ENDURANCE: 28 HOMENS, UM NAVIO PRESO NO GELO E UMA DAS MAIORES HISTÓRIAS DO MAR


Esses dias eu estava lendo sobre uma história que, sinceramente, parece roteiro de filme.

Mas aconteceu de verdade.

É a história do Endurance, o navio comandado pelo explorador britânico Ernest Shackleton, durante uma expedição à Antártida no começo do século passado.

E quanto mais você lê, mais pensa:

“Não é possível que esses caras tenham passado por tudo isso e sobrevivido.”

Mas passaram.

O PLANO ERA ATRAVESSAR A ANTÁRTIDA

Em dezembro de 1914, Shackleton saiu da Geórgia do Sul em direção ao continente antártico.

A bordo do Endurance estavam 28 homens.

O objetivo era ambicioso: realizar uma travessia terrestre da Antártida.

O Endurance tinha sido construído justamente para navegar em regiões polares. Era um navio de madeira extremamente reforçado para enfrentar gelo e condições severas.

Mas uma coisa é construir um navio para o gelo.

Outra coisa é enfrentar a Antártida de verdade.

Em 18 de janeiro de 1915, o Endurance ficou completamente preso no gelo do Mar de Weddell.

E dali não saiu mais.

O NAVIO VIROU PASSAGEIRO DO GELO

Essa é uma das partes que mais me impressionaram.

O navio simplesmente ficou preso.

Não adiantava motor, manobra ou força.

Ele passou a se movimentar junto com a enorme placa de gelo onde estava preso.

Ou seja: o Endurance não estava mais navegando.

O gelo é que estava levando o navio.

E estamos falando de 1915.

Não existia GPS.

Não existia telefone via satélite.

Não existia internet.

Não existia helicóptero chegando para tirar todo mundo dali.

Os caras estavam literalmente isolados em uma das regiões mais hostis e distantes do planeta.

E assim passaram meses.

ATÉ O GELO COMEÇAR A ESMAGAR O ENDURANCE

O casco era muito forte.

Mas existe uma força que quem trabalha no mar aprende cedo a respeitar:

a natureza sempre tem mais força.

A pressão das placas de gelo começou a apertar o casco.

Primeiro vieram os estalos.

Depois as deformações.

A madeira começou a trabalhar.

Água começou a entrar.

Até que, no dia 27 de outubro de 1915, Shackleton tomou a decisão de abandonar o navio.

A tripulação retirou tudo aquilo que poderia ajudar na sobrevivência.

Mantimentos.

Equipamentos.

Barracas.

E os três botes salva-vidas que estavam a bordo.

Depois disso, só restava observar.

Durante semanas, aqueles homens assistiram ao navio sendo lentamente destruído pelo gelo.

Até que, em 21 de novembro de 1915, o Endurance afundou.

Agora pensa na situação.

Você está no meio da Antártida.

Sem navio.

Sem comunicação.

Sem saber exatamente quando — ou se — alguém vai conseguir encontrar você.

E seu acampamento está em cima de uma placa de gelo flutuando no oceano.

MORANDO EM CIMA DO GELO

Depois do naufrágio, os 28 homens passaram a viver em acampamentos montados sobre o gelo.

Dormiam em barracas.

Controlavam os alimentos.

Caçavam focas e pinguins para complementar os mantimentos.

E esperavam.

Não tinha muita opção.

O próprio gelo continuava se deslocando pelo Mar de Weddell.

A esperança era chegar a uma região onde fosse possível lançar os pequenos botes na água.

Só que até aquilo onde eles estavam vivendo começou a se romper.

Então chegou a hora de abandonar também o gelo.

28 HOMENS EM TRÊS PEQUENOS BOTES

Em abril de 1916, os homens entraram nos três botes:

James Caird, Dudley Docker e Stancomb Wills.

Agora imagina navegar no Oceano Austral num bote aberto.

Frio extremo.

Ondas.

Vento.

Água entrando.

Homens cansados depois de mais de um ano vivendo naquela situação.

Foram dias navegando até conseguirem chegar à Ilha Elephant, no dia 15 de abril de 1916.

Pela primeira vez em muitos meses estavam pisando em terra firme.

Só que tinha um detalhe.

Ninguém praticamente passava por ali.

Era uma ilha isolada.

Esperar um navio aparecer poderia levar meses.

Ou nunca acontecer.

A DECISÃO MAIS ARRISCADA

Shackleton decidiu então fazer algo que até hoje impressiona qualquer pessoa que conheça um pouco de navegação.

