MULHERES NO COMANDO: ELAS SEMPRE TIVERAM LUGAR A BORDO — FALTAVA O MERCADO PERCEBER
TER UM BARCO NÃO PRECISA SER UM BICHO DE SETE CABEÇAS — E A NÁUTICA PRECISA FALAR MAIS COM AS MULHERES
Assisti a um vídeo da empresária Betty Eisenbraun falando diretamente com mulheres que têm vontade de entrar para o mundo náutico.
A abordagem dela me chamou a atenção porque toca numa questão que, para mim, não é nova.
Eu trabalho nesse mercado desde os anos 80 e convivo profissionalmente com mulheres a bordo há décadas.
Por isso, quando falo que gostaria de ver mais mulheres na náutica, não estou falando de uma tendência que apareceu agora.
Estou falando de algo que eu já vi funcionar na prática.
Mulheres pilotando.
Mulheres manobrando.
Mulheres trabalhando como marinheiras.
Mulheres como ajudantes.
Mulheres como capitãs.
Mulheres comprando barco.
Mulheres decidindo.
Mulheres comandando.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores oportunidades que o mercado náutico brasileiro ainda não percebeu completamente.
MINHA EXPERIÊNCIA COM MULHERES A BORDO COMEÇOU NOS ANOS 90
Tenho uma história pessoal que ajuda a explicar por que vejo esse assunto dessa forma.
Nos anos 90, a Patrícia, minha esposa, já navegava comigo.
Eu ensinei ela a pilotar.
Ela pilotava barco, fazia manobras e viajava comigo pelo Brasil.
Estou falando de uma época em que a presença feminina no comando de uma embarcação de esporte e recreio era muito menos comum do que é hoje.
E aquilo, para mim, sempre foi absolutamente natural.
Se ela tinha interesse, capacidade e vontade de aprender, por que não pilotaria?
Minha irmã também trabalhou no setor náutico.
Mais tarde, durante minha passagem pela Ferretti, cheguei a trabalhar com cinco marinheiras na equipe.
Ao longo da minha trajetória profissional, já empreguei diretamente ou ajudei a colocar no mercado seguramente mais de 30 mulheres em diferentes funções ligadas à náutica.
E provavelmente esse número é maior.
HOJE ADMINISTRO UMA COMUNIDADE COM CENTENAS DE MULHERES DO SETOR
Essa relação continuou crescendo.
Hoje administro um grupo que reúne centenas de mulheres ligadas profissionalmente à náutica.
São marinheiras, ajudantes, profissionais de bordo e capitãs.
Mulheres procurando oportunidade.
Mulheres oferecendo trabalho.
Mulheres trocando informação.
Mulheres construindo carreira nesse mercado.
Durante muito tempo, inclusive, utilizei meus próprios canais nas redes sociais para divulgar gratuitamente perfis de marinheiras que estavam procurando trabalho.
Publicava a profissional, apresentava sua experiência e ajudava a conectar essas mulheres com proprietários e embarcações.
Algumas conseguiram trabalho dessa maneira.
Uma delas chegou posteriormente a ser entrevistada e capa de revista.
Não estou contando isso para receber medalha.
Estou contando porque existe uma diferença entre falar sobre inclusão feminina na náutica olhando de fora e ter convivido profissionalmente com essas mulheres dentro do barco, da marina e da operação.
Eu vivi isso.
JÁ TIVE CINCO MULHERES TRABALHANDO COMIGO AO MESMO TEMPO NA MARINA
Mais recentemente, cheguei novamente a ter cinco mulheres trabalhando comigo simultaneamente dentro da operação na marina.
Hoje a estrutura é menor e tenho uma profissional trabalhando comigo.
Mas ao longo dos anos passaram várias outras.
E uma coisa ficou bastante clara para mim:
competência náutica não tem sexo.
Já trabalhei com marinheiro excelente e marinheiro ruim.
Com marinheira excelente e marinheira ruim.
