42 ANOS DEPOIS: A TRAVESSIA DE AMYR KLINK VOLTA AO MAR, AO CINEMA E CHEGA À PRÉ-SELEÇÃO DO OSCAR
Em 1984, Amyr Klink atravessou sozinho o Atlântico Sul em um barco a remo de menos de seis metros. Quarenta e dois anos depois, sua história voltou ao centro das atenções: ganhou um filme dirigido por Carlos Saldanha, chegou à lista final brasileira para o Oscar 2027 e inspirou outro brasileiro a partir da Namíbia e cruzar novamente o oceano a remo.
Existem histórias que o tempo não apaga.
Algumas, pelo contrário, ficam ainda maiores quando conseguimos olhar para elas com a distância dos anos.
Em 1984, Amyr Klink deixou Lüderitz, na Namíbia, sozinho, a bordo de um pequeno barco a remo chamado I.A.T.
Sem motor.
Sem vela.
Sem GPS.
O objetivo era atravessar o Atlântico Sul e chegar ao Brasil.
Cem dias depois, em 18 de setembro de 1984, Amyr alcançava a Praia da Espera, na Bahia, concluindo uma travessia de aproximadamente 3.500 a 3.700 milhas náuticas que entraria para a história da navegação brasileira. O feito deu origem ao livro Cem Dias Entre Céu e Mar, publicado posteriormente e transformado em um dos relatos de viagem mais conhecidos do país.
Mais de quatro décadas depois, aquela mesma história voltou a acontecer.
Mas de três maneiras diferentes.
No mar.
No cinema.
E até na seleção brasileira para o Oscar.
ANTES DOS 100 DIAS NO MAR, EXISTIRAM ANOS DE PREPARAÇÃO
Quando contamos essa história rapidamente, existe o risco de transformar Amyr Klink simplesmente em um aventureiro que resolveu entrar num barco e atravessar um oceano.
Foi praticamente o contrário.
Entre a ideia e a realização da travessia houve cerca de três anos de preparação.
Amyr estudou tentativas anteriores, analisou por que outros projetos haviam fracassado e chegou a preencher dezenas de páginas procurando justamente respostas para uma pergunta fundamental:
o que poderia dar errado?
O I.A.T. foi construído especificamente para aquela missão. Era uma embarcação em madeira laminada e resina epóxi, com menos de seis metros de comprimento, concebida para enfrentar cerca de 3.500 milhas náuticas de oceano.
Dados históricos publicados sobre o barco apontam 5,94 metros de comprimento e deslocamento carregado na ordem de 1.190 kg.
Isso é importante.
O barco não precisava simplesmente navegar bem.
Precisava permitir que uma única pessoa comesse, dormisse, navegasse, se protegesse do tempo e sobrevivesse durante meses sem qualquer apoio externo direto.
Para mim, olhando pelo lado de quem trabalha com embarcação, essa é uma das partes mais interessantes dessa história.
Projeto oceânico não pode ser pensado somente para quando tudo está funcionando.
É preciso pensar principalmente no dia em que alguma coisa deixar de funcionar.
A ROTA TAMBÉM FAZIA PARTE DO PROJETO
Lüderitz não foi escolhida simplesmente porque ficava na costa africana.
A região apresenta condições oceanográficas importantes para uma travessia em direção ao Brasil.
O próprio Amyr posteriormente explicou a importância da Corrente de Benguela, que naquela região se afasta da costa africana em direção ao Atlântico, associada ao regime dos ventos alísios que seguem rumo ao Nordeste brasileiro.
Em outras palavras, muito antes de colocar os remos na água, era preciso entender onde a própria natureza poderia ajudar — ou atrapalhar — o barco.
Esse é um ponto que às vezes desaparece quando a história é resumida simplesmente como uma demonstração de coragem.
Coragem teve.
Mas houve muito planejamento antes dela.
NAVEGAR SEM GPS ERA OUTRA CONVERSA
Talvez seja difícil para quem começou a navegar na era dos plotters imaginar o que significava estar sozinho no meio do Atlântico em 1984.
Não havia GPS disponível a bordo.
Não havia celular.
Não havia internet.
Não existia aplicativo meteorológico mostrando vento, pressão, precipitação e previsão para os próximos sete dias.
Amyr utilizava navegação astronômica com sextante para determinar sua posição e um barômetro para acompanhar mudanças atmosféricas. Também possuía equipamento de radioamador, alimentado por painéis solares.
