AEROSSOL PODE SER O PRÓXIMO PASSO NO COMBATE A INCÊNDIO EM PRAÇAS DE MÁQUINAS DAS EMBARCAÇÕES
NOVA TECNOLOGIA PROMETE COMBATER O FOGO SEM RETIRAR O OXIGÊNIO DO AMBIENTE E JÁ COMEÇA A CONVERSAR COM A ELETRÔNICA EMBARCADA
Incêndio em praça de máquinas continua sendo um dos cenários mais críticos dentro de uma embarcação. É um ambiente com combustível, óleo, superfícies aquecidas, instalações elétricas, pouca ventilação e, muitas vezes, acesso difícil.
Por isso, qualquer nova tecnologia voltada a esse compartimento merece atenção.
A Fire Suppression Industries, em parceria com a Airmar Technology, apresentou recentemente um sistema fixo de combate a incêndio baseado em aerossol, desenvolvido para compartimentos fechados como praças de máquinas.
A proposta é bastante diferente dos sistemas tradicionais de CO₂.
Quando acionado automaticamente por temperatura ou manualmente, o equipamento libera uma grande quantidade de partículas extremamente pequenas dentro do compartimento.
Essas partículas permanecem suspensas no ambiente e atuam diretamente sobre a reação química responsável pela manutenção das chamas.
Ou seja: em vez de simplesmente “abafar” o incêndio retirando o oxigênio do ambiente, o aerossol atua interrompendo o processo de combustão.
POR QUE ISSO CHAMA ATENÇÃO?
O CO₂ é extremamente eficiente no combate a incêndios em compartimentos fechados e vem sendo utilizado há décadas em embarcações.
Mas existe um problema evidente: em concentrações utilizadas para extinção de incêndio, o CO₂ pode tornar o ambiente perigoso para qualquer pessoa que permaneça dentro dele.
Por isso, sistemas desse tipo exigem procedimentos rigorosos de evacuação e segurança antes do disparo.
Segundo os desenvolvedores da nova solução, o aerossol apresentado não depende da redução da concentração de oxigênio do ambiente para extinguir as chamas.
A empresa também informa que seu agente é não condutivo, não corrosivo e desenvolvido para não causar danos aos equipamentos existentes no compartimento.
Para uma praça de máquinas moderna, repleta de módulos eletrônicos, sensores, ECUs, carregadores, inversores, geradores e redes digitais, isso representa uma característica bastante interessante.
MENOS CILINDROS, MENOS ESPAÇO OCUPADO
Outra vantagem potencial é física.
Sistemas tradicionais de CO₂ normalmente utilizam cilindros relativamente grandes, tubulações, válvulas, sistemas de disparo e estruturas destinadas à instalação e fixação desses componentes.
O sistema de aerossol utiliza unidades compactas instaladas diretamente no compartimento.
Isso pode facilitar bastante uma instalação durante um retrofit, principalmente em embarcações onde praticamente cada centímetro da praça de máquinas já está ocupado.
Para estaleiros e empresas de refit, essa possibilidade é particularmente interessante.
Em vez de reservar grandes volumes para cilindros e tubulações, pode ser possível distribuir unidades de geração de aerossol estrategicamente dentro do compartimento.
O COMBATE A INCÊNDIO COMEÇA A ENTRAR NA REDE DO BARCO
Talvez a parte mais interessante da parceria com a Airmar seja justamente a integração eletrônica.
A Airmar vem desenvolvendo sua plataforma SmartBoat para conectar sensores, alarmes e sistemas auxiliares à rede da embarcação.
Na prática, isso abre caminho para que o sistema de incêndio deixe de trabalhar completamente isolado.
Imagine uma embarcação moderna.
Um sensor detecta aumento anormal de temperatura na praça de máquinas.
O sistema envia imediatamente um alerta para o display multifunção no comando.
Ao mesmo tempo, a automação pode iniciar uma sequência de segurança.
Ventiladores podem ser desligados.
Bombas ou válvulas de combustível podem ser fechadas.
Alarmes podem ser acionados.
O comandante recebe a informação no painel.
E, dependendo da configuração, o sistema de extinção pode ser disparado automaticamente ou manualmente.
É uma evolução importante.
O combate a incêndio começa a deixar de ser apenas um conjunto de cilindros e passa a fazer parte da automação inteligente da embarcação.
NMEA 2000 PODE TER PAPEL IMPORTANTE
A integração com redes como a NMEA 2000 também abre novas possibilidades.
Hoje já temos motores, geradores, baterias, carregadores, tanques, bombas, iluminação, áudio e diversos outros sistemas compartilhando dados dentro da mesma arquitetura eletrônica.
O sistema de incêndio tende naturalmente a entrar nesse ecossistema.
Isso não significa simplesmente conectar um extintor à rede.
Significa permitir que diferentes equipamentos conversem entre si.
Um incêndio pode exigir muito mais do que lançar um agente extintor.
