NO MAR, CORAGEM TAMBÉM É SABER NÃO SAIR: A LIÇÃO QUE TODO COMANDANTE PRECISA APRENDER COM O ACIDENTE DO CANTOR RICK


O acidente de helicóptero que matou o cantor Rick e outras quatro pessoas na Serra Catarinense deixou muitas perguntas que somente a investigação técnica poderá responder.

O helicóptero havia decolado de Porto Belo SC com destino a São Joaquim SC e foi encontrado na região de Urubici. 

As causas do acidente continuam oficialmente sob investigação do CENIPA, que já recuperou o gravador de voz da cabine, o CVR, para análise. Portanto, ainda não é possível afirmar o que provocou a queda.

Mas existe um fato independente da causa do acidente que merece reflexão.

Naquele dia, Santa Catarina enfrentava condições meteorológicas severas.

Havia alertas para chuva intensa, rajadas fortes de ventos e possibilidade de granizo. O INMET chegou a emitir alerta de grande perigo para partes do Estado, enquanto outras regiões, incluindo Serra, Grande Florianópolis e litoral, estavam sob avisos de tempo severo. A Defesa Civil também emitiu alertas durante a segunda-feira para temporais, raios, ventos e granizos.

Não estou dizendo que o mau tempo causou o acidente.

Isso é trabalho dos investigadores.

Estou falando de outra coisa.

Estou falando de decisão.

E é exatamente aí que a aviação e a náutica se encontram.

EXISTE UMA HORA EM QUE A MELHOR DECISÃO É NÃO SAIR

Quem navega sabe como funciona.

O barco está abastecido.

A turma chegou.

A comida está embarcada.

O gelo está na caixa.

O restaurante está reservado.

Todo mundo passou a semana esperando pelo passeio.

Então você olha a previsão e percebe que alguma coisa mudou.

O vento aumentou.

A ondulação cresceu.

Uma frente está entrando.

Existe possibilidade de temporal.

E começa aquela conversa que todo comandante já ouviu:

“Vamos assim mesmo.”

“É só um pouquinho.”

“O barco aguenta.”

“Já pegamos mar pior.”

“Daqui a pouco melhora.”

É justamente nessa hora que aparece o comandante.

Não é quando o mar está liso.

Não é segurando o volante para fotografia.

Não é acelerando uma lancha de 50 pés em mar aberto.

Comandar também é olhar para todo mundo e dizer:

Hoje não vamos sair.

O BARCO PODE AGUENTAR. MAS ESSA NÃO É A PERGUNTA

Muita gente confunde capacidade da embarcação com necessidade de enfrentar determinada condição.

São coisas completamente diferentes.

Uma embarcação pode ter excelentes motores, radar, AIS, GPS, piloto automático, comunicação por satélite, estabilizador, gerador, sistemas redundantes e todos os equipamentos imagináveis.

Pode ser um barco extraordinário.

Mas o mar continua sendo o mar.

Tecnologia ajuda a prever, monitorar e administrar situações de risco.

Ela não revoga as leis da natureza.

Se existe previsão de vento forte, temporal, descargas elétricas, baixa visibilidade ou mar incompatível com aquela operação, a pergunta não deveria ser:

“Será que meu barco aguenta?”

A pergunta deveria ser:

“Por que eu preciso sair?”

Essa pequena mudança de pergunta pode mudar completamente uma decisão.

SER CAPITÃO NÃO É SER “BALA NA AGULHA”

Existe também uma coisa que me incomoda bastante na náutica.

A necessidade que algumas pessoas têm de provar experiência enfrentando condições ruins.

“Eu sou comandante.”

“Eu sou capitão.”

“Já peguei coisa pior.”

“Esse mar não é nada.”

Não.

Ser capitão não é isso.

Capitão não precisa provar valentia para o oceano.

O mar não está interessado no seu currículo, na quantidade de milhas que você navegou, no tamanho do seu barco ou na quantidade de milhas que você tem na carteira.

Na minha visão, experiência deveria produzir exatamente o contrário da arrogância.

Quanto mais tempo você passa no mar, mais aprende a respeitá-lo.

EXISTEM PESSOAS ESPERANDO POR VOCÊ EM TERRA

E tem uma questão ainda mais importante.

Quando um comandante decide sair, ele não está decidindo apenas por ele.

