O CASAL QUE FEZ DO NAVIO SUA CASA: FUI DESCOBRIR SE MARTY E JESS AINDA VIVEM NO MAR — E ELES TÊM CRUZEIROS RESERVADOS ATÉ 2027
Esses dias apareceu para mim uma história que imediatamente chamou minha atenção.
Um casal australiano de aposentados teria simplesmente decidido trocar a rotina em terra por uma vida praticamente permanente dentro de navios de cruzeiro.
Marty e Jessica Ansen.
A publicação dizia que eles embarcaram em 2022, descobriram que viver navegando poderia fazer mais sentido financeiramente do que uma residência para idosos e começaram a reservar um cruzeiro atrás do outro.
Achei interessante, mas fiquei com aquela dúvida de sempre:
Será que essa história ainda é verdadeira? Onde estão eles hoje? Continuaram viajando?
Então fui pesquisar.
E descobri que a história é ainda mais interessante do que aquela publicação que continua circulando pelas redes sociais.
TUDO COMEÇOU EM JUNHO DE 2022
Marty e Jessica já eram passageiros experientes muito antes dessa aventura.
Quando o mercado de cruzeiros voltou a operar normalmente depois das restrições da pandemia, os dois decidiram compensar o tempo que haviam passado sem viajar.
Em 16 de junho de 2022, embarcaram em Brisbane, na Austrália, no Coral Princess, da Princess Cruises.
Mas não era um cruzeiro comum de alguns dias.
Eles haviam organizado nada menos que 53 viagens consecutivas, equivalentes a aproximadamente 795 dias de navegação, incluindo duas voltas ao mundo programadas para 2023 e 2024.
Ou seja: enquanto milhares de passageiros desembarcavam, pegavam suas malas e voltavam para casa, Marty e Jessica simplesmente permaneciam a bordo esperando os próximos passageiros chegarem.
O navio começou a virar casa.
MAS ELES NÃO COMEÇARAM A NAVEGAR AOS 78 ANOS
Esse é um detalhe que algumas publicações recentes acabam deixando confuso.
Antes mesmo daquele embarque de 2022, o casal já havia realizado 31 cruzeiros com a Princess Cruises e acumulado 1.173 dias no mar.
Portanto, não estamos falando de dois aposentados que acordaram numa manhã, venderam tudo e resolveram experimentar um navio.
Eles já conheciam muito bem esse mundo.
A diferença é que decidiram transformar uma paixão antiga em estilo de vida.
POR QUE MORAR EM UM NAVIO?
É justamente aí que a história ganhou repercussão mundial.
Segundo Marty e Jessica, quando começaram a colocar os custos na ponta do lápis, perceberam que, para a realidade deles, passar longos períodos em cruzeiros poderia sair mais barato do que determinadas opções de moradia para aposentados ou residências assistidas na Austrália.
Marty fez questão de colocar uma ressalva importante em entrevista à ABC News:
para eles funcionava; isso não significava que funcionaria para todo mundo.
E faz sentido analisar dessa maneira.
Dentro do valor contratado estão acomodação, refeições, limpeza diária da cabine, diversas atividades, espetáculos, piscinas, academia e boa parte do entretenimento.
Não existe conta de água chegando.
Não existe conta de luz.
Não tem supermercado semanal.
Não precisam fazer a cama.
Não precisam lavar a louça.
E ainda acordam em lugares diferentes do mundo.
Convenhamos: aposentadoria com vista para o mar tem um marketing difícil de bater.
A ROTINA DELES NÃO É EXATAMENTE FICAR DEITADO NUMA ESPREGUIÇADEIRA
Outra coisa que descobri pesquisando é que eles criaram uma rotina.
Durante as entrevistas, contaram que começavam muitos dos dias por volta das 5h30 jogando uma hora de tênis de mesa.
Jessica participa de atividades e dança.
À noite, costumam jantar, assistir aos espetáculos e eventualmente dançar.
Com o tempo, tripulantes passaram a conhecê-los pelo nome e muitos se tornaram amigos.
No Coral Princess, eles chegaram praticamente à condição de passageiros residentes.
O gerente de hotel Ren van Rooyen contou à televisão australiana que Marty e Jess já eram tratados quase como membros da família da tripulação.
E A FAMÍLIA QUE FICOU EM TERRA?
Essa foi outra coisa que fui procurar.
Eles têm filhas, netos e bisnetos.