Ele pegou o James Caird, um bote de pouco mais de seis metros, e resolveu navegar até a Geórgia do Sul.

A distância?

Aproximadamente 1.300 quilômetros.

Em mar aberto.

Num bote.

Seis homens partiram.

Ernest Shackleton, Frank Worsley, Tom Crean, Harry McNish, John Vincent e Timothy McCarthy.

E aqui entra um sujeito que merece muito reconhecimento nessa história: Frank Worsley.

Era o navegador.

Ele precisava descobrir onde aquele pequeno bote estava usando basicamente sextante, observação do Sol e cálculos de navegação.

Quando o tempo permitia enxergar o Sol.

Se errassem a Geórgia do Sul por algumas dezenas de milhas, poderiam simplesmente passar pela ilha.

Depois disso, praticamente não havia nada.

16 DIAS NUM BOTE NO OCEANO AUSTRAL

Foram aproximadamente 16 dias de navegação.

Em um dos mares mais violentos do planeta.

Com frio.

Ondas enormes.

Homens constantemente molhados.

Pouco espaço.

Pouca comida.

Pouco descanso.

Mas conseguiram.

Avistaram a Geórgia do Sul.

Só que, como toda boa história marítima, ainda não tinha acabado.

Eles chegaram do lado errado da ilha.

As estações baleeiras estavam do outro lado.

ENTÃO ELES ATRAVESSARAM A ILHA A PÉ

Shackleton, Worsley e Tom Crean decidiram atravessar as montanhas da Geórgia do Sul.

A pé.

Sem mapas adequados.

Sem equipamentos modernos de montanhismo.

Sem saber exatamente o que encontrariam pela frente.

Foram aproximadamente 36 horas atravessando montanhas, gelo e terrenos que nunca tinham sido cruzados daquela maneira.

Até finalmente chegarem à estação baleeira de Stromness.

Depois de mais de um ano isolados, finalmente encontraram outras pessoas.

Só que Shackleton não considerava a missão terminada.

Porque ainda existiam 22 homens esperando na Ilha Elephant.

O RESGATE AINDA LEVOU QUATRO TENTATIVAS

O problema era chegar novamente até lá.

O gelo continuava impedindo o acesso.

Foram realizadas várias tentativas.

Três fracassaram.

Na quarta, finalmente conseguiram.

No dia 30 de agosto de 1916, o navio chileno Yelcho, comandado pelo capitão Luis Pardo, chegou à Ilha Elephant.

Os 22 homens estavam vivos.

Somando com os seis que tinham partido no James Caird:

os 28 homens do Endurance sobreviveram.

Quando você lê tudo que aconteceu entre o navio ficar preso no gelo e aquele resgate, fica difícil acreditar.

MAIS DE 100 ANOS DEPOIS, ENCONTRARAM O ENDURANCE

E a história ganhou mais um capítulo recentemente.

Durante mais de um século ninguém sabia exatamente onde estava o Endurance.

Até que, em 5 de março de 2022, uma expedição encontrou o navio no fundo do Mar de Weddell.

A aproximadamente 3.000 metros de profundidade.

E o mais impressionante foi o estado de conservação.

Por causa das águas extremamente frias, boa parte da estrutura ainda estava preservada.

Nas imagens feitas pelos equipamentos submarinos ainda era possível ler claramente na popa: ENDURANCE.

Mais de 106 anos depois do naufrágio.

UMA HISTÓRIA QUE NÃO PRECISA DE EXAGERO

Eu gosto dessas histórias porque elas não precisam ser aumentadas.

O fato real já é impressionante o suficiente.

O Endurance ficou preso no gelo.

Foi esmagado.

Afundou.

Os homens passaram meses vivendo sobre placas de gelo.

Depois atravessaram o oceano em pequenos botes.

Seis deles navegaram cerca de 1.300 quilômetros em um bote de pouco mais de seis metros.

Depois atravessaram a Geórgia do Sul a pé.

Voltaram para buscar os companheiros.

E os 28 homens sobreviveram.

O objetivo inicial da expedição nunca foi cumprido.

A Antártida não foi atravessada.

O navio foi perdido.

Mas aquela tentativa acabou entrando para a história por outro motivo.

Virou uma das maiores histórias de sobrevivência já vividas no mar.

E para quem gosta de navegação, exploração e histórias marítimas de verdade, essa é uma daquelas que vale a pena conhecer.

Até o próximo artigo!

Ney Broker 
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