É exatamente assim que deveria ser.
A avaliação tem que ser profissional.
Responsabilidade.
Conhecimento.
Comprometimento.
Postura.
Capacidade de aprender.
Capacidade de executar.
O resto é preconceito velho de píer.
“EU QUERO UM BARCO, MAS SERÁ QUE ISSO É PARA MIM?”
Essa pergunta ainda existe entre muitas mulheres.
Empresárias, executivas, médicas, advogadas, produtoras rurais, comerciantes, profissionais liberais e empreendedoras que têm capacidade financeira para possuir uma embarcação, mas nunca sequer entraram em uma marina para entender como funciona.
Muitas vezes não é falta de vontade.
É distância cultural.
Durante décadas, a comunicação náutica foi predominantemente direcionada ao homem.
Motor.
Potência.
Velocidade.
Eletrônica.
Manobra.
Marina.
Manutenção.
Documentação.
Capitania.
Quando ninguém explica, tudo parece complicado.
Mas não precisa ser.
NÃO COMECE ESCOLHENDO O BARCO. COMECE ESCOLHENDO A VIDA QUE VOCÊ QUER TER A BORDO
Esse seria um dos meus primeiros conselhos para qualquer mulher pensando em entrar na náutica.
Antes de perguntar:
“Qual barco eu compro?”
Pergunte:
“O que eu quero fazer com o barco?”
Passear com os filhos?
Receber amigas?
Passar finais de semana a bordo?
Dormir no barco?
Viajar?
Usar no verão?
Pilotar pessoalmente?
Ter marinheiro?
Fazer pequenos cruzeiros?
Cada resposta aponta para um tipo diferente de embarcação.
Não existe simplesmente “o melhor barco”.
Existe o barco adequado para a utilização de cada pessoa.
PRIMEIRO, VISITE UMA MARINA
Outro ponto importante levantado no vídeo da Betty é justamente aproximar-se desse ambiente.
Se você tem curiosidade, vá até uma marina.
Conheça.
Caminhe pelo píer.
Observe.
Converse.
Veja os diferentes tamanhos de embarcação.
Entenda como funciona uma vaga.
Pergunte sobre manutenção, limpeza, abastecimento e apoio.
Veja quanto tempo levaria da sua casa até o barco.
Parece detalhe, mas não é.
Barco bom é barco utilizado.
Uma embarcação maravilhosa que fica tão distante que você quase nunca consegue usar pode ser uma péssima escolha.
EXISTEM VÁRIAS PORTAS DE ENTRADA
Durante muito tempo, a náutica parecia oferecer somente duas alternativas:
Comprar um barco inteiro ou ficar fora.
Hoje existem muito mais possibilidades.
Propriedade integral.
Compartilhamento.
Cotas.
Clubes.
Locação.
Charter.
Cada modelo atende um perfil diferente.
Quem navega muito e quer liberdade completa pode preferir a propriedade integral.
Quem ainda está conhecendo esse universo talvez possa começar utilizando outras modalidades.
O importante é não acreditar que existe apenas uma porta de entrada.
E SIM: EU INCENTIVO MULHER A APRENDER A PILOTAR
Talvez aqui minha própria história fale mais alto.
Eu ensinei a Patrícia a pilotar nos anos 90.
Ela manobrava.
Viajava comigo.
E aquilo nunca me pareceu extraordinário.
Era simplesmente alguém aprendendo a navegar.
Por isso continuo pensando da mesma maneira hoje.
Se uma mulher compra um barco e deseja aprender a pilotar, aprenda.
Faça o curso.
Estude.
Pratique.
Ganhe experiência.
Aprenda atracação.
Fundeio.
Meteorologia.
Segurança.
Comunicação.
Regras de navegação.
Procedimentos de emergência.
Não precisa virar mecânica.
Não precisa desmontar um motor.
Mas conhecer sua embarcação traz autonomia e segurança.
“MAS EU NÃO QUERO PILOTAR”
Também não existe problema algum.
