HOMEM QUE CRUZOU O ATLÂNTICO DE JET-SKI: A HISTÓRIA DE ÁLVARO DE MARICHALAR E A TRAVESSIA DE 6.800 KM QUE ENTROU PARA O GUINNESS WORLD RECORDS
O HOMEM QUE CRUZOU O ATLÂNTICO EM UMA MOTO AQUÁTICA
Em 2002, o espanhol Álvaro de Marichalar percorreu cerca de 6.800 quilômetros entre as Ilhas Canárias e Antígua sobre um Sea-Doo. Foram 17 dias em mar aberto, ondas gigantes, jornadas de até 16 horas e uma operação de apoio cuidadosamente planejada.
Imagine atravessar o Oceano Atlântico sem cabine, sem banheiro, sem cozinha e praticamente sem qualquer proteção contra o mar.
Agora retire também o casco de um veleiro ou de uma lancha oceânica e coloque no lugar uma moto aquática com menos de três metros de comprimento.
Foi basicamente esse o desafio enfrentado pelo navegador espanhol Álvaro de Marichalar y Sáenz de Tejada, que em maio de 2002 realizou uma das travessias mais incomuns da história da navegação moderna.
Segundo o Guinness World Records, Marichalar saiu da ilha de El Hierro, nas Canárias, em 4 de maio e chegou a English Harbour, em Antígua, no Caribe, em 21 de maio.
Foram 17 dias, 1 hora e 11 minutos para completar aproximadamente 3.672 milhas náuticas — cerca de 6.800 quilômetros.
A façanha passou a ser reconhecida pelo Guinness como a primeira travessia documentada do Oceano Atlântico realizada em uma moto aquática.
UM SEA-DOO NO MEIO DO ATLÂNTICO
A embarcação utilizada era um Sea-Doo XP DI equipado com motor de aproximadamente 950 cc.
Era uma moto aquática esportiva, extremamente pequena quando comparada a qualquer embarcação normalmente utilizada para uma travessia oceânica.
E havia um problema óbvio: combustível.
A autonomia de uma moto aquática simplesmente não permitiria atravessar milhares de quilômetros de oceano carregando todo o combustível necessário.
Por isso, a expedição utilizava um catamarã à vela como embarcação de apoio, transportando combustível, suprimentos e oferecendo assistência técnica ao navegador.
Marichalar seguia navegando com o Sea-Doo até atingir o limite operacional planejado. O barco de apoio seguia atrás e realizava os encontros necessários para reabastecimento, manutenção e descanso.
O próprio Guinness deixa claro que a travessia seria impossível naquele equipamento sem suporte externo.
Mas havia uma regra particularmente interessante.
Quando Marichalar embarcava no catamarã ou permanecia em contato com ele, a embarcação de apoio deveria ficar à deriva.
Dessa forma, ele não poderia simplesmente colocar a moto aquática sobre o barco, navegar algumas centenas de milhas e depois voltar para a água.
Enquanto recebia assistência, a expedição não deveria avançar artificialmente a rota.
Era uma maneira de preservar a validade esportiva da travessia.
ATÉ 16 HORAS POR DIA SOBRE UMA MOTO AQUÁTICA
Talvez o combustível nem fosse o maior problema.
O corpo humano também precisava sobreviver à travessia.
Segundo o Guinness, durante o trecho transatlântico Marichalar permaneceu em movimento, em média, cerca de 16 horas por dia.
Em entrevista concedida à CNN poucas semanas depois da expedição, ele explicou que navegava grande parte do tempo em pé.
O motivo não tinha nada a ver com estilo.
Era sobrevivência física.
Marichalar afirmou que permanecer sentado durante horas recebendo os impactos sucessivos do casco contra as ondas poderia causar sérios danos à coluna.
Na mesma entrevista, descreveu condições com ondas chegando a aproximadamente 18 pés — mais de cinco metros — e ventos alísios entre 30 e 35 nós durante a travessia.
Reportagens da época também registraram jornadas regulares de 12 a 14 horas durante outras etapas da expedição. A Folha Online, reproduzindo reportagem da BBC publicada em junho de 2002, destacou que o espanhol pilotava a maior parte do tempo em pé justamente para reduzir os impactos sobre a coluna.
Quem já atravessou apenas uma marola forte pilotando uma moto aquática consegue imaginar um pouco do problema.
Agora multiplique isso por milhares de quilômetros.
NÃO ERA APENAS CANÁRIAS–ANTÍGUA
Existe outro detalhe que torna a história ainda mais extraordinária.
A travessia reconhecida pelo Guinness fazia parte de uma expedição muito maior chamada Atlantik 2002.
Marichalar havia partido de Roma em 23 de fevereiro de 2002 e continuaria navegando depois de cruzar o Atlântico.
