SEM TROCAR O MOTOR: COMBUSTÍVEL RENOVÁVEL CHEGA À BOMBA DA MARINA E ABRE NOVO CAMINHO PARA OS BARCOS A DIESEL


A transição energética no mercado náutico costuma aparecer acompanhada de motores elétricos, enormes bancos de baterias, sistemas híbridos e embarcações projetadas praticamente do zero.

Mas uma experiência que acaba de ganhar espaço no Reino Unido mostra outro caminho — muito mais próximo da realidade de milhares de proprietários que já possuem barcos equipados com motores diesel.

O Falmouth Harbour, na Cornualha, começou a comercializar diretamente para embarcações comerciais e de lazer o HVO — Hydrotreated Vegetable Oil, ou óleo vegetal hidrotratado, utilizado como alternativa renovável ao diesel marítimo convencional.

E talvez a parte mais importante da notícia seja justamente esta:

em motores devidamente homologados, não é necessário trocar a motorização do barco para começar a utilizar o combustível.

O porto passou aproximadamente um ano testando HVO em sua própria frota de embarcações de trabalho antes de disponibilizá-lo aos demais usuários. Agora, proprietários podem simplesmente chegar ao ponto de abastecimento e utilizar o combustível, desde que a motorização seja compatível.

UMA TRANSIÇÃO QUE COMEÇA NA BOMBA DE COMBUSTÍVEL

Essa diferença parece pequena, mas pode mudar bastante a discussão sobre descarbonização no mercado náutico.

Um dos grandes obstáculos para a eletrificação da frota existente é econômico e técnico.

Trocar motores diesel por sistemas elétricos ou híbridos pode exigir alterações estruturais importantes, como instalação de baterias, inversores, sistemas de gerenciamento de energia, novos carregadores, mudanças na distribuição de peso e até reformulação da praça de máquinas.

Em determinadas embarcações, o investimento simplesmente não faz sentido econômico.

O HVO apresenta outra possibilidade.

Ele pertence à categoria dos chamados combustíveis drop-in, desenvolvidos para substituir ou complementar combustíveis fósseis aproveitando motores e infraestrutura já existentes, quando houver aprovação do fabricante.

Em vez de começar a transição energética trocando o barco, começa-se pelo que entra no tanque.

O QUE É HVO?

HVO significa Hydrotreated Vegetable Oil.

Apesar da tradução “óleo vegetal hidrotratado”, o produto não deve ser confundido simplesmente com o biodiesel convencional do tipo FAME.

Por meio de um processo de hidrotratamento, matérias-primas renováveis são transformadas em um combustível parafínico com características bastante próximas às do diesel fóssil.

O produto utilizado em Falmouth atende à especificação europeia EN 15940, referência para combustíveis diesel parafínicos.

Essa semelhança com o diesel convencional é justamente uma das características que tornam o HVO interessante para aplicações marítimas.

O MOTOR CONTINUA SENDO DIESEL

Aqui existe uma diferença conceitual importante.

O HVO não transforma uma embarcação em elétrica.

O motor continua funcionando pelo princípio de combustão interna.

O que muda é a origem e a composição do combustível utilizado.

Portanto, quando aparecem números expressivos de redução de carbono associados ao HVO, é preciso observar que normalmente estamos falando principalmente da redução das emissões de gases de efeito estufa considerando o ciclo de vida do combustível.

Falmouth informa que o HVO pode representar redução de carbono entre 50% e 90% em comparação com diesel fóssil, dependendo da origem e da cadeia de produção do combustível.

O escapamento não desaparece.

Mas a pegada de carbono associada ao combustível pode cair significativamente.

A MARINA INVESTIU PARA LEVAR O COMBUSTÍVEL AO PROPRIETÁRIO

Outro aspecto interessante do projeto está na infraestrutura.

Falmouth instalou uma estação com capacidade para aproximadamente 6.500 litros, investimento informado em cerca de £50 mil, com parte dos recursos vinculada a programas públicos de incentivo à descarbonização.

Isso mostra que a discussão não está mais limitada aos laboratórios, fabricantes de motores ou grandes navios comerciais.

O combustível chegou à infraestrutura utilizada pelo proprietário.

Na prática, começa a surgir um novo cenário:

MARINA → BOMBA DE HVO → BARCO DIESEL COMPATÍVEL → ABASTECIMENTO NORMAL

Esse talvez seja o ponto mais importante dessa história.

Uma tecnologia só começa realmente a transformar um mercado quando fica acessível ao usuário final.

E OS MOTORES NÁUTICOS?

A compatibilidade deve ser analisada individualmente.

O proprietário nunca deve simplesmente abastecer com um novo combustível porque ouviu dizer que “diesel aceita”.

A orientação correta é verificar a especificação do motor e a aprovação do fabricante.

A Volvo Penta, por exemplo, informa que seus motores diesel são verificados para utilização de HVO100 conforme EN 15940, sem necessidade de modificação do motor ou do sistema de armazenamento de combustível. A empresa também informa que HVO100 e diesel convencional podem ser misturados.

Outros fabricantes possuem suas próprias especificações e homologações.

Por isso, antes de qualquer mudança:

consulte o manual, fabricante ou assistência técnica responsável pela motorização.

Combustível alternativo não é espaço para improvisação de píer.

