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DO APERITIVO AO CHURRASCO: COMO A CULTURA A BORDO MUDOU E TRANSFORMOU A ROTINA DOS MARINHEIROS

Sou de uma época em que quem tinha barco era, normalmente, uma família de alto poder aquisitivo.

E, curiosamente, quase nenhuma embarcação tinha churrasqueira.

No dia anterior ao passeio, a cozinha da casa já começava a trabalhar. A empregada preparava tudo. Às vezes era uma paella, uma macarronada de camarão, um risoto de frutos do mar, tortas, tábuas de frios, patês caseiros, sanduíches, camarão ao bafo, mexilhão, petiscos... Tudo pronto.

Na manhã seguinte, o motorista levava as caixas térmicas para o barco.

O marinheiro não era churrasqueiro.

Ele apenas servia a comida na hora certa.

E sobrava tempo para fazer aquilo que um barco nasceu para fazer: navegar.

A gente saía do ponto A sem destino fixo. Contornava uma ponta, visitava uma ilha, fundeava para um mergulho, levantava a âncora, seguia para outra enseada, conhecia uma praia diferente e passava o dia explorando.

Ninguém tinha pressa para chegar.

O passeio era a navegação.

Durante 16 anos da minha carreira eu praticamente nem sabia o que era uma churrasqueira a bordo.

Quando o proprietário queria uma refeição preparada na hora, normalmente era um prato único. Em terra eu passava no mercado, ia na peixaria, comprava os ingredientes, levava tudo a bordo e na hora certa preparava um risoto de frutos do mar, um macarrão de camarão, um camarão ao alho e óleo ou um mexilhão. Era uma panela só, pouca louça e logo todo mundo voltava a aproveitar o passeio.

Hoje a realidade mudou completamente.

Antes mesmo de sair da marina, a preocupação já é outra.

"Tem carvão?"

A carne já está separada.

O sal grosso também.

O barco sai do ponto A e vai direto para o ponto B.

Sempre o mesmo lugar.

Todo final de semana.

Aqui no Sul e em boa parte do Sudeste isso virou rotina. Talvez em Angra dos Reis ainda exista mais navegação entre ilhas, porque as opções são inúmeras. Mas, em muitas regiões, o barco chega ao fundeadouro e praticamente encerra a navegação.

O marinheiro larga a âncora, monta a churrasqueira e começa a trabalhar.

Daqui a pouco chega um amigo com outra embarcação.

Depois chega mais um.

Logo aparecem cinco ou seis barcos amadrinhados.

Enquanto os proprietários conversam, mergulham e aproveitam o dia, o marinheiro passa horas em frente ao fogo.

Sol na cabeça.

Calor da churrasqueira no rosto.

Carne para um.

Depois para outro.

Depois chega mais gente.

E o churrasco parece que nunca termina.

Existe ainda um detalhe que pouca gente percebe.

Quem navega sabe que o tempo pode mudar muito rápido.

E justamente nessa hora a churrasqueira costuma estar cheia de carne.

É uma correria.

Tem que retirar a carne, apagar o carvão, esperar a churrasqueira de inox esfriar, desmontar tudo, guardar os equipamentos e preparar o barco para sair.

Muitas vezes não dá tempo.

O marinheiro acaba se queimando na pressa ou precisa navegar com a churrasqueira ainda quente para organizar tudo somente quando chegar ao destino.

Hoje, quando passo pelos fundeadouros, vejo fumaça saindo de praticamente todas as embarcações.

É uma imagem que virou comum.

Eu continuo preferindo o jeito antigo.

Levo os aperitivos prontos.

A família aproveita mais.

A comida continua excelente.

O passeio rende muito mais.

E, principalmente, sobra tempo para aquilo que sempre foi o verdadeiro motivo de comprar um barco.

Navegar.

Porque, na minha opinião, o melhor equipamento que uma embarcação pode oferecer não é uma churrasqueira.

É a liberdade de descobrir um lugar diferente a cada passeio.


Estou há 38 anos vivendo a náutica e acompanhando de perto como a evolução das embarcações também mudou a forma de navegar.

Até o próximo artigo! 


Ney Broker

Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217® • Vistoria In Loco

WhatsApp (48) 9 8461-1646 

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