Talvez tenha esposa esperando em casa.

Filhos.

Pais.

Amigos.

Família.

Mas também existem pessoas dentro daquela embarcação cuja segurança passa diretamente pelas decisões de quem está no comando.

Convidados geralmente não conhecem meteorologia marítima.

Não acompanham previsão do tempo.

Não conhecem período de onda.

Não sabem interpretar uma frente fria.

Muitas vezes nem sabem diferenciar uma condição desconfortável de uma condição potencialmente perigosa.

Elas simplesmente confiam no comandante.

É uma responsabilidade enorme.

Por isso comando não pode ser exercício de ego.

O ACIDENTE DO CANTOR RICK DEIXA UMA REFLEXÃO

No caso do helicóptero que transportava Rick, sabemos que havia condições meteorológicas adversas em Santa Catarina naquele dia e que fatores climáticos estão entre os elementos sendo analisados pela investigação. Sabemos também que a aeronave estava regular perante a ANAC. O que ainda não sabemos é a sequência de fatores que levou ao acidente.

Por isso seria irresponsável apontar culpados agora.

Mas a tragédia nos obriga a pensar.

Quantas vezes alguém segue viagem porque já começou?

Quantas vezes uma pessoa mantém um plano porque muita gente está esperando?

Quantas vezes o compromisso fala mais alto que a prudência?

Quantas vezes a frase “vamos tentar” aparece exatamente quando o correto seria dizer “vamos voltar”?

Na aviação existe alternado.

Existe espera.

Existe retorno.

Existe cancelamento.

Na navegação deveria existir exatamente a mesma mentalidade.

TODO PLANO DE NAVEGAÇÃO PRECISA TER UM PLANO B

Antes de soltar as amarras, não basta saber para onde você vai.

É preciso saber o que fará se não conseguir chegar.

Qual é o abrigo alternativo?

Onde posso entrar?

Qual minha autonomia?

Como estará a condição na volta?

A previsão está melhorando ou piorando?

Qual o limite de vento estabelecido para aquela operação?

Qual o limite de mar?

E principalmente:

em que condição vou abortar a viagem?

Isso deveria ser decidido antes.

Porque quando você estabelece o limite somente depois que está no meio da situação, entra um adversário perigoso: o ego.

“Já chegamos até aqui.”

“Falta pouco.”

“Vamos continuar.”

Na aviação existe um fenômeno muito conhecido ligado à insistência em continuar um plano mesmo quando as condições começam a recomendar mudança.

Na náutica também acontece.

E acontece muito.

EXISTE UMA MANOBRA QUE NÃO APARECE NOS CURSOS

Depois de muitos anos dentro da náutica, aprendi que algumas das decisões mais importantes de um comandante acontecem antes de ligar o motor.

Olhar para o céu.

Consultar meteorologia.

Observar vento.

Analisar mar.

Verificar equipamento.

Conversar com a tripulação.

E, se necessário, dizer:

Não vamos.

Essa decisão não produz vídeo bonito.

Não produz fotografia de barco navegando.

Não impressiona ninguém no Instagram.

Talvez até produza reclamação dos convidados.

Mas segurança nunca deveria disputar popularidade.

O MAR ESTARÁ LÁ AMANHÃ

Perdeu o passeio?

Faça outro.

Perdeu a reserva?

Reserve novamente.

Não conseguiu chegar à ilha?

Vá outro dia.

Mudou o roteiro?

Escolha um destino protegido.

Ficou na marina?

Tudo bem.

O barco continuará lá.

O mar também.

Porque existe uma diferença gigantesca entre medo e prudência.

Medo paralisa sem motivo.

Prudência reconhece um risco e age antes que ele se transforme em problema.

E talvez essa seja uma das maiores características de um verdadeiro comandante.

Não aquele que consegue sair em qualquer condição.

Mas aquele que tem autoridade, experiência e responsabilidade suficientes para dizer:

“Hoje nós não vamos sair.”

Porque capitão não é quem desafia o mar.

Capitão é quem entende quando não deve desafiá-lo.

E, no final das contas, comandar não significa apenas saber sair do porto.

Significa assumir a responsabilidade de trazer todos de volta para casa.

Fica a dica!

Até o próximo artigo.

Ney Broker
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