BERTRAM 57 RETIDA NO PORTO: 48 HORAS DE DUE DILIGENCE QUE EVITARAM UM PREJUÍZO DE MAIS DE R$ 340 MIL

Existem trabalhos que, mesmo depois de muitos anos, continuam na memória porque mostram exatamente quanto conhecimento técnico, experiência e rapidez podem representar financeiramente.

Em 2009, vivi um desses episódios.

Naquela época, eu integrava a equipe do Estaleiro Spirit Ferretti e fui designado para uma missão de grande responsabilidade no PortoNave, em Navegantes (SC).

A embarcação envolvida era nada menos que uma Bertram 570 Convertible nova, recém-importada para o Brasil.

Considerando embarcação, impostos, taxas e demais custos da operação de importação, o investimento chegava a aproximadamente US$ 4,9 milhões.

Era uma operação de grande porte.

E então surgiu um problema: a Bertram caiu no Canal Vermelho da Receita Federal.

O QUE SIGNIFICA CAIR NO CANAL VERMELHO?

Em um processo de importação, a Receita Federal pode selecionar a operação para diferentes níveis de conferência aduaneira.

No Canal Vermelho, além da análise documental, ocorre a verificação física da mercadoria importada.

No caso de uma embarcação, isso significava confrontar aquilo que havia sido declarado na documentação com o barco que efetivamente estava dentro do porto.

Modelo, equipamentos, acessórios, motorização, números de identificação e demais características precisavam ser conferidos tecnicamente.

Qualquer divergência poderia gerar exigências adicionais, atrasos e eventualmente autuações.

E havia outro problema: o relógio estava correndo.

MAIS DE R$ 8 MIL POR DIA COM O BARCO PARADO

Enquanto a Bertram permanecia retida dentro do PortoNave, as despesas portuárias continuavam sendo acumuladas.

Naquela operação, estávamos falando de mais de R$ 8.000 por dia.

Portanto, não bastava fazer um trabalho tecnicamente correto.

Era necessário fazer correto e rápido.

Foi nesse cenário que entrei na operação.

Passei dois dias praticamente imerso na embarcação, realizando o levantamento necessário para produzir um documento técnico suficientemente detalhado para atender às exigências daquele processo.

217 ITENS INSPECIONADOS

A Bertram 570 Convertible era uma embarcação sofisticada e com uma quantidade enorme de sistemas e equipamentos.

A inspeção envolveu estrutura, sistemas de bordo, equipamentos, acessórios, documentação, identificação dos componentes e motorização.

Na praça de máquinas estavam dois grandes MAN de 1.550 HP cada, totalizando 3.100 HP.

Ao final do trabalho, chegamos a um laudo técnico com 217 itens inspecionados e validados.

Foi uma operação que exigiu atenção absoluta aos detalhes.

Não havia espaço para trabalhar com "mais ou menos".

O que estava fisicamente instalado no barco precisava conversar com aquilo que estava declarado nos documentos.

48 HORAS DEPOIS, A BERTRAM ESTAVA LIBERADA

O trabalho foi concluído em dois dias.

Em aproximadamente 48 horas, a documentação técnica foi aceita e a embarcação pôde seguir o processo de liberação junto à Receita Federal.

Considerando o custo da permanência no porto e o risco financeiro existente caso o processo se prolongasse, o trabalho evitou um prejuízo estimado em mais de R$ 340 mil para o proprietário.

Mas a história não terminou no cais.

Depois da liberação, colocamos a Bertram na água, abastecemos os tanques de diesel e realizamos os preparativos necessários para a viagem.

No quarto dia, já estávamos navegando de Navegantes rumo ao Guarujá (SP).

Depois de toda aquela pressão dentro do porto, ver a Bertram finalmente navegando foi uma satisfação difícil de explicar.

O problema estava resolvido.

UM BOM LAUDO NÃO É CUSTO. É PROTEÇÃO PATRIMONIAL.

Esse episódio aconteceu em 2009, mas a lição continua atual.

Quando alguém compra, vende ou importa uma embarcação de alto valor, muitas vezes existe uma preocupação enorme em negociar preço.

Isso é natural.

Mas existe algo potencialmente muito mais caro do que pagar um pouco mais ou um pouco menos pelo barco:

tomar uma decisão sem informação técnica suficiente.

É justamente aí que entram o Survey, a vistoria In Loco e a Due Diligence Naval.

Não se trata apenas de procurar defeitos.

Trata-se de verificar aquilo que está sendo comprado, confrontar documentação com realidade, identificar riscos, levantar equipamentos e sistemas, avaliar condições e fornecer informações técnicas para que decisões financeiras sejam tomadas com maior segurança.

Um problema identificado antes da conclusão de uma operação pode representar economia.

O mesmo problema descoberto depois pode virar prejuízo.

O RECONHECIMENTO TAMBÉM PRECISA SER REGISTRADO

Faço questão de registrar o crédito ao Estaleiro Spirit Ferretti, onde eu trabalhava naquela época, e especialmente ao Márcio Christiansen, que liderava o estaleiro e confiou a mim uma missão de tamanha responsabilidade.

Foi uma experiência importante na minha trajetória profissional e um daqueles trabalhos que ajudam a construir aquilo que nenhum curso consegue entregar sozinho: experiência prática de campo.

De 2009 para cá, os barcos mudaram, a eletrônica evoluiu, os sistemas ficaram mais complexos e os valores envolvidos aumentaram muito.

Mas uma coisa continua exatamente igual:

quando existe patrimônio relevante em jogo, informação técnica custa pouco. O erro é que pode custar uma fortuna.

Até o próximo artigo!

Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico
Inteligência Técnica • Due Diligence Naval • Laudo Blindado (217 itens)
Broker • Survey • Skipper • Retrofit

WhatsApp: (48) 98461-1646

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