Hoje apertamos alguns botões e sabemos posição, rumo, velocidade sobre o fundo e distância do próximo waypoint.
Naquela época, o navegador precisava olhar para o céu.
E saber o que fazer com aquilo que estava vendo.
ÁGUA, COMIDA E PESO: AUTONOMIA DE VERDADE
Outro problema enorme era a água.
Segundo Raphael Garcia relatou posteriormente ao comparar os dois projetos, Amyr embarcou com cerca de 275 litros de água potável.
São aproximadamente 275 quilos somente de água dentro de uma embarcação com 5,94 metros.
A alimentação também fazia parte do projeto de autonomia. Amyr utilizou alimentos desidratados e estudou cuidadosamente como reduzir volume, peso e consumo de água durante a travessia.
Quando falamos de autonomia num barco pequeno, cada quilo embarcado importa.
Água não era simplesmente provisão.
Era parte do cálculo de deslocamento do barco.
ATÉ O REMADOR PRECISAVA TER UM PLANO DE MANUTENÇÃO
Existe uma história dessa viagem que sempre achei particularmente inteligente.
No início da travessia, Amyr tentou remar durante períodos muito longos.
Descobriu rapidamente que aquilo cobrava a conta no dia seguinte.
Resolveu então criar, em tom de brincadeira, sua própria “Legislação Trabalhista de Bordo”.
O expediente normal seria de oito horas de remo, com no máximo duas horas extras.
Não era preguiça.
Era gerenciamento de energia.
Depois de cem dias, não vence quem consegue produzir mais durante uma tarde.
Vence quem consegue continuar operacional amanhã, depois de amanhã e na semana seguinte.
Isso vale para o remador.
E vale para praticamente qualquer sistema dentro de uma embarcação.
O I.A.T. CAPOTOU — E CONTINUOU A VIAGEM
Durante a travessia, Amyr enfrentou condições severas no Atlântico.
Há registros de três capotamentos provocados pelas condições de mar e correntes. Mesmo assim, o I.A.T. completou a travessia sem grandes avarias estruturais.
Aqui aparece novamente a diferença entre uma embarcação simplesmente bonita e uma embarcação pensada para cumprir determinada missão.
Num barco oceânico, estabilidade, compartimentação, estanqueidade, possibilidade de recuperação e redundância deixam de ser detalhes.
Podem representar a diferença entre continuar a viagem ou terminar a viagem.
A HISTÓRIA VIROU LIVRO — E AGORA VAI PARA O CINEMA
A experiência deu origem ao livro Cem Dias Entre Céu e Mar, lançado em 1985.
Quarenta e dois anos depois da travessia, a história também chega às telas.
O longa 100 Dias tem direção de Carlos Saldanha, cineasta brasileiro responsável por produções como Rio e O Touro Ferdinando, roteiro de Elena Soarez e Filipe Bragança interpretando Amyr Klink.
Segundo a produção, o filme não se limita aos acontecimentos dentro do barco. A narrativa intercala a travessia com momentos da infância e juventude de Amyr, procurando mostrar também como aquele personagem foi formado antes de chegar ao Atlântico.
A estreia comercial nos cinemas brasileiros está marcada para 29 de outubro de 2026.
Mas antes mesmo de chegar ao circuito comercial, o filme ganhou outro capítulo.
“100 DIAS” CHEGOU À SELEÇÃO FINAL BRASILEIRA PARA O OSCAR 2027
Em setembro de 2026, 100 Dias esteve entre os seis filmes pré-selecionados pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.
É importante colocar isso da maneira correta.
O filme não foi indicado ao Oscar.
Também não chegou a disputar oficialmente a categoria representando o Brasil.
Ele chegou à etapa final da seleção brasileira que definiria qual longa seria enviado pelo país.
No dia 16 de setembro, a Academia Brasileira de Cinema anunciou que o escolhido foi Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton.
Portanto, 100 Dias ficou fora da corrida brasileira para aquela categoria, mas estar entre os seis finalistas já colocou o longa em evidência antes mesmo de sua estreia nacional.
A Revista Náutica destacou justamente esse fato em matéria publicada em 18 de setembro.
Até aqui já teríamos assunto suficiente para contar uma boa história.
Só que 2026 resolveu acrescentar outro capítulo.
E dessa vez não aconteceu numa tela de cinema.
Aconteceu novamente no Atlântico.