Ser proprietária não obriga ninguém a ser comandante.
Há inúmeros proprietários homens que têm marinheiro e praticamente nunca assumem o comando.
Uma mulher pode fazer exatamente a mesma escolha.
O que eu não gostaria é de ver alguém deixando de pilotar porque acredita que não tem capacidade para aprender.
Isso não existe.
Manobra não tem gênero.
Manobra tem técnica e treinamento.
NÃO EXISTE “BARCO PARA MULHER”
Também tenho dificuldade com essa ideia.
Mulher não precisa de um barco cor-de-rosa.
Não precisa de embarcação simplificada.
Não precisa de algum produto artificialmente chamado de “barco feminino”.
Precisa ser ouvida.
Uma mulher pode querer uma lancha pequena para passear com os filhos.
Pode querer uma offshore.
Pode querer uma lancha esportiva de 40 pés.
Pode querer um flybridge de 60.
Pode querer um trawler para viajar.
Pode querer um veleiro.
Pode querer assumir o comando.
Pode querer contratar comandante.
Quem decide é ela.
NA HORA DA COMPRA, EMOÇÃO NÃO SUBSTITUI VISTORIA
Aqui entra minha área profissional.
Barco usado precisa ser analisado.
Casco.
Estrutura.
Motores.
Gerador.
Elétrica.
Hidráulica.
Eletrônica.
Documentação.
Histórico de manutenção.
Uma vistoria não serve simplesmente para encontrar defeitos.
Ela serve para colocar informação na mesa.
Principalmente para quem está comprando sua primeira embarcação.
Quanto mais informação a compradora tiver, menor será aquela sensação de estar entrando num mundo desconhecido.
O MERCADO TAMBÉM PRECISA MUDAR
Não adianta fazer campanha dizendo:
“Mulheres, venham para a náutica.”
E quando uma mulher chega à loja com o marido, o vendedor conversar exclusivamente com ele.
Isso ainda acontece.
Marinas, estaleiros, brokers, escolas náuticas, empresas de charter, oficinas e prestadores de serviço precisam compreender que a mulher pode ser:
A proprietária.
A compradora.
A comandante.
A responsável financeira.
A pessoa que entende mais de barco naquele casal.
Ou todas as anteriores.
MULHERES JÁ ESTÃO NO MAR. TALVEZ ESTEJA FALTANDO O MERCADO OLHAR PARA ELAS
Quando olho hoje para um grupo com centenas de mulheres trabalhando na náutica, percebo o tamanho da transformação.
Mas também percebo quanto ainda existe para avançar.
Quero ver mais marinheiras.
Mais capitãs.
Mais comandantes.
Mais brokers.
Mais engenheiras.
Mais mecânicas.
Mais empresárias.
Mais proprietárias.
Mais mulheres entrando numa marina sem a sensação de que estão entrando em território alheio.
Porque não estão.
O mar nunca perguntou quem está segurando o timão.
Ele apenas exige responsabilidade, conhecimento e respeito.
E talvez exista uma mulher lendo este artigo agora que passa há anos diante de uma marina e pensa:
“Eu gostaria de ter um barco.”
Então comece conhecendo.
Visite uma marina.
Faça uma locação.
Passe um dia embarcada.
Converse com profissionais.
Aprenda.
Faça seu curso.
Pilote.
Experimente diferentes embarcações.
Entenda os custos.
Descubra qual tipo de navegação combina com sua vida.
E só depois decida se quer comprar.
Talvez você descubra que não é para você.
Mas também pode acontecer algo bem mais interessante:
você descobrir que deveria ter assumido esse timão há muito tempo.
O mar nunca deixa de ensinar. Esta foi apenas uma das muitas histórias reais que ainda tenho para compartilhar.
Até o próximo artigo.
Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval
WhatsApp (48) 9 8461-1646
"Artigo inspirado em uma publicação de Betty Eisenbraun sobre a presença feminina no universo náutico."
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