A NOITE EM ANGRA DOS REIS QUE ME ENSINOU A NUNCA AMADRINHAR BARCOS SEM PRIMEIRO OLHAR O QUE ESTÁ ACONTECENDO FORA DA ENSEADA


Frequento Angra dos Reis desde 1987.

Naquela época, a náutica brasileira era outra. Muito diferente do que vemos hoje.

Não existia essa quantidade de barcos, marinas, serviços, marinheiros profissionais, equipamentos eletrônicos e informação disponível na palma da mão. Muita coisa que hoje parece básica nós aprendíamos trabalhando, navegando, observando e, algumas vezes, tomando prejuízo.

E uma das lições que nunca esqueci aconteceu em 1996, em Angra dos Reis.

Foi ali que aprendi, na prática, uma coisa que continuo repetindo até hoje:

AMADRINHAR BARCOS É FÁCIL. SABER ONDE NÃO AMADRINHAR É QUE EXIGE EXPERIÊNCIA.

CUNHAMBEBE MIRIM, A FAMOSA ILHA DA MANDALA

Naquele ano fomos para a região da Ilha de Cunhambebe Mirim, também conhecida como Ilha da Mandala.

Era uma época de festas, encontros e muita movimentação de embarcações na região.

Nós chegamos com o barco em que eu trabalhava. Não era meu barco. Era a embarcação do meu patrão e eu estava ali trabalhando, como fiz durante tantos anos da minha vida.

O barco: Uma Spirit Ferretti 50

Depois de quase 30 anos, algumas coisas ficam muito claras na memória e outras acabam se misturando.

Mas uma coisa eu lembro perfeitamente:

nosso barco ficou sendo o barco principal daquele amadrinhamento.

Vieram outros.

Um encostou.

Depois outro.

Mais outro.

Quando percebemos, estávamos com cinco embarcações amadrinhadas lado a lado.

Para nós aquilo também era relativamente novo. Foi uma das primeiras situações em que me lembro de ouvir e utilizar com frequência essa ideia de amadrinhar várias embarcações.

Estava tudo bonito.

Cabos passados.

Defensas posicionadas.

Barcos juntos.

Festa acontecendo.

Até que o mar resolveu dar a aula.

BASTOU UM BARCO PASSAR LÁ FORA

Em determinado momento passou uma embarcação grande mais afastada.

Veio a esteira.

Quem navega há algum tempo sabe exatamente do que estou falando.

Você olha para aquela onda chegando e, dependendo da posição dos barcos, já sabe que alguma coisa vai acontecer.

E aconteceu.

Quando aquela ondulação entrou onde estávamos, os cinco barcos começaram a trabalhar.

Só que eles não trabalhavam juntos.

Um subia enquanto outro descia. Um rolava para um lado enquanto o barco ao lado respondia de outra maneira.

De repente começou aquela loucura.

Casco encostando.

Defensa trabalhando no limite.

Cabo esticando.

Cunho recebendo carga.

Barco indo para um lado e o outro voltando.

Era barco se batendo para tudo quanto era lado.

Eu nunca tinha visto aquilo daquela forma.

ARREBENTOU CUNHO E SOBROU PREJUÍZO

O nosso barco estava segurando boa parte daquele conjunto.

Em determinado momento, arrebentou cunho do nosso barco.

Também houve problema no barco ao lado.

E dali para frente foi prejuízo.

Não foi uma colisão grande entre dois barcos navegando.

Foi pior de assistir porque você está praticamente parado vendo várias toneladas de embarcações trabalhando umas contra as outras e sabendo que não existe força humana capaz de segurá-las.

Você não vai colocar a mão entre dois cascos.

Não vai segurar um barco com o braço.

Não vai vencer aquela massa.

Você fica vendo aquilo acontecer.

E posso dizer que foi uma das piores sensações que tive trabalhando a bordo.

FOI ALI QUE MUDAMOS NOSSO PROCEDIMENTO

Depois daquele episódio, comecei a olhar o amadrinhamento de outra maneira.

Nós continuamos amadrinhando barcos.

Claro que continuamos.

O problema nunca foi o amadrinhamento.

O problema é amadrinhar no lugar errado.

Depois daquela experiência, quando chegávamos a algum lugar, antes de começar aquela história de:

“Larga o ferro que depois o pessoal vem para o meu lado...”

nós olhávamos o entorno.

Olha para fora.

Tem passagem de embarcação?

Estamos realmente protegidos?

De onde pode entrar uma esteira?

Como está o vento?

Como está a corrente?

Existe espaço?

Os barcos têm portes muito diferentes?

Se passar uma embarcação grande lá fora, o que vai acontecer aqui dentro?

