco é comprado.
Na verdade, ali começa outra história.
E essa segunda parte da história vem com boleto.
O BARCO PARADO TAMBÉM CUSTA DINHEIRO
Depois da compra começam marina, limpeza, manutenção preventiva, manutenção corretiva, seguro, documentação, marinheiro em alguns casos, revisões, antifouling, baterias, peças e aquela velha surpresa que aparece justamente quando você estava achando que naquele mês não gastaria nada.
Quem tem barco sabe.
Barco não precisa estar navegando para gastar dinheiro.
Ele pode passar quinze, vinte ou trinta dias amarrado no mesmo lugar e os custos continuam chegando.
A marina não pergunta quantas vezes você navegou naquele mês.
O seguro também não.
A manutenção muito menos.
E foi convivendo durante décadas dentro de marina que eu aprendi uma coisa: antes de perguntar qual barco o cliente quer comprar, muitas vezes é melhor perguntar quanto ele realmente pretende usar esse barco.
Porque aí a conversa muda.
VOCÊ PRECISA MESMO DE 100% DO BARCO?
Vamos colocar isso numa situação bem simples.
O sujeito trabalha a semana inteira.
Consegue navegar dois finais de semana por mês.
Tem férias uma ou duas vezes por ano.
Em alguns meses nem consegue tirar o barco da vaga.
Mas comprou 100% da embarcação.
Tem 100% do capital imobilizado.
E paga 100% das despesas.
É errado?
Não.
Para muita gente, ter o barco exclusivamente seu faz todo sentido.
Eu mesmo jamais diria que copropriedade é solução para todo mundo.
Não é.
Tem proprietário que gosta de chegar na marina numa terça-feira à tarde, colocar a chave no painel e sair sem precisar olhar agenda de ninguém.
Esse cliente provavelmente vai continuar preferindo o barco próprio.
Mas existe outro perfil.
O sujeito quer navegar.
Quer levar a família.
Quer passar o dia no mar.
Quer ter uma embarcação melhor.
Só não vê sentido em colocar uma montanha de dinheiro num patrimônio que ficará grande parte do tempo parado.
É aí que a conta das cotas começa a ficar interessante.
O BARCO CONTINUA INTEIRO. O QUE FOI DIVIDIDO FOI A PROPRIEDADE.
Existe uma interpretação que eu considero errada quando se fala em cotas náuticas.
“Ah, então estou comprando um pedaço de barco.”
Não.
Você não vai navegar com um quarto da proa e metade da plataforma de popa.
O barco continua inteiro.
Quando chega o seu período de utilização, você usa a embarcação inteira.
Motor inteiro.
Cabine inteira.
Cockpit inteiro.
Churrasqueira inteira.
E, se der alguma porcaria no meio do caminho, infelizmente o problema também costuma vir inteiro.
Essa é a parte marinheira da explicação.
O que se divide é a participação na propriedade e, de acordo com o modelo adotado, também determinados custos e períodos de utilização.
O VALOR DA COTA NÃO É UMA SIMPLES CONTA DE DIVIDIR
Aqui existe um ponto importante.
Imagine uma embarcação que, comprada individualmente no mercado, tenha determinado valor.
Isso não significa que basta pegar esse preço, dividir pelo número de cotistas e pronto.
Na prática, não funciona necessariamente assim.
Cada empresa de copropriedade pode estruturar o negócio de uma forma diferente.
Pode haver quatro, seis, oito ou mais cotas.
O preço de cada participação também pode considerar fatores além do valor puro da embarcação, como estruturação do projeto, administração, comercialização, serviços oferecidos, preparação do barco, fundo de reserva e outras condições previstas pela empresa responsável.
Por isso, a soma das cotas pode não corresponder exatamente ao valor pelo qual aquela mesma embarcação seria comprada por um único proprietário.
E isso precisa ficar claro para quem está entrando.
Não estou dizendo que está certo ou errado cobrar determinado valor.
Estou dizendo que são produtos diferentes e que precisam ser comparados corretamente.
Uma coisa é perguntar:
Quanto custa comprar esse barco inteiro no mercado?
Outra é perguntar:
Quanto custa participar desse projeto de copropriedade e o que está incluído nesse valor?
Essa segunda pergunta é muito mais importante do que simplesmente dividir o preço do barco pelo número de cotistas.
COPROPRIEDADE NÃO É SIMPLESMENTE JUNTAR QUATRO AMIGOS E COMPRAR UM BARCO
Aqui começa a parte em que muita gente se enrola.
