POR QUE A MAIORIA DOS BARCOS É BRANCA? DO GELCOAT À TEMPERATURA DO CASCO, HÁ MUITO MAIS EXPERIÊNCIA NÁUTICA NESSA ESCOLHA DO QUE PARECE
Esses dias assisti a um vídeo da Boats.co.uk mostrando uma Fairline Targa 40 fora d’água. Enquanto caminhava ao lado da embarcação, a apresentadora levantou uma curiosidade interessante: por que a grande maioria dos barcos é branca?
É uma pergunta simples, mas quem está há muitos anos no mercado náutico já viu isso se repetir em praticamente todos os estaleiros.
Ao longo da minha trajetória trabalhei e acompanhei embarcações de diferentes fabricantes, entre eles Intermarine, Ferretti e Cabrasmar. Modelos mudaram, linhas de casco evoluíram, acabamentos ficaram mais sofisticados e novas cores apareceram, mas o branco permaneceu como a grande referência da indústria.
Às vezes mais puro, às vezes puxando discretamente para outro tom. A própria Ferretti, em determinadas épocas e modelos com os quais trabalhei, utilizou tonalidades ligeiramente diferentes daquele branco absoluto.
Mas o princípio continuava o mesmo.
E isso não é somente estética.
NA MAIORIA DAS LANCHAS DE FIBRA, NEM ESTAMOS FALANDO SIMPLESMENTE DE TINTA
Primeiro é importante fazer uma distinção.
Quando alguém olha uma lancha nova e diz que o casco foi “pintado de branco”, muitas vezes aquela superfície não é uma pintura convencional.
Em grande parte das embarcações construídas em fibra de vidro, o acabamento que enxergamos é o gelcoat.
Durante a fabricação, o gelcoat é aplicado no molde antes da laminação da fibra. Quando o casco sai daquele molde, a superfície externa lisa, brilhante e colorida já está formada.
Por isso o branco acompanha a construção de barcos de fibra há décadas.
É prático, funciona muito bem nesse tipo de fabricação e apresenta um comportamento interessante no ambiente em que uma embarcação vai passar grande parte da vida: debaixo do sol.
O BRANCO ABSORVE MENOS ENERGIA SOLAR
Aqui está uma das principais razões.
Um casco escuro e um casco branco expostos ao mesmo sol não se comportam da mesma maneira.
Superfícies escuras absorvem mais energia solar e tendem a atingir temperaturas superiores. O branco reflete uma parcela maior dessa radiação e aquece menos.
No nosso mercado isso tem bastante importância.
Estamos falando de barcos que ficam horas expostos ao sol de Florianópolis, Angra dos Reis, Rio de Janeiro, litoral paulista, Nordeste e tantas outras regiões onde a incidência solar pode ser muito forte.
E não é somente uma questão de conforto para quem está a bordo.
Temperatura também significa dilatação dos materiais, trabalho sobre acabamentos, adesivos, componentes e toda a estrutura exposta continuamente às condições externas.
Por isso, quando se fala em casco, convés e superestrutura, usar cores claras sempre teve uma lógica muito maior do que simplesmente combinar com o azul do mar.
QUEM JÁ ANDOU DESCALÇO NUM BARCO ENTENDE RAPIDAMENTE
Existe uma maneira muito simples de perceber isso.
Deixe uma superfície branca e uma superfície preta expostas ao mesmo sol durante algumas horas e depois encoste a mão.
No barco acontece exatamente a mesma coisa.
Quem navega sabe o que significa pisar descalço em determinadas superfícies depois de uma tarde inteira de verão.
Por isso vemos tanto branco e outras tonalidades claras também no convés, teto, solário e diferentes áreas externas.
Não é coincidência.
É uma solução que foi sendo consolidada ao longo de décadas de utilização.
CASCO ESCURO É BONITO? MUITO. MAS EXIGE OUTRA ATENÇÃO
Isso não significa que barco tenha que ser branco.
