FALÊNCIA DE ESTALEIRO MOSTRA POR QUE BARCO NOVO TAMBÉM EXIGE DUE DILIGENCE


COMPRADORES DA KADEY-KROGEN E AMERICAN TUGS HAVIAM FEITO PAGAMENTOS EXPRESSIVOS POR EMBARCAÇÕES AINDA EM CONSTRUÇÃO

Comprar um barco zero quilômetro diretamente de um estaleiro tradicional pode transmitir uma sensação de segurança muito maior do que adquirir uma embarcação usada.

Mas a liquidação da Kadey-Krogen Yachts, de sua controladora KKY Holdings e da American Tugs mostra que essa segurança não pode ser presumida.

As três empresas entraram voluntariamente com pedido de Chapter 7, modalidade da legislação americana destinada à liquidação dos ativos, em 6 de julho de 2026. Não se trata, portanto, de uma reorganização operacional nos moldes do Chapter 11. 

O COMPRADOR JÁ HAVIA PAGO CERCA DE 40%

Um dos casos relatados pela Trade Only Today envolve um comprador de uma American Tug 435, contratada no segundo semestre de 2025.

Quando recebeu a notícia da falência, ele afirma que aproximadamente 40% do preço contratado já havia sido pago.

O barco ainda estava em construção. 

E esse não é o caso mais extremo.

A reportagem relata outro contrato da American Tugs no qual o comprador teria concordado em pagar 90% antecipadamente, em troca de uma redução no preço total do barco. 

BARCO PRONTO, DINHEIRO PAGO — E A ENTREGA NÃO ACONTECEU

Talvez o episódio mais didático seja o de uma cliente da Kadey-Krogen.

Segundo ela, sua embarcação estava 100% concluída em Taiwan e deveria ter sido embarcada para os Estados Unidos em junho.

A compradora afirma que seus pagamentos à Kadey-Krogen estavam integralmente quitados. Entretanto, segundo o relato reproduzido pela publicação, o construtor asiático teria informado que a Kadey-Krogen não havia repassado os recursos correspondentes.

O barco permaneceu em Taiwan. A fabricante asiática citada na matéria não respondeu ao pedido de comentário da publicação. 

Esse ponto muda completamente a discussão.

Pagar pelo barco não significa necessariamente ser proprietário dos materiais, equipamentos ou mesmo do casco em determinada fase da construção.

Tudo depende do contrato e da legislação aplicável.

O PROBLEMA DOS PAGAMENTOS POR ETAPAS

É comum na construção de embarcações utilizar um cronograma financeiro baseado em milestones:

assinatura do contrato, início da laminação ou fabricação do casco, conclusão estrutural, instalação dos motores, acabamento, lançamento e entrega.

O erro é imaginar que cada pagamento automaticamente representa aquisição proporcional daquele ativo.

Nem sempre representa.

O contrato precisa estabelecer claramente quando a propriedade do casco, materiais e equipamentos passa do construtor para o comprador.

Caso contrário, em uma insolvência, o comprador pode acabar discutindo judicialmente se possui um barco parcialmente construído ou apenas um crédito contra uma empresa falida.

Análises publicadas após o pedido de Chapter 7 observam justamente esse risco para clientes com depósitos ou pagamentos de progresso pendentes de entrega. 

DUE DILIGENCE NÃO É SÓ PARA BARCO USADO

O caso deixa uma lição especialmente importante para brokers e compradores.

Antes de assinar um contrato de construção, é prudente verificar:

- quem juridicamente recebe os pagamentos;

- quem efetivamente constrói o barco;

- onde a embarcação será construída;

- como os recursos de cada etapa serão utilizados;

- quando ocorre a transferência de propriedade do casco;

- quem é proprietário dos motores e equipamentos já pagos;

- se os valores ficam em conta escrow ou entram diretamente no caixa do estaleiro;

- quais garantias existem em caso de insolvência;

- possibilidade de seguro, performance bond ou garantia bancária;

- direito do comprador de inspecionar fisicamente a construção;

- documentação que comprove o pagamento dos fornecedores;

- regras para retirada do casco ou continuidade da obra com outro construtor caso o contrato seja interrompido.

Principalmente em projetos de milhões de dólares, não basta analisar o barco que será construído.

É necessário analisar também quem está construindo, como o dinheiro está protegido e de quem é aquilo que já foi pago.

TRADIÇÃO NÃO SUBSTITUI PROTEÇÃO CONTRATUAL

O episódio chama atenção também pelo histórico da empresa.

A Kadey-Krogen foi fundada em 1976 e construiu centenas de embarcações, tornando-se uma marca bastante conhecida entre proprietários de trawlers e barcos de longo alcance. A American Tugs, fundada em 1999, foi adquirida pelo grupo em 2023. Na ocasião, a própria Kadey-Krogen descrevia a American Tugs como um construtor bem-sucedido, com carteira de encomendas saudável e mais de 250 embarcações entregues. 

Três anos depois, as empresas estavam em Chapter 7.

É exatamente por isso que reputação, tamanho e décadas de mercado não substituem mecanismos jurídicos de proteção do comprador.

Para quem trabalha com aquisição de embarcações, fica uma regra simples:

Due diligence não começa quando o barco fica usado. Ela deveria começar antes mesmo do primeiro pagamento ao estaleiro.

O mar nunca deixa de ensinar!

Até o próximo artigo.

Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217® • Vistoria In Loco

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