Porque dividir o valor de compra é fácil.
Difícil é organizar o depois.
Quem usa no verão?
Quem fica com o barco no Réveillon?
Como funcionam os feriados?
Quem decide uma manutenção grande?
E se um cotista quiser vender?
E se alguém danificar a embarcação?
Quem administra?
Quem controla agenda?
Quem acompanha manutenção?
Quem presta contas?
Quem decide quando trocar estofamento, eletrônica, bateria ou fazer uma revisão maior?
É aí que um projeto de copropriedade bem estruturado se separa daquele velho negócio de quatro amigos comprarem um barco juntos e, alguns meses depois, ninguém mais querer sentar na mesma mesa.
No papel, todo mundo é amigo.
No primeiro feriado de sol com mar liso, começa a prova de fogo.
COTA NÃO É ALUGUEL
Outra confusão frequente.
Copropriedade e charter são coisas diferentes.
No aluguel, você paga para utilizar a embarcação durante determinado período.
Terminou o passeio, acabou a relação.
Na copropriedade verdadeira, existe participação sobre aquele patrimônio conforme a estrutura jurídica e contratual adotada.
Isso muda completamente a conversa.
Por isso eu sempre bato na mesma tecla:
Antes de comprar qualquer cota, o cliente precisa entender exatamente o que está comprando, quais direitos possui, quais obrigações assume, quais despesas estão incluídas e como poderá sair daquele negócio futuramente.
Mar bonito e foto de lancha não substituem contrato bem feito.
O MAIOR GANHO TALVEZ NEM SEJA ECONÔMICO
Tem um ponto que considero ainda mais interessante.
A copropriedade pode permitir que o cliente navegue numa categoria de embarcação superior àquela que compraria sozinho.
Em vez de colocar todo o patrimônio disponível numa embarcação menor, ele pode participar de um barco maior, mais equipado e mais confortável, dentro de uma estrutura de propriedade compartilhada.
Não significa que sempre será mais barato.
Muito cuidado com essa promessa.
Barco continua sendo barco.
Motor quebra.
Equipamento vence.
Teca envelhece.
Gerador dá manutenção.
Eletrônica fica ultrapassada.
Não existe milagre náutico.
Existe uma maneira diferente de estruturar propriedade, utilização e custos.
COMPRAR BARCO É FÁCIL. COMPRAR O BARCO CERTO É OUTRA HISTÓRIA.
Depois de tantos anos trabalhando com compra, venda, vistoria, entrega e administração de embarcações, eu continuo acreditando que o melhor negócio não começa escolhendo a marca.
Começa entendendo o uso.
Quantas pessoas irão navegar?
Quantos dias por mês?
Vai pernoitar?
Vai viajar?
Vai deixar marinheiro?
Quer ter disponibilidade absoluta?
Quanto pretende gastar por mês?
Quanto dinheiro aceita manter imobilizado?
Depois dessas respostas é que aparece o modelo correto.
Pode ser barco próprio.
Pode ser charter.
Pode ser copropriedade.
Pode até ser melhor continuar alugando durante algum tempo antes de comprar.
O erro é comprar primeiro e descobrir depois qual era a sua necessidade.
NO FINAL, A CONTA É SIMPLES
Se você quer exclusividade absoluta, disponibilidade total e liberdade para usar o barco quando quiser, a propriedade integral continua fazendo sentido.
Mas se você navega poucas vezes por mês e quer estudar uma forma diferente de propriedade, utilização e divisão de custos, a copropriedade merece entrar na análise.
Só não compare as duas coisas olhando apenas o preço anunciado da cota.
Leia o contrato.
Entenda o número de participantes.
Veja o que está incluído.
Descubra quais são os custos mensais.
Entenda quem administra.
Veja como funciona a venda da sua participação.
E coloque tudo na ponta do lápis.
Sem paixão na calculadora.
Sem promessa milagrosa.
Sem conversa de vendedor.
Primeiro vem o uso.
Depois vêm os números.
E só então vem o barco.
Porque no mar, como nos negócios, é muito mais barato corrigir o rumo antes de sair do píer.
⚓ "O mar nunca deixa de ensinar. Esta foi apenas uma das muitas histórias reais que ainda tenho para compartilhar. Até o próximo artigo."
Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217® • Vistoria In Loco
WhatsApp: (48) 9 8461-1646