Quando os navios passam novamente pelos portos australianos, aproveitam para encontrar a família.
Também mantêm contato pela internet durante as viagens.
Jessica explicou que, depois de tantos anos viajando, vários passageiros e tripulantes também se transformaram numa espécie de família itinerante.
Pessoas desembarcam.
Outras embarcam.
Tripulantes mudam de navio.
Meses depois eles acabam se encontrando novamente em outro lugar do mundo.
Talvez essa seja uma das coisas mais interessantes dessa história: o endereço deles muda constantemente, mas a comunidade acaba se repetindo.
ELES PARARAM EM 2024?
Foi justamente isso que eu quis descobrir.
E não.
Depois de completar aquela enorme sequência no Coral Princess, Marty e Jessica retornaram para terra em agosto de 2024.
Mas ficaram pouco tempo.
Cerca de três meses depois já estavam novamente embarcando, desta vez no Crown Princess.
Em junho de 2025, uma publicação especializada no mercado de turismo informou que eles já acumulavam impressionantes 2.335 dias a bordo em 111 viagens da Princess Cruises.
É importante explicar que esses 2.335 dias não começaram todos em 2022. O número soma também toda a experiência anterior do casal.
Mesmo assim, estamos falando do equivalente a mais de seis anos da vida deles dentro de navios.
E ONDE ESSA HISTÓRIA FOI PARAR?
Aqui veio a parte que mais me surpreendeu.
Em entrevista publicada em 2025, Marty contou que eles já tinham cruzeiros reservados até 2 de setembro de 2027.
Ou seja: aquilo que começou a viralizar como “o casal que reservou 51 cruzeiros consecutivos” ficou velho.
Eles continuaram.
Na pesquisa que fiz agora, em setembro de 2026, não encontrei nenhuma fonte confiável informando o falecimento de Marty ou Jessica. Pelo contrário: reportagens publicadas mais recentemente continuam recuperando a história e citando seus planos de permanecer navegando até 2027.
Não consegui confirmar com uma fonte primária onde exatamente os dois estão neste dia, e por isso prefiro não inventar posição de navio só para deixar a história mais bonita.
Mas existe uma coisa documentada:
eles programaram sua vida no mar até 2027.
NEM TUDO É PERFEITO
Também achei interessante procurar aquilo que quase nunca aparece nas postagens virais:
qual é a parte ruim de morar num cruzeiro?
Marty contou que sente falta de uma coisa extremamente simples: entrar no carro e ir para onde quiser, quando quiser.
Também existem dificuldades para resolver assuntos da vida cotidiana a milhares de quilômetros de casa e a confusão provocada pela mudança constante de fusos horários.
E existe outra questão.
Viver permanentemente em um navio não substitui automaticamente assistência médica de longa permanência ou cuidados especializados que algumas pessoas necessitam na velhice.
Portanto, aquela frase “é mais barato que um asilo” precisa ser entendida dentro da realidade específica deles — e não como uma fórmula universal de aposentadoria.
DEPOIS DE PESQUISAR, ENTENDI QUE O MAIS INTERESSANTE NÃO É O PREÇO
No começo achei que esse seria um artigo sobre economia.
Depois percebi que não era.
Para mim, a parte realmente interessante é outra.
Marty e Jessica encontraram uma maneira de continuar fazendo aquilo de que gostam enquanto ainda podem fazer.
Eles não estão esperando o momento ideal.
Não estão guardando a viagem para “um dia”.
Não estão olhando um navio pela janela.
Estão dentro dele.
E talvez seja justamente por isso que essa história tenha viajado tanto pela internet.
Porque, no fundo, não é apenas a história de dois aposentados vivendo em navios.
É uma história sobre tempo.
A maioria de nós passa boa parte da vida planejando aquilo que pretende fazer depois.
Marty e Jessica aparentemente resolveram inverter essa lógica.
Enquanto puderem embarcar, eles embarcam.
Enquanto houver saúde, disposição e dinheiro para manter esse estilo de vida, continuam navegando.
E pelo planejamento que encontrei durante a pesquisa, o próximo desembarque definitivo ainda não estava nos planos deles.
Eu trabalho com barcos há décadas e continuo dizendo que o mar tem dessas coisas.
Para alguns é profissão.
Para outros é lazer.
Para alguns vira paixão.
E, de vez em quando, aparece alguém que resolve transformar o mar no próprio endereço.
Marty e Jessica fizeram exatamente isso.
Até o próximo artigo.
Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
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