42 ANOS DEPOIS, OUTRO BRASILEIRO VOLTOU A LÜDERITZ
O nome dele é Raphael Garcia.
Brasileiro, engenheiro eletrônico formado pela Poli-USP e radicado na Nova Zelândia, Raphael conheceu em profundidade a história de Amyr depois de ler Cem Dias Entre Céu e Mar em 2022.
Segundo contou posteriormente, naquela época praticamente não possuía experiência marítima e nunca havia remado.
Em vez de transformar imediatamente a ideia em uma expedição, começou estudando.
Marinharia.
Navegação.
Construção naval.
Navegação celestial.
Remo.
Fez curso de vela, participou de viagens costeiras na Nova Zelândia e chegou a integrar uma travessia até Tonga.
O projeto foi crescendo até resultar numa nova embarcação.
Seu nome:
Sater.
SATER: UMA NOVA EMBARCAÇÃO, INSPIRADA NO I.A.T.
O Sater não é uma cópia do barco de Amyr.
Mas o I.A.T. serviu como uma das referências para seu desenvolvimento.
Existe inclusive uma curiosidade interessante: o Sater é ligeiramente menor.
O barco de Raphael mede 5,85 metros.
O I.A.T., 5,94 metros.
Só que 42 anos de desenvolvimento tecnológico mudaram completamente os equipamentos disponíveis para uma travessia como aquela.
Enquanto Amyr precisava transportar centenas de litros de água, Raphael tinha dessalinizador, além de equipamento manual de reserva.
Enquanto Amyr dependia da navegação astronômica, Raphael podia utilizar GPS.
Enquanto as comunicações disponíveis em 1984 eram muito mais limitadas, o Sater tinha recursos como VHF e AIS, além da eletrônica moderna disponível atualmente.
AIS, vale lembrar, significa Automatic Identification System, ou Sistema de Identificação Automática — tecnologia empregada para intercâmbio de informações como identidade, posição, rumo e velocidade entre embarcações e estações equipadas.
Para um barco de menos de seis metros no meio de rotas oceânicas, isso não é luxo.
É segurança.
MAS UM DOS MELHORES EQUIPAMENTOS DO SATER ERA UM PEDAÇO DE MADEIRA
A tecnologia avançou.
Só que uma das recomendações mais importantes que Raphael recebeu de Amyr não envolvia satélite, GPS nem eletrônica.
Raphael telefonou para Amyr enquanto ainda desenvolvia o projeto e recebeu dele algumas recomendações.
Uma delas foi instalar no convés bordas elevadas de madeira, criando pontos onde os pés pudessem encontrar apoio.
Pode parecer uma coisa pequena.
No meio do oceano, com convés molhado e o barco se movimentando, deixou de ser.
Depois da viagem, Raphael contou que aqueles apoios foram fundamentais para conseguir se deslocar sobre a embarcação, trabalhar com cabos e manusear a âncora de mar.
É uma bela demonstração da diferença entre informação técnica e experiência prática.
Algumas coisas aparecem no projeto.
Outras só aparecem depois que alguém já tomou muita água na cabeça.
8 DE ABRIL DE 2026: O SATER PARTE DA NAMÍBIA
Raphael escolheu exatamente Lüderitz, o porto de partida utilizado por Amyr 42 anos antes.
Saiu em 8 de abril de 2026.
Sozinho.
A remo.
Rumo ao Brasil.
Mas não se tratava de reproduzir literalmente cada milha do track de 1984.
Os barcos eram diferentes.
As condições meteorológicas eram diferentes.
Os equipamentos eram diferentes.
E o destino final também seria diferente.
Amyr havia terminado sua travessia na Praia da Espera.
Raphael seguiria até Salvador.
136 DIAS DEPOIS
No dia 22 de agosto de 2026, depois de 136 dias no Atlântico, Raphael Garcia entrou na Bahia Marina, em Salvador.
Esperando por ele no cais estava justamente Amyr Klink.
A imagem dos dois juntos talvez explique melhor essa história do que qualquer texto.
De um lado, o homem que havia feito aquela travessia em 1984.
Do outro, alguém que tinha lido sua história 38 anos depois, transformado aquela leitura em projeto, aprendido a navegar, construído uma embarcação e acabado de cruzar o Atlântico.
É difícil fechar um círculo de maneira mais perfeita.