Aí tomávamos a decisão.

Aqui dá para amadrinhar.

Amadrinhava.

Aqui não dá.

Cada um ficava no seu ferro.

Simples assim.

NÃO BASTA A ÂNCORA SEGURAR

Esse é um ponto que vejo muita gente esquecer.

Às vezes alguém chega primeiro e diz:

“Pode deixar que eu largo a âncora e vocês vêm todos para o meu lado.”

Calma.

A pergunta não é somente se a âncora daquele barco consegue segurar.

A pergunta é:

O LUGAR CONSEGUE RECEBER VÁRIOS BARCOS AMADRINHADOS COM SEGURANÇA?

Porque, quando você coloca quatro ou cinco embarcações lado a lado, cada uma possui peso, boca, formato de casco e comportamento diferente diante da ondulação.

Uma esteira lateral pode fazer cada barco se movimentar em um momento diferente.

E aí toda aquela energia vai aparecer em algum lugar:

nos cabos,

nos cunhos,

nas defensas

ou diretamente nos costados.

Materiais de segurança náutica também alertam justamente para esse risco: embarcações amadrinhadas podem colidir umas contra as outras quando atingidas por esteiras fortes, sendo recomendável evitar esse tipo de formação em locais sujeitos a tráfego intenso de barcos.

DEFENSA NÃO FAZ MILAGRE

Outra coisa que aprendi ao longo dos anos:

defensa é fundamental.

Mas defensa também tem limite.

Não adianta colocar meia dúzia de defensas entre dois barcos e acreditar que resolveu o problema se você colocou cinco embarcações amarradas em um ponto exposto à ondulação.

Também não adianta caprichar nos cabos e esquecer os pontos onde esses cabos estão trabalhando.

O conjunto sempre precisa ser analisado inteiro.

Local.

Fundo.

Ancoragem.

Vento.

Corrente.

Ondulação.

Tráfego.

Peso das embarcações.

Cunhos.

Cabos.

Defensas.

E principalmente a possibilidade de desfazer aquele amadrinhamento rapidamente se as condições mudarem.

EXPERIÊNCIA NÃO É SABER FAZER. É SABER QUANDO NÃO FAZER.

Hoje vejo muita discussão sobre marinheiro experiente.

Para mim, experiência nunca foi simplesmente saber dar um nó bonito, lançar uma âncora ou colocar vários barcos lado a lado.

Isso é técnica.

Experiência é outra coisa.

Experiência é olhar para uma situação aparentemente tranquila e perceber o problema antes que ele aconteça.

É chegar em uma enseada bonita e falar:

“Aqui eu não colocaria cinco barcos juntos.”

Talvez naquele momento alguém até ache exagero.

Até passar o primeiro barco grande lá fora.

AQUELA NOITE DE 1996 FICOU NA MINHA MEMÓRIA

Já se passaram aproximadamente 30 anos daquele episódio.

Frequento Angra desde 1987 e vivi muita coisa naquela região.

Naveguei.

Trabalhei.

Vi o mercado náutico crescer.

Vi barcos aumentarem de tamanho.

Vi equipamentos evoluírem.

Vi a maneira de navegar mudar completamente.

Mas algumas regras continuam exatamente iguais.

O mar não quer saber se o barco custa cem mil ou dez milhões.

E uma onda não pergunta quanto tempo de experiência o comandante tem antes de chegar.

Por isso aquela noite na Ilha da Mandala ficou guardada comigo.

Cinco barcos amadrinhados.

Uma embarcação passando lá fora.

Uma esteira chegando.

Cunhos arrebentando.

Barcos se chocando.

E prejuízo.

Foi uma aula cara.

Mas nunca mais esqueci.

QUE FIQUE DE EXPERIÊNCIA PARA QUEM ESTÁ COMEÇANDO

Quando alguém disser:

“Eu largo o ferro e vocês amadrinham todos aqui...”

antes de pegar o cabo, faça uma coisa muito simples:

OLHE PARA FORA.

Observe o local.

Observe de onde vem a ondulação.

Observe o tráfego.

Imagine aqueles barcos se movimentando em sentidos diferentes.

E então decida.

Porque algumas vezes a melhor manobra que um bom marinheiro pode fazer é justamente dizer:

“Aqui não. Aqui cada barco fica separado.”

No mar, prudência nunca foi falta de coragem.

É experiência trabalhando antes do prejuízo chegar.

O MAR ENSINA TODOS OS DIAS. ALGUMAS AULAS VÊM COM O VENTO. OUTRAS VÊM COM AS ONDAS. E ALGUMAS, INFELIZMENTE, VÊM JUNTO COM A CONTA DO PREJUÍZO.

Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
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