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GAIUTA DE PROA NÃO É SÓ PARA VENTILAR: EM MUITOS BARCOS, ELA PODE SER UMA SAÍDA DE EMERGÊNCIA


Esses dias eu estava assistindo a uma apresentação de uma embarcação e uma coisa me chamou a atenção.

Ao chegar à cabine de proa, o apresentador mostrou aquela gaiuta instalada no teto e explicou que ela estava ali para abrir e ventilar a cabine.

Sim. Ela pode ventilar.

Pode entrar luz.

Pode melhorar bastante o conforto quando o barco está parado e o tempo permite mantê-la aberta.

Mas, durante muitos anos trabalhando com embarcações, fazendo entregas técnicas, acompanhando proprietários e realizando vistorias e surveys, aprendi que existem equipamentos a bordo cuja função mais importante não aparece no uso cotidiano.

E a gaiuta da cabine de proa é um ótimo exemplo disso.

Dependendo do projeto da embarcação, aquela gaiuta também pode integrar a rota de saída de emergência da cabine.

E essa informação, para mim, é muito mais importante do que simplesmente dizer que ela serve para ventilar.

GAIUTA E VIGIA NÃO SÃO A MESMA COISA

Primeiro vamos colocar os nomes no lugar certo.

Na lateral do casco ou da superestrutura normalmente encontramos as vigias, também chamadas de portlights.

No teto da cabine, no convés ou na superestrutura encontramos as gaiutas ou escotilhas, os chamados hatches.

Existem diferentes modelos, tamanhos e aplicações.

Algumas são pequenas e destinadas basicamente a iluminação e ventilação.

Outras permitem acesso.

E algumas, de acordo com o projeto, localização, dimensões e características de abertura, fazem parte da estratégia de escape da embarcação.

Por isso eu tomo muito cuidado quando alguém olha para qualquer gaiuta e simplesmente diz:

“Isso aqui é para ventilar.”

Pode ser.

Mas pode haver muito mais responsabilidade naquele equipamento.

O QUE EU APRENDI NAS ENTREGAS TÉCNICAS

Uma entrega técnica de verdade não deveria ser apenas mostrar onde liga o GPS, como funciona o ar-condicionado ou onde fica o botão do guincho.

O proprietário precisa conhecer o barco pensando também nas situações em que alguma coisa dá errado.

Quando eu entro numa cabine durante uma vistoria ou entrega técnica, uma das perguntas que gosto de fazer mentalmente é muito simples:

Se a saída normal ficar bloqueada, por onde uma pessoa consegue sair daqui?

Essa pergunta muda completamente a maneira como você olha para um barco.

Imagine uma cabine de proa.

Você está dormindo.

No corredor entre a cabine e o salão começa um incêndio.

Ou existe muita fumaça.

Ou algum objeto bloqueia a porta.

Ou ocorre uma situação qualquer que impeça a utilização da saída convencional.

Qual é a alternativa?

Em muitos projetos, justamente aquela gaiuta localizada sobre a cabine faz parte dessa possibilidade de fuga.

A ISO 9094:2022, que trata da proteção contra incêndio em pequenas embarcações de até 24 metros de comprimento de casco, tem como princípio proporcionar condições que deem aos ocupantes tempo suficiente para escapar de um incêndio a bordo.

É por isso que, quando fazemos uma análise técnica de uma embarcação, não podemos olhar os componentes somente pela utilização mais comum.

ELA VENTILA? CLARO QUE VENTILA

Aqui também é importante não cair no extremo contrário.

Não estou dizendo que é errado abrir a gaiuta para ventilar.

Muito pelo contrário.

Fabricantes de gaiutas deixam claro que seus produtos podem ser projetados para proporcionar ventilação, iluminação natural e acesso.

A própria Lewmar, uma das fabricantes mais conhecidas desse tipo de equipamento, descreve modelos de gaiutas exatamente com funções de acesso, entrada de ar e iluminação natural.

Então o problema não está na frase:

“Essa gaiuta pode ser aberta para ventilar a cabine.”

Isso está correto.

O problema está em reduzir a explicação a:

“Essa gaiuta está aí para ventilação.”

Principalmente quando estamos falando de uma embarcação na qual aquela abertura também foi prevista como parte de uma solução de emergência.

São coisas completamente diferentes.

EM SURVEY, UMA PALAVRA MUDA TUDO

Talvez seja por isso que eu seja tão chato com determinadas explicações técnicas.

Survey ensina a gente a não generalizar.

Eu não posso chegar em qualquer barco, olhar uma gaiuta no teto da cabine e afirmar:

“Essa é uma saída de emergência.”

Sem verificar o projeto, as dimensões, o sistema de abertura, a área livre disponível, sua localização e as condições de acesso.

Da mesma maneira, não gosto de olhar para uma gaiuta potencialmente importante para a segurança e simplesmente classificá-la como uma janela de ventilação no teto.

