NINGUÉM ACREDITOU NA PROPOSTA... ATÉ QUE UMA SAFRA DE SOJA COMPROU UMA PHANTOM 360
Ao longo dos meus 38 anos no mercado náutico, já recebi propostas de todo tipo.
Apartamento. Terreno. Carro. Jet ski. Permutas das mais variadas.
Mas teve uma negociação que nunca esqueci.
Foi a venda de uma Phantom 360.
Na época, o proprietário me procurou para vender a embarcação. O desafio era um só: ele queria um valor acima do que o mercado vinha pagando.
Fui sincero:
— Vou anunciar. Mas acredito que será difícil conseguir esse valor.
Mesmo assim, fiz o ensaio fotográfico, teste de mar, preparei o anúncio e publiquei a embarcação na OLX, que, naquela época, era uma das principais plataformas de venda de barcos.
Alguns dias depois, meu telefone tocou.
Era um empresário do agronegócio.
Ele foi direto ao assunto:
— Ney, é exatamente esse barco que eu procuro. Mas não quero pagar em dinheiro, nem tenho dinheiro disponível agora.
Imaginei que ele fosse oferecer um imóvel ou algum veículo como parte do pagamento.
Mas ele continuou:
— Tenho uma safra de soja para receber em março. Pergunta para o proprietário se ele aceita receber tudo em soja.
Confesso que achei a proposta inusitada.
Naquele momento, pensei que o proprietário simplesmente iria recusar.
No dia seguinte, ele me ligou perguntando se havia aparecido alguma proposta.
Respondi:
— Tem uma... mas é um pouco diferente.
Contei toda a história.
Para minha surpresa, ele respondeu imediatamente:
— Eu também sou do agronegócio.
Naquele instante percebi que uma proposta que parecia impossível podia fazer todo sentido para a pessoa certa.
Ele pediu informações sobre a safra.
Liguei novamente para o comprador.
Recebi documentos, registros e informações técnicas da produção.
Naquela época, praticamente tudo era resolvido por e-mail.
Um enviava documentos.
O outro fazia perguntas.
Eu intermediava toda a negociação.
Esse processo levou quase um mês.
Até que o proprietário tomou sua decisão.
— Fechado. Recebo em soja.
Faltava apenas um detalhe.
Minha comissão.
O vendedor brincou:
— E a tua comissão? Vai receber em soja também?
Liguei para o comprador e expliquei a situação.
A resposta veio sem qualquer hesitação:
— Ney, sua comissão eu pago à vista no fechamento. Estou procurando exatamente esse barco há cinco ou seis anos.
Negócio fechado.
O proprietário recebeu em soja.
Eu recebi minha comissão em dinheiro.
E ainda fui pessoalmente até Goiás fazer a entrega técnica da embarcação.
Colocamos a Phantom na água.
Expliquei o funcionamento dos sistemas.
Acompanhei os primeiros procedimentos de operação.
Passei alguns dias com o novo proprietário até que ele estivesse totalmente familiarizado com a embarcação.
Na viagem de volta, fiquei refletindo sobre aquela negociação.
Se eu tivesse descartado aquela primeira ligação apenas porque a proposta parecia estranha, simplesmente não haveria negócio.
Foi ali que aprendi uma das maiores lições da minha carreira.
Um broker nunca deve julgar uma proposta antes de entender quem está sentado do outro lado da mesa.
Aquilo que parece não ter valor para um cliente pode ser exatamente o ativo que outro procura.
É por isso que networking vai muito além de conhecer pessoas.
É entender mercados diferentes.
É enxergar oportunidades onde quase ninguém enxerga.
É conectar interesses que, à primeira vista, parecem não ter relação alguma.
No mercado náutico, vender não é apenas anunciar embarcações.
É construir pontes entre pessoas.
Porque, no fim das contas, cada barco tem uma história.
E algumas delas...
...começam em uma lavoura de soja.
Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro.
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217 • Vistoria In Loco
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