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ESSA SEMANA LI UM ARTIGO DA REVISTA NÁUTICA E ME LEMBREI DA MINHA PASSAGEM PELA FERRETTI


Essa semana li um excelente artigo da Revista Náutica sobre a importância do planejamento patrimonial e da gestão de embarcações acima de 80 pés. A leitura imediatamente me fez lembrar da minha passagem pela Ferretti Group, entre 2003 e 2010, e também da realidade que vivo hoje administrando 28 embarcações na Marina Pier 33, em Biguaçu (SC).

Na época em que trabalhei na Ferretti, muita gente imaginava que vender um iate significava simplesmente entregar as chaves ao proprietário.

Na prática, era exatamente o contrário.

A entrega da embarcação marcava o início de uma nova etapa.

Os proprietários desses grandes iates eram, em sua maioria, empresários extremamente ocupados. Eles não tinham tempo — e muitas vezes nem interesse — em administrar a operação da embarcação. Por isso, contratavam empresas especializadas em Yacht Management ou gestores náuticos para cuidar de absolutamente tudo.

Esse profissional era responsável por contratar e coordenar a tripulação, organizar escalas de trabalho, acompanhar manutenções preventivas e corretivas, negociar com fornecedores, controlar documentação, seguros, abastecimentos, docagens, revisões e garantir que o barco estivesse sempre pronto para navegar.

Enquanto isso, o proprietário fazia exatamente o que desejava: aproveitar sua embarcação com tranquilidade, sabendo que havia uma equipe especializada cuidando de toda a operação.

Naquela época, esse modelo já era bastante comum nas embarcações acima de 68 pés.

Hoje, passados mais de quinze anos, percebo que essa necessidade ficou ainda mais evidente.

Administrando atualmente 28 embarcações na Marina Pier 33, acompanho diariamente a rotina de proprietários, comandantes, marinheiros, estaleiros, oficinas, marinas, seguradoras e fornecedores.

Posso afirmar que a gestão de um grande iate vai muito além da manutenção.

Estamos falando da administração de um patrimônio de alto valor.

Um bom gestor náutico precisa controlar custos operacionais, planejar revisões, acompanhar garantias, fiscalizar serviços executados por terceiros, organizar a documentação, supervisionar a tripulação e manter um relacionamento constante com fornecedores e prestadores de serviço.

Em muitos casos, ele também coordena grandes reformas, projetos de refit, retrofit, modernizações eletrônicas e até negociações para futura venda da embarcação.

EM ALGUNS CASOS, A GESTÃO COMEÇA ANTES MESMO DA ENTREGA DO BARCO

Ao longo da minha carreira participei de uma etapa que pouca gente conhece.

Em diversos projetos, o proprietário comprava sua embarcação diretamente do estaleiro, mas contratava um gestor independente para representá-lo durante toda a construção.

Tive a oportunidade de acompanhar tecnicamente dezenas de embarcações desde o início da fabricação. Meu trabalho era representar exclusivamente os interesses do proprietário dentro do estaleiro, acompanhando cada fase da construção, conferindo a qualidade dos serviços executados, esclarecendo dúvidas técnicas, verificando instalações, acompanhando testes e auxiliando nas decisões que surgiam ao longo do projeto.

Perdi a conta de quantos barcos acompanhei dessa forma, mas certamente foram dezenas ao longo da minha carreira.

Em muitos casos, esse trabalho não terminava quando a embarcação era entregue.

Eu permanecia ao lado do proprietário por mais dois, três ou até quatro anos, administrando toda a operação da embarcação, organizando a tripulação, acompanhando fornecedores, supervisionando manutenções e garantindo que o barco estivesse sempre em perfeitas condições de uso.

Foi justamente essa experiência que me mostrou uma realidade pouco conhecida pelo público.

Um barco bem administrado não começa quando ele entra na água.

Ele começa muito antes, ainda dentro do estaleiro.

Cada equipamento instalado corretamente, cada sistema testado, cada acabamento conferido e cada decisão tomada durante a construção influenciam diretamente na segurança, na confiabilidade, na facilidade de manutenção e até no valor de revenda da embarcação.

Na minha opinião, essa necessidade de gestão não começa apenas nos 80 pés.

Dependendo do perfil da embarcação e da forma como será utilizada, barcos entre 60 e 70 pés já passam a exigir uma administração muito mais profissional.

Quanto mais sofisticada a embarcação, maior a responsabilidade envolvida.

Hoje encontramos estabilizadores, geradores, dessalinizadores, sistemas de automação, ar-condicionado central, eletrônica integrada, sistemas hidráulicos complexos, sistemas contra incêndio e dezenas de outros equipamentos que precisam funcionar em perfeita harmonia.

Basta uma manutenção preventiva deixar de ser realizada para que um pequeno problema se transforme em um grande prejuízo.

Ao longo da minha carreira aprendi uma lição importante.

Os maiores problemas normalmente não acontecem porque o barco foi mal construído.

Eles acontecem pela falta de gestão.

É justamente por isso que o Yacht Management vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil.

O gestor náutico funciona como um representante do proprietário. Seu papel é administrar toda a operação da embarcação, proteger o patrimônio e permitir que o cliente utilize seu iate apenas para aquilo que realmente importa: navegar, descansar e aproveitar momentos com a família e os amigos.

Depois de mais de duas décadas trabalhando com embarcações de grande porte, continuo acreditando que comprar um iate é apenas o começo.

O verdadeiro desafio é mantê-lo seguro, valorizado, bem administrado e sempre pronto para navegar.

E talvez seja justamente esse o maior patrimônio de uma embarcação: não apenas o seu valor de mercado, mas a tranquilidade de saber que existe uma gestão profissional cuidando de cada detalhe.

No próximo artigo, vou compartilhar um pouco dos bastidores da minha época na Ferretti Group e mostrar como era o processo de entrega de um iate novo ao proprietário. Vou contar como funcionavam o PDI (Pre-Delivery Inspection), as cinco etapas de construção, os testes de mar, a conferência completa dos sistemas de bordo, o treinamento da tripulação e os procedimentos que garantiam que cada embarcação fosse entregue em perfeitas condições de navegação.

Tenho certeza de que será um conteúdo interessante para quem gosta do universo náutico e para quem deseja conhecer o que acontece muito antes de um grande iate deixar o estaleiro.

Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217®

Especialista em compra, venda, gestão, refit, retrofit e acompanhamento técnico de embarcações.

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