100 DIAS CONTRA 136: A TECNOLOGIA NÃO FEZ O BARCO CHEGAR MAIS RÁPIDO
Essa comparação merece cuidado.
Amyr concluiu sua travessia em cerca de 100 dias.
Raphael levou 136.
Alguém poderia olhar os números e perguntar:
Como um barco com GPS, AIS, dessalinizador e toda a tecnologia disponível em 2026 demorou mais?
Porque o oceano não funciona assim.
Tecnologia melhora informação.
Melhora comunicação.
Pode aumentar segurança.
Reduz determinadas incertezas.
Mas não altera magicamente vento, onda e corrente.
As condições encontradas por duas embarcações separadas por 42 anos jamais serão idênticas.
Por isso não faz sentido transformar os tempos em uma competição.
São duas travessias realizadas em momentos e condições diferentes.
O interessante é justamente comparar como cada navegador enfrentou o mesmo problema utilizando os recursos disponíveis em sua época.
I.A.T. 1984 X SATER 2026: 42 ANOS DE EVOLUÇÃO
No I.A.T.:
sextante para navegação;
barômetro para acompanhar o tempo;
radioamador;
água potável embarcada;
painéis solares para alimentar equipamentos;
e uma pequena embarcação projetada para sobreviver meses no oceano.
No Sater:
GPS;
AIS;
VHF;
dessalinizador;
sistema manual de reserva;
eletrônica moderna;
e novamente uma pequena embarcação projetada para sobreviver meses no oceano.
Quarenta e dois anos separam os dois barcos.
Mas existe uma palavra presente nos dois projetos:
redundância.
Porque equipamento pode falhar.
Energia pode acabar.
Eletrônica pode parar.
O tempo pode mudar.
E quando existe apenas uma pessoa a bordo, não há outro tripulante para resolver o problema.
A PARTE MAIS INTERESSANTE NÃO ESTÁ NOS REMOS
Depois de pesquisar novamente essa história, cheguei a uma conclusão diferente daquela que normalmente aparece nas redes sociais.
O mais impressionante não é alguém conseguir remar durante cem dias.
Nem durante 136.
O mais interessante é tudo aquilo que precisou ser resolvido antes de começar a remar.
Projeto.
Estabilidade.
Autonomia.
Água.
Alimentação.
Meteorologia.
Correntes.
Navegação.
Comunicação.
Geração de energia.
Segurança.
Redundância.
Rotina.
Descanso.
E principalmente a capacidade de imaginar problemas antes que eles acontecessem.
Isso é muito mais próximo da realidade da navegação oceânica do que simplesmente chamar alguém de aventureiro.
EM POUCOS MESES, UMA HISTÓRIA DE 1984 VOLTOU A ACONTECER TRÊS VEZES
E talvez seja justamente isso que torna 2026 um ano tão curioso para essa história.
Em um intervalo de poucos meses, uma travessia realizada há 42 anos voltou ao centro das atenções por três caminhos completamente diferentes.
Raphael Garcia voltou a Lüderitz e atravessou sozinho o Atlântico Sul a remo.
O longa 100 Dias chegou à lista dos seis filmes finalistas para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027.
E em 29 de outubro a história de Amyr Klink chegará aos cinemas brasileiros para ser apresentada a uma nova geração.
É interessante pensar nisso.
Em 1984 não existia GPS a bordo daquele barco.
Não existia internet.
Muito menos redes sociais.
Amyr estava no Atlântico com um sextante, um rádio, alguns painéis solares, centenas de litros de água, remos e um barco desenvolvido para aquela missão.
Quarenta e dois anos depois, temos GPS, AIS, satélite, dessalinização compacta, previsão meteorológica muito mais sofisticada e comunicação praticamente instantânea.
Mudaram os equipamentos.
Mudaram as ferramentas.
Mudou a quantidade de informação disponível dentro de um pequeno barco.
Mas algumas coisas permaneceram exatamente no mesmo lugar.
Planejamento.
Preparação.
Redundância.
Disciplina.
E respeito pelo mar.
Porque por mais tecnologia que coloquemos a bordo, existe uma coisa que continua igual desde que o primeiro homem resolveu sair da praia:
no final, quem dá a última palavra é o oceano.
Até o próximo artigo!
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Fontes consultadas: acervo oficial de Amyr Klink; Academia Brasileira de Cinema; Ventre Studio; Revista Náutica; jornal A Tarde e entrevistas e registros históricos sobre as duas travessias.