CARTA NÁUTICA: O MAPA DO MAR QUE EU APRENDI A LER EM 1989 — E QUE CONTINUA INDISPENSÁVEL

Quando tirei minha habilitação de Mestre-Amador, em 1989, navegar era bem diferente do que é hoje.

Não existia, na rotina do navegador amador, essa facilidade de abrir um plotter, olhar uma tela colorida, enxergar a posição exata do barco e acompanhar uma linha mostrando praticamente o caminho inteiro.

A navegação começava em cima da mesa.

Carta náutica aberta, lápis, borracha, compasso, régua paralela, coordenadas, rumos e distâncias.

Foi naquela época que aprendi uma coisa que nunca mais esqueci: a carta náutica não serve apenas para mostrar onde você está. Ela mostra principalmente onde você não deveria estar.

CARTA NÁUTICA NÃO É UM MAPA QUALQUER

Esses dias voltei a pesquisar o assunto e fui rever algumas informações da Diretoria de Hidrografia e Navegação e do Centro de Hidrografia da Marinha.

A definição é muito mais ampla do que simplesmente chamar a carta náutica de “mapa do mar”.

Segundo o CHM, as cartas representam profundidades, perigos à navegação, bancos, pedras submersas, cascos soçobrados, natureza do fundo, fundeadouros, faróis, boias, balizas, linha de costa, marés, correntes, informações magnéticas e outros elementos necessários à segurança da navegação.

Ou seja: existe muita informação escondida naquele papel — ou naquela tela.

LATITUDE, LONGITUDE E UMA REGRA QUE TODO NAVEGADOR APRENDE

As linhas de latitude e longitude permitem determinar uma posição no mar.

E existe uma regra simples que ficou gravada desde os tempos de aula:

1 minuto de latitude corresponde a 1 milha náutica.

Uma milha náutica equivale a 1.852 metros. Por isso utilizávamos o compasso diretamente sobre a escala de latitude da carta para medir distâncias. A própria Marinha ainda ensina esse princípio ao explicar o emprego do compasso e da régua paralela na navegação.

Pode parecer básico hoje.

Em 1989, aquilo era ferramenta de trabalho.

OS NÚMEROS ESPALHADOS PELO MAR TÊM MUITO A DIZER

Quem olha uma carta pela primeira vez talvez enxergue apenas um monte de números, linhas e símbolos.

Para quem sabe interpretar, aquilo começa a formar uma fotografia do fundo.

As sondagens indicam profundidades. Também aparecem pedras, bancos, naufrágios, obstáculos, canais e a natureza do fundo.

E aqui existe um detalhe importante: profundidade de carta não deve ser confundida simplesmente com a profundidade que você encontrará naquele exato momento.

Maré, nível da água, condições locais e o datum utilizado precisam entrar na conta.

É por isso que navegar olhando apenas para um número na tela, sem entender de onde aquela informação veio, pode criar uma falsa sensação de segurança.

CADA SÍMBOLO TEM UM SIGNIFICADO

Faróis, faroletes, boias, balizas, naufrágios, pedras, áreas restritas, cabos submarinos, fundeadouros…

A carta tem uma linguagem própria.

No Brasil existe inclusive a Carta 12000 — INT 1, publicada pela DHN, reunindo símbolos, abreviaturas e termos empregados nas cartas náuticas brasileiras e internacionais.

A edição disponível pelo CHM é a 5ª edição, de 2022, e continua recebendo correções por meio dos Avisos aos Navegantes.

É quase um dicionário da linguagem gráfica do mar.

E A ROSA DOS VENTOS?

Outro elemento que sempre chamou atenção nas cartas é a rosa dos ventos.

Ela permite trabalhar rumos e também considerar a diferença existente entre o norte verdadeiro e o norte magnético.

Na navegação tradicional isso fazia parte do cálculo. Rumos eram traçados, transportados com a régua paralela e conferidos na carta.

Hoje o equipamento eletrônico realiza uma quantidade enorme desses cálculos automaticamente.

O problema é justamente esse:

quando a máquina faz tudo, muita gente deixa de querer saber o que ela está fazendo.

DO PAPEL PARA A CARTA ELETRÔNICA

A tecnologia mudou completamente a forma de navegar.

Hoje temos GPS, plotters multifunção, AIS, radar, piloto automático, sondas, cartas raster e cartas náuticas eletrônicas.

O próprio Centro de Hidrografia da Marinha produz, além das cartas em papel, cartas Raster e ENC — Electronic Navigational Charts.

E uma ENC oficial não é simplesmente a fotografia de uma carta de papel.

Ela é uma base vetorial estruturada, produzida sob autoridade de um serviço hidrográfico oficial, permitindo que sistemas compatíveis utilizem aqueles dados inclusive para gerar informações e alertas de navegação.

A tecnologia avançou absurdamente.

E ainda bem.

Eu não tenho saudade de fazer conta apenas por ter que fazer conta.

Se existe equipamento capaz de tornar uma navegação mais precisa e segura, devemos utilizá-lo.

Mas existe uma diferença enorme entre usar tecnologia e depender cegamente dela.

GPS NÃO TRANSFORMA PEDRA EM ÁGUA

Depois de tantos anos no mercado náutico, continuo acreditando que o navegador deveria conhecer pelo menos os fundamentos da carta.

Saber reconhecer uma profundidade.

Entender latitude e longitude.

Identificar um perigo submerso.

Interpretar uma boia.

Saber o que significa aquele símbolo que apareceu na tela.

Entender por que determinada derrota passa por um ponto e não por outro.

E principalmente desconfiar quando alguma informação não faz sentido.

Equipamento falha.

Sensor falha.

Energia acaba.

Configuração pode estar errada.

Carta pode estar desatualizada.

A própria Marinha ressalta que cartas e publicações náuticas precisam ser mantidas atualizadas e que sua consulta faz parte tanto do planejamento quanto da execução da navegação.

QUASE 40 ANOS DEPOIS, O PRINCÍPIO CONTINUA O MESMO

De 1989 para cá, praticamente tudo mudou dentro de uma cabine de comando.

Saímos da carta aberta sobre a mesa para telas capazes de integrar posição, radar, AIS, profundidade, rota, previsão e dezenas de outras informações.

Mas o fundo continua lá.

A pedra continua no mesmo lugar.

O banco de areia continua sendo banco.

E o comandante continua sendo responsável por interpretar aquilo que está diante dele.

A tecnologia pode mostrar o caminho.

Entender o mar ainda é responsabilidade de quem está no comando.

E talvez aquela velha lição da carta náutica continue sendo uma das melhores definições de navegação que aprendi:

Navegar não é apenas saber onde você está. É saber exatamente onde você não deve estar.

Navegar é evoluir com a tecnologia sem esquecer os fundamentos que sempre trouxeram o navegante de volta para casa.

Ney Broker
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