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JACARÉ CABELUDO: QUANDO O CANAL 68 ERA O ENTRETENIMENTO DA MARINHEIRADA EM ANGRA


Antes de internet, WhatsApp, Instagram e Starlink, quem passava dias embarcado esperando o proprietário aparecer precisava arrumar alguma coisa para matar o tempo.

Em Angra dos Reis, durante muitos anos, uma dessas “atrações” atendia pelo apelido de Jacaré Cabeludo.

Eu comecei a navegar pela região nos anos 1980, mas foi durante os anos 1990, que lembro muito bem dele infernizando o rádio VHF.

DO CANAL 16 PARA O 68

O ritual era mais ou menos conhecido pela marinheirada.

Jacaré Cabeludo aparecia pelo canal 16, fazia chamada e depois migrava para o canal 68.

E aí começava o espetáculo.

Não consigo precisar hoje qual era o horário, mas havia períodos em que ele permanecia um bom tempo no rádio, falando besteira, provocando, contando histórias e ocupando o canal.

Para quem precisava efetivamente utilizar o VHF, provavelmente era uma bela dor de cabeça.

Só que aconteceu uma coisa curiosa: o sujeito acabou conquistando audiência.

A MARINHEIRADA FICAVA ESPERANDO

O mais engraçado era que muita gente reclamava do Jacaré Cabeludo, mas, quando chegava perto do horário em que ele costumava aparecer, ficava de ouvido no 68.

Principalmente marinheiros que estavam de passagem por Angra ou permaneciam embarcados aguardando o patrão chegar.

O barco estava pronto.

Convés lavado.

Motores conferidos.

Gelo a bordo.

Tudo preparado.

E o proprietário não aparecia.

Hoje o marinheiro pega o celular, abre o Instagram, YouTube, Netflix ou conversa pelo WhatsApp.

Naquela época não existia nada disso.

Então, em determinados momentos, o entretenimento estava dentro do próprio rádio VHF.

E quando o Jacaré entrava no ar, tinha marinheiro aumentando o volume para acompanhar a próxima palhaçada.

Era quase uma programação clandestina da Baía da Ilha Grande.

UMA ÉPOCA DIFERENTE DA NÁUTICA

Quem conheceu Angra naquela época sabe que o rádio fazia parte da vida social de bordo de uma maneira que talvez seja difícil explicar para quem começou a navegar recentemente.

Você reconhecia marinheiros, comandantes, marinas e embarcações muitas vezes apenas pela voz.

O VHF servia para trabalho, segurança e comunicação, mas também acabava refletindo toda aquela comunidade que vivia entre Angra, Ilha Grande, Bracuhy, Ribeira e as dezenas de ilhas da região.

E no meio disso apareciam os personagens.

Jacaré Cabeludo foi um deles.

Não sei dizer quando exatamente ele desapareceu do rádio. Também não sei sua identidade verdadeira.

Mas lembro perfeitamente da fama.

Entre o início dos anos 1990 e principalmente durante os anos 2000, bastava alguém falar em Jacaré Cabeludo para muita gente que navegava por Angra saber exatamente de quem estavam falando.

O sujeito que infernizava o canal.

E que, ironicamente, muita gente sintonizava o rádio justamente para escutar.

Hoje seria provavelmente bloqueado, denunciado, gravado, filmado e transformado em meme em questão de minutos.

Naquela época?

Era só colocar o VHF no 68 e acompanhar o programa.

Ney Broker
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