O projeto completo terminou em Nova York, em 24 de julho de 2002.
De acordo com o material da própria expedição, foram aproximadamente 10 mil milhas náuticas, mais de 800 horas de navegação e cerca de 64 dias efetivamente navegando ao longo de toda a jornada.
O trecho entre as Canárias e Antígua, entretanto, foi o grande desafio oceânico e aquele registrado pelo Guinness.
Depois do Caribe, a expedição continuou até Miami e posteriormente seguiu pela costa leste dos Estados Unidos até Nova York.
A chegada a Manhattan aconteceu diante da Estatua da Liberdade.
O jornal espanhol El País registrou que Marichalar completou a expedição depois de aproximadamente 10 mil milhas náuticas percorridas e dezenas de jornadas sobre a moto aquática.
UM DESAFIO TAMBÉM PARA A MÁQUINA
Não era apenas o piloto que sofria.
Uma moto aquática operando durante centenas de horas em ambiente oceânico permanece submetida continuamente a salinidade, vibração, choque estrutural, entrada de água, variações de carga e exigência mecânica elevada.
A Bombardier, fabricante do Sea-Doo na época, forneceu equipamentos especialmente preparados para a expedição.
Reportagens especializadas publicadas em 2002 relatam que o projeto chegou a utilizar duas unidades Sea-Doo XP especialmente preparadas, além de embarcação e equipe de apoio.
Isso também ajuda a colocar a façanha em perspectiva.
Não se tratava simplesmente de retirar um jet-ski da marina, abastecer o tanque e apontar a proa para o Caribe.
Havia meteorologia, planejamento de rota, logística de combustível, manutenção, acompanhamento, equipamentos de segurança, comunicação e uma equipe trabalhando para manter piloto e máquina funcionando durante a expedição.
É exatamente essa estrutura que separa aventura de irresponsabilidade.
O OCEANO NÃO PERDOA O TAMANHO DA EMBARCAÇÃO
O curioso é que, tecnicamente, os mesmos princípios enfrentados por uma embarcação de dezenas de pés continuam existindo em uma moto aquática.
Você ainda precisa entender autonomia.
Precisa calcular combustível.
Precisa acompanhar meteorologia.
Precisa conhecer correntes e ventos.
Precisa administrar desgaste mecânico.
Precisa preservar fisicamente o comandante.
E, principalmente, precisa ter um plano para quando alguma coisa deixar de funcionar.
A diferença é que em uma moto aquática praticamente não existe margem física para erro.
Não existe cabine para se proteger.
Não existe beliche.
Não existe praça de máquinas.
Não existe muito espaço para equipamentos redundantes.
E existem poucos lugares onde se esconder quando o Atlântico resolve lembrar quem manda.
MAIS DO QUE UM RECORDE
É fácil olhar para uma história dessas vinte anos depois e enxergar apenas uma aventura excêntrica.
Mas há algo bastante náutico nela.
Marichalar conseguiu transformar uma embarcação criada essencialmente para lazer costeiro em parte de uma operação capaz de cruzar um oceano.
O Sea-Doo não ganhou subitamente autonomia transatlântica.
O que tornou a travessia possível foi planejamento, suporte, logística e resistência humana.
Essa talvez seja a parte mais interessante da história.
Grandes navegações não são feitas apenas pela embarcação.
São feitas pelo conjunto formado por máquina, comandante, preparação, meteorologia, logística e equipe.
Em maio de 2002, esse conjunto conseguiu levar uma moto aquática das Ilhas Canárias até o Caribe.
3.672 milhas náuticas.
Cerca de 6.800 quilômetros.
17 dias, 1 hora e 11 minutos.
Tudo isso sobre um Sea-Doo de aproximadamente 950 cc.
Definitivamente não é uma travessia que aparece todo dia no diário de bordo.
Ney Broker
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NOTA
A página atual do Guinness World Records apresenta uma inconsistência em seus próprios dados: o campo resumido “When” exibe 21 de julho de 2001, enquanto a descrição detalhada oficial informa que a travessia ocorreu entre 4 e 21 de maio de 2002. Relatos jornalísticos contemporâneos e os registros da expedição Atlantik 2002 também confirmam o ano de 2002. Por isso, adotamos essa data na matéria.
FONTES CONSULTADAS
Guinness World Records — registro da travessia transatlântica em personal watercraft.
CNN — entrevista com Álvaro de Marichalar após a expedição, junho de 2002.
Arquivo Atlantik 2002 — dados e histórico da expedição Roma–Nova York.
El País / EFE — chegada de Marichalar a Nova York em julho de 2002.
Folha Online / BBC — cobertura brasileira da travessia publicada em junho de 2002.
Sea7 News — O arquivo vivo da náutica.
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