Existem normas técnicas específicas tratando desses componentes.

A ISO 12216:2020, por exemplo, estabelece requisitos técnicos e métodos de ensaio para janelas, vigias, gaiutas, tampas e portas de pequenas embarcações de até 24 metros, considerando inclusive localização e categoria de projeto.

Ou seja: uma gaiuta não é apenas uma peça de acrílico bonita colocada no convés.

Existe engenharia por trás dela.

UMA COISA QUE EU SEMPRE OLHARIA NUMA VISTORIA

Agora chegamos a uma parte que considero importantíssima.

Não basta existir uma saída.

Ela precisa estar utilizável.

Já vi ao longo da vida náutica muita modificação feita pensando apenas em decoração e conforto.

Colchões.

Forrações.

Cortinas.

Persianas.

Telas.

Marcenaria.

Objetos guardados sobre a cama.

E ninguém pensa:

“Se alguém precisar abrir essa gaiuta rapidamente, consegue?”

Em um survey eu gosto justamente desse tipo de raciocínio.

Abre?

Abre totalmente?

A trava funciona?

A pessoa consegue alcançar?

Existe alguma coisa impedindo a movimentação?

O acrílico está em boas condições?

A estrutura apresenta trinca?

Existe infiltração?

A vedação está boa?

Os braços e dobradiças estão funcionando?

É possível operá-la pelo lado necessário?

Tudo isso parece detalhe até o dia em que deixa de ser detalhe.

O PROPRIETÁRIO DEVERIA FAZER ESSE TESTE

Tem uma experiência simples que eu recomendo ao proprietário.

Entre na sua cabine de proa.

Olhe para a porta.

Agora imagine que aquela saída está bloqueada.

Olhe para cima.

Existe uma gaiuta?

Você sabe destravá-la?

Já abriu completamente?

Sabe qual é a abertura livre?

Conseguiria passar por ela?

Quem dorme naquela cabine sabe como operá-la?

Se existem crianças ou convidados a bordo, alguém já explicou como funciona?

É incrível como estudamos horas para aprender todas as funções de uma televisão nova e muitas vezes passamos anos dormindo dentro de uma cabine sem saber como sair dela numa emergência.

E O TAMANHO DA GAIUTA?

Esse é outro assunto interessante.

Há muito tempo existem critérios de projeto para dimensões e características de aberturas utilizadas nas embarcações.

E existe uma discussão que eu considero válida: será que determinados padrões históricos de abertura continuam adequados ao tamanho médio das pessoas atualmente?

Eu já ouvi muita conversa nesse sentido ao longo dos anos.

Mas aqui entra novamente a diferença entre conversa de cais e survey.

Sem colocar a norma, a versão, o projeto e a categoria da embarcação sobre a mesa, eu não vou transformar isso em afirmação técnica.

Esse assunto merece inclusive outro artigo.

Porque uma coisa é perguntar se determinada abertura ainda é adequada ao perfil físico da população atual.

Outra completamente diferente é afirmar que uma norma internacional está errada sem apresentar documentação.

No meu trabalho eu prefiro separar as duas coisas.

EXPERIÊNCIA NÃO ELIMINA A NECESSIDADE DE APRENDER

Eu tenho muitos anos dentro da náutica.

Comecei como marinheiro, passei por comando, entregas técnicas, acompanhamento de embarcações, estaleiros, manutenção, negociação, vistoria e survey.

E ainda hoje vejo coisas que me fazem parar e pesquisar.

Isso é uma das coisas que o mar ensina.

Nunca chega o dia em que você pode dizer:

“Agora eu sei tudo.”

Quando assisti novamente à explicação daquela gaiuta como sendo destinada à ventilação, aquilo me incomodou justamente por causa dessa experiência.

Não porque ventilar esteja errado.

Mas porque ficou faltando uma informação de segurança que pode ser muito mais importante.

NA PRÓXIMA VEZ QUE OLHAR PARA UMA GAIUTA, LEMBRE DISSO

Pode ser uma entrada de luz.

Pode ser uma excelente forma de ventilar a cabine.

Pode deixar a proa muito mais agradável quando o barco está fundeado.

Mas, quando prevista pelo projeto como parte da rota de escape, aquela gaiuta também pode ser uma das possibilidades de saída de uma pessoa em uma emergência.

E é exatamente por isso que precisa abrir.

Precisa estar desobstruída.

Precisa estar funcionando.

E quem utiliza aquela cabine precisa saber operá-la.

Na náutica, muitas vezes o equipamento mais importante é justamente aquele que esperamos nunca precisar utilizar para sua finalidade de emergência.

"O mar nunca deixa de ensinar. Esta foi apenas uma das muitas histórias reais que ainda tenho para compartilhar."

Até o próximo artigo.

Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217® • Vistoria In Loco

WhatsApp (48) 9 8461-1646 

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