EXISTE OUTRA VANTAGEM PARA BARCOS QUE FICAM PARADOS

Quem trabalha com embarcações sabe que barco de lazer possui uma característica bastante diferente de automóvel.

Muitos passam longos períodos parados.

E combustível armazenado durante meses pode gerar problemas.

Segundo a Volvo Penta, o HVO100 apresenta características de armazenamento e envelhecimento semelhantes às do diesel fóssil e, diferentemente do biodiesel FAME, não apresenta da mesma forma o problema de crescimento bacteriano ou de fungos associado à presença de componentes que favorecem esse ambiente.

Para o mercado náutico de lazer, isso é especialmente relevante.

Não adianta apenas discutir carbono.

O combustível precisa funcionar dentro da realidade operacional do barco.

O BARCO USADO PODE ENTRAR NA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

Essa talvez seja uma consequência ainda maior.

Durante muito tempo, quando se falava em sustentabilidade náutica, a impressão era de que o proprietário teria que comprar um barco de nova geração para participar da mudança.

Mas a frota mundial contém milhões de motores diesel que ainda possuem muitos anos — ou décadas — de vida útil.

Substituir toda essa frota imediatamente seria economicamente inviável.

E talvez nem fosse ambientalmente lógico descartar prematuramente motores, estruturas e equipamentos ainda perfeitamente utilizáveis.

Os combustíveis renováveis criam uma terceira alternativa.

Em vez de apenas:

DIESEL FÓSSIL OU BARCO ELÉTRICO

o mercado começa a trabalhar com:

DIESEL FÓSSIL → COMBUSTÍVEL RENOVÁVEL → SISTEMAS HÍBRIDOS → ELETRIFICAÇÃO OU NOVAS TECNOLOGIAS

Não significa que todas as embarcações percorrerão necessariamente essa sequência.

Significa que a transição pode acontecer por etapas.

E O BRASIL?

É justamente aí que essa notícia inglesa passa a ser particularmente interessante.

Em julho de 2026, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis — ANP abriu processo de consulta pública para revisar as especificações brasileiras dos combustíveis de uso aquaviário.

A proposta busca atualizar a regulamentação, incorporar avanços tecnológicos e estabelecer regras relacionadas também a combustíveis renováveis e sintéticos.

A Consulta e Audiência Públicas nº 15/2026 trata especificamente da revisão da Resolução ANP nº 903/2022, referente aos combustíveis de uso aquaviário comercializados no território nacional.

É uma coincidência de timing bastante interessante.

Enquanto um porto britânico começa a colocar HVO literalmente na bomba da marina, o Brasil discute a evolução das regras aplicáveis aos combustíveis aquaviários.

IMAGINE ISSO NAS MARINAS BRASILEIRAS

Agora transportemos esse cenário para o Brasil.

Nossa frota possui milhares de embarcações equipadas com motores Volvo Penta, MAN, Caterpillar, Cummins, Yanmar, MTU e diversas outras marcas.

São barcos que não desaparecerão nos próximos cinco ou dez anos.

Muitos deles continuarão navegando por décadas.

Imagine uma marina oferecendo:

DIESEL MARÍTIMO CONVENCIONAL

e, na bomba ao lado:

DIESEL RENOVÁVEL / HVO

O proprietário consulta a homologação do seu motor, escolhe qual combustível deseja utilizar e abastece normalmente.

Não precisou comprar outra lancha.

Não precisou retirar dois motores diesel da praça de máquinas.

Não instalou toneladas de baterias.

Não transformou o píer inteiro em estação elétrica.

A mudança começou pelo tanque.

NÃO SIGNIFICA O FIM DA ELETRIFICAÇÃO

Também seria um erro interpretar o avanço dos combustíveis renováveis como concorrência direta contra barcos elétricos.

São soluções diferentes para problemas diferentes.

Em pequenas embarcações, deslocamentos curtos e operações específicas, a eletrificação tende a crescer rapidamente.

Em barcos maiores, operações de longa autonomia e especialmente na enorme frota diesel existente, combustíveis renováveis e sistemas híbridos podem desempenhar um papel importante durante a transição.

Provavelmente não haverá uma única tecnologia vencedora.

O futuro da propulsão marítima tende a ser plural.

Elétrica.

Híbrida.

Diesel renovável.

Biocombustíveis.

Combustíveis sintéticos.

Hidrogênio em determinadas aplicações.

E tecnologias que talvez ainda nem tenham chegado ao mercado.

A REVOLUÇÃO PODE COMEÇAR SEM TROCAR O BARCO

É por isso que o movimento de Falmouth merece atenção.

Não estamos falando apenas da inauguração de mais uma bomba de combustível em uma marina inglesa.

Estamos vendo uma ideia importante ser colocada em prática:

permitir que a frota existente participe da transição energética.

Durante décadas, o mercado náutico aprendeu que modernizar um barco significa trocar eletrônica, atualizar interiores, instalar equipamentos, refazer sistemas e realizar retrofit.

Talvez agora tenhamos que acrescentar mais um item à lista.

Modernizar também poderá significar mudar aquilo que colocamos dentro do tanque.

E, para milhares de proprietários de barcos diesel, essa pode ser uma das maneiras mais simples de começar.

O mar nunca deixa de ensinar. E, às vezes, a maior mudança não está no motor — está no combustível que colocamos nele.

Até o próximo artigo!

Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro

Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217® • Vistoria In Loco

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