Muito pelo contrário.
Existem cascos azul-marinho, preto, grafite, cinza, verde e várias outras tonalidades que ficam espetaculares.
Eu mesmo já vi embarcações em que a cor escura valorizava muito mais as linhas do projeto.
Hoje também temos tecnologias de pintura e acabamento muito superiores às utilizadas décadas atrás.
Mas existe uma diferença entre escolher uma cor pela estética e ignorar as características daquele acabamento.
Um casco escuro trabalha com temperatura superficial maior e normalmente também evidencia determinadas marcas, riscos e imperfeições de maneira diferente.
Dependendo da cor, um reparo localizado exige muito mais cuidado para acertar tonalidade e acabamento.
E existe outro inimigo conhecido de todo mundo que trabalha com barco: o tempo.
Sol, maresia, produtos químicos, lavagem, defensas, atrito, polimento e uso vão alterando qualquer superfície.
ATÉ O BRANCO MUDA DE COR COM OS ANOS
Quem trabalha com reparação de gelcoat conhece bem essa história.
Chega um barco branco para fazer um pequeno reparo. Você consulta a referência original da cor, prepara o material exatamente como deveria e, quando aplica, percebe que aquele branco novo não é mais exatamente igual ao restante do casco.
Por quê?
Porque o barco envelheceu.
Anos de exposição solar, polimentos, produtos de limpeza e condições ambientais alteram gradualmente a aparência do acabamento original.
Por isso acertar gelcoat também exige experiência.
Não existe simplesmente “branco é branco”.
Há diferentes formulações e diferentes tonalidades — e o próprio envelhecimento do barco altera essa referência.
O BRANCO TAMBÉM VIROU PARTE DA IDENTIDADE DA NÁUTICA
Depois de tantas décadas, aconteceu outra coisa interessante.
O branco virou parte da própria identidade visual de uma embarcação.
Imagine mentalmente uma marina.
Provavelmente apareceram vários cascos e superestruturas brancas na sua cabeça.
Pense agora em um grande yacht navegando pelo Mediterrâneo.
Outra vez, provavelmente estamos falando de uma grande estrutura branca contrastando com o azul do mar.
A indústria construiu essa imagem durante décadas.
Mas ela não surgiu somente porque alguém achou bonito.
Havia lógica na fabricação, comportamento térmico favorável, facilidade de acabamento, manutenção e toda uma experiência acumulada pelos estaleiros.
A estética veio junto e acabou se tornando um padrão.
A INDÚSTRIA MUDOU — E OS BARCOS GANHARAM COR
Nos últimos anos vemos cada vez mais estaleiros utilizando cores diferentes.
Grafite, champagne, preto, azul, metálicos e pinturas personalizadas entraram definitivamente no mercado.
Também temos materiais, processos de pintura e proteção muito mais avançados.
E eu gosto dessa evolução.
A náutica não precisa ser uma fila interminável de barcos exatamente iguais.
A cor pode valorizar o desenho, criar identidade e diferenciar determinado modelo.
Mas é interessante perceber que, mesmo com toda essa liberdade de escolha disponível atualmente, basta entrar em praticamente qualquer marina para constatar:
o branco ainda domina.
Depois de décadas trabalhando no mercado náutico e acompanhando barcos de diferentes estaleiros, isso para mim nunca foi coincidência.
O branco é resultado de uma combinação muito simples e eficiente entre fabricação, exposição solar, manutenção, tradição e estética.
Então, da próxima vez que você estiver caminhando por uma marina e olhar aquela sequência de barcos brancos, talvez perceba um detalhe que normalmente passa despercebido.
Até a cor de um barco carrega décadas de experiência da indústria naval.
E na náutica é justamente isso que eu acho interessante: às vezes, aquilo que parece ser apenas uma escolha estética tem muito mais história e conhecimento por trás.
Até o próximo artigo.
Ney Broker
38 anos de experiência | Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217® • Vistoria In Loco
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