HOMEM AO MAR: NOS PRIMEIROS SEGUNDOS DE UMA EMERGÊNCIA, TREINAMENTO, COMANDO E AÇÃO CORRETA PODEM FAZER TODA A DIFERENÇA


QUANDO ALGUÉM CAI DE UMA EMBARCAÇÃO, NÃO EXISTE TEMPO PARA IMPROVISO: CADA PESSOA A BORDO PRECISA SABER EXATAMENTE O QUE FAZER

Esses dias apareceu para mim um vídeo em espanhol demonstrando um procedimento de Homem ao Mar, ou MOB — Man Overboard.

É um procedimento que conheço bem. Minha formação e minha experiência no mar sempre exigiram conhecimento de emergência, navegação e segurança.

Mas achei interessante a forma simples como o vídeo mostrou uma situação que muita gente conhece apenas na teoria.

Porque existe uma grande diferença entre saber que existe um procedimento de Homem ao Mar e conseguir executá-lo corretamente quando alguém realmente cai da embarcação.

No mar, alguns segundos fazem muita diferença.

PRIMEIRO: ALGUÉM CAIU, TODO MUNDO PRECISA SABER

A primeira reação deve ser imediata.

O alerta de “Homem ao Mar!” precisa ser dado em voz alta para que todos a bordo entendam o que aconteceu.

A partir daquele momento, cada pessoa precisa ter uma função.

Uma delas deve permanecer olhando continuamente para quem caiu e, se possível, apontando sua posição.

Parece simples.

Mas com ondas, vento e movimentação da embarcação, uma pessoa na água pode desaparecer visualmente muito rápido.

É exatamente aí que começa o problema.

MARCAR A POSIÇÃO

Hoje praticamente toda embarcação equipada com GPS ou chartplotter possui algum recurso de MOB.

Ele existe para isso.

Acionar o MOB registra a posição onde ocorreu a queda e cria uma referência importante para a manobra de retorno.

É um recurso simples, mas que precisa ser conhecido antes da emergência.

Não adianta ter um painel com milhares de reais em eletrônica se, na hora em que alguém cai, ninguém sabe onde está a função MOB.

JOGUE FLUTUAÇÃO IMEDIATAMENTE

Boia circular, salva-vidas ou qualquer equipamento adequado de flutuação disponível deve ser lançado na direção da pessoa.

Além de ajudar quem está na água, esse equipamento aumenta bastante a referência visual.

Uma cabeça no meio do mar é pequena.

Uma boia colorida é muito mais fácil de localizar.

A MANOBRA DEPENDE DA EMBARCAÇÃO

Aqui existe um ponto importante.

Não existe uma única manobra que possa ser repetida mecanicamente em qualquer barco.

Uma lancha de alta performance, uma embarcação com eixo, rabeta, IPS, motor de popa ou um barco de maior deslocamento possuem comportamentos diferentes.

Velocidade, vento, corrente, condição do mar e posição da pessoa também interferem.

Por isso, o comandante precisa conhecer a embarcação que está conduzindo.

O objetivo é claro: controlar o barco, evitar colocar a pessoa em risco e retornar de maneira segura para a recuperação.

É técnica, não improviso.

QUEM ESTÁ OLHANDO NÃO DESVIA OS OLHOS

Esse detalhe merece atenção especial.

Durante a manobra, alguém deve permanecer exclusivamente acompanhando a pessoa na água.

Essa pessoa não vai buscar cabo.

Não vai mexer no GPS.

Não vai pegar telefone.

Não vai ajudar em outra tarefa.

Ela olha e aponta.

Porque se o contato visual for perdido, uma ocorrência relativamente simples pode se transformar rapidamente em operação de busca.

A APROXIMAÇÃO PRECISA SER CONTROLADA

Quando a embarcação retorna, não adianta chegar rápido demais.

O objetivo não é simplesmente chegar perto.

É chegar em condição segura para recuperar a pessoa.

A aproximação final precisa considerar vento, corrente e o movimento da embarcação.

E principalmente o sistema de propulsão.

Quando a pessoa estiver próxima do barco, hélice e propulsão precisam receber atenção total.

Esse é um dos momentos em que experiência de comando faz diferença.

NÃO TRANSFORME UMA VÍTIMA EM DUAS

Existe também aquela reação instintiva:

“Vou pular para ajudar.”

Nem sempre.

Uma pessoa sem treinamento entrando na água pode transformar uma emergência em duas.

Primeiro vem o controle da situação.

Flutuação.

Contato visual.

Manobra.

Recuperação.

Entrar na água para realizar um resgate é outra operação e exige conhecimento das condições e capacidade de quem vai executá-la.

Coragem sem técnica pode complicar bastante uma situação que já era difícil.

E SE QUEM CAIR FOR O COMANDANTE?

Essa talvez seja uma das melhores perguntas que alguém pode fazer antes de sair para navegar.

Se o comandante cair, existe outra pessoa a bordo capaz de parar o barco?

Sabe colocar o motor em neutro?

Sabe utilizar o rádio?

Sabe acionar o MOB?

Sabe fazer a embarcação retornar?

Todo proprietário deveria ensinar pelo menos o básico para outra pessoa da família ou da tripulação.

Não precisa transformá-la em comandante.

Precisa permitir que ela consiga reagir em uma emergência.

O VHF CONTINUA SENDO EQUIPAMENTO DE SEGURANÇA

Em uma situação que foge do controle, o rádio VHF deixa de ser um equipamento esquecido no painel e passa a ser uma ferramenta fundamental.

Canal 16, posição da embarcação, identificação e natureza da emergência.

Comunicação curta e objetiva.

Se uma pessoa desapareceu da vista, está ferida ou existe risco real à vida, pedir ajuda rapidamente é parte do procedimento.

TREINAMENTO É O QUE SEPARA CONHECIMENTO DE REAÇÃO

Ao longo dos anos navegando, aprendi uma coisa muito simples:

em uma emergência, você dificilmente terá tempo para consultar manual.

Por isso procedimentos precisam ser conhecidos antes.

E podem ser treinados.

Pegue uma boia e simule uma queda.

Grite Homem ao Mar.

Marque MOB.

Defina quem mantém contato visual.

Execute a manobra.

Faça a aproximação.

Simule a recuperação.

Depois faça novamente.

Esse treinamento simples mostra rapidamente onde estão os erros.

SEGURANÇA NÃO COMEÇA QUANDO ALGUÉM CAI

Ela começa antes de sair da marina.

Começa quando o comandante conhece o barco.

Quando os equipamentos estão funcionando.

Quando a tripulação sabe onde estão os coletes.

Quando alguém além do comandante sabe parar a embarcação.

E quando todos entendem que, numa emergência, cada segundo precisa ser utilizado corretamente.

O procedimento de Homem ao Mar não é complicado.

Mas precisa estar na cabeça antes que alguém esteja na água.

No mar, experiência ajuda muito.

Treinamento ajuda ainda mais.

E improviso deve ficar sempre por último.

Até o próximo artigo.

Ney Broker
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