Pode exigir desligamento da ventilação.
Corte dos motores.
Interrupção da alimentação de combustível.
Desligamento de determinadas cargas elétricas.
Alarme na cabine.
Alarme no flybridge.
Notificação para o comandante.
Registro do evento.
Tudo isso pode fazer parte de uma futura lógica integrada de segurança.
MAS A TECNOLOGIA AINDA PRECISA PASSAR PELO TESTE MAIS IMPORTANTE: HOMOLOGAÇÃO
Aqui está o ponto que precisa ser observado com bastante cuidado.
O sistema apresentado pela Fire Suppression Industries e pela Airmar ainda está avançando nos processos necessários para aplicações marítimas mais amplas.
Portanto, seria prematuro afirmar que estamos diante de um substituto imediato para os sistemas tradicionais de CO₂.
Em segurança marítima, tecnologia interessante não basta.
É necessário comprovar desempenho.
É necessário testar concentração.
Temperatura de descarga.
Toxicidade.
Compatibilidade com equipamentos.
Tempo necessário para extinguir o incêndio.
Possibilidade de reignição.
Procedimentos de evacuação.
Sistemas de intertravamento.
E principalmente obter as certificações exigidas para cada tipo de embarcação e aplicação.
AEROSSOL NÃO É EXATAMENTE UMA TECNOLOGIA NOVA
Vale também fazer uma distinção importante.
O conceito de combate a incêndio utilizando aerossol condensado já existe há vários anos.
Existem fabricantes e sistemas utilizando esse princípio em diferentes aplicações industriais e marítimas.
Normas específicas também já foram desenvolvidas para esse tipo de agente.
O que está mudando é a sofisticação da tecnologia, a miniaturização dos equipamentos e sua integração com os sistemas eletrônicos das embarcações.
E isso pode acelerar bastante sua utilização no mercado náutico.
SEGURANÇA DE PESSOAS CONTINUA SENDO PRIORIDADE
Mesmo quando um fabricante classifica determinado agente como não tóxico ou afirma que o sistema não reduz significativamente o oxigênio do ambiente, isso não significa que uma pessoa deva permanecer deliberadamente dentro de uma praça de máquinas durante uma descarga.
Qualquer sistema fixo de combate a incêndio deve possuir procedimentos claros de segurança.
A descarga pode reduzir a visibilidade, produzir temperaturas elevadas, partículas em suspensão e alterar rapidamente as condições do ambiente.
Em um incêndio real existem ainda fumaça, gases provenientes da combustão, calor e materiais tóxicos sendo liberados.
Portanto, independentemente do agente utilizado, o primeiro princípio continua sendo o mesmo:
preservar vidas antes de preservar equipamentos.
PARA REFIT, É UMA TECNOLOGIA QUE VALE ACOMPANHAR
É justamente no mercado de refit e retrofit que sistemas compactos de aerossol podem encontrar um espaço bastante interessante.
Muitas embarcações construídas há 15, 20 ou 30 anos possuem sistemas de incêndio que podem ser modernizados.
Ao mesmo tempo, esses barcos vêm recebendo cada vez mais eletrônica.
Novos carregadores.
Bancos de baterias.
Inversores.
Baterias de lítio.
Geradores.
Equipamentos de climatização.
Automação.
Starlink.
Sistemas de áudio.
Mais eletrônica significa também novas fontes potenciais de falha e novas demandas de proteção.
Nesse cenário, modernizar a proteção contra incêndio deixa de ser apenas manutenção.
Passa a fazer parte do próprio projeto de retrofit da embarcação.
O FUTURO PODE SER UM SISTEMA COMPLETO DE SEGURANÇA
Talvez a maior evolução não esteja exatamente no agente utilizado.
CO₂, agentes limpos, water mist e aerossol continuarão disputando espaço dependendo da aplicação.
A grande mudança pode estar na forma como todos esses sistemas trabalham juntos.
O barco poderá detectar o problema antes mesmo de existir uma chama significativa.
Sensores poderão identificar temperatura anormal.
A automação poderá isolar o compartimento.
Combustível poderá ser interrompido.
Ventilação poderá ser desligada.
O comandante poderá acompanhar tudo pelo display central.
E somente então o sistema de extinção será utilizado.
A praça de máquinas passa, assim, de um compartimento simplesmente protegido por extintores para um ambiente permanentemente monitorado.
LEITURA DO MERCADO
A tecnologia apresentada pela Fire Suppression Industries e pela Airmar ainda precisa amadurecer e conquistar as certificações necessárias antes que possa ser encarada como substituta dos sistemas tradicionais.
Mas o caminho é interessante.
Assim como motores, baterias, áudio, navegação e climatização estão sendo integrados à eletrônica central do barco, a segurança contra incêndio também está entrando nessa nova geração de embarcações conectadas.
Para quem trabalha com construção naval, survey, manutenção, refit e retrofit, vale acompanhar essa evolução de perto.
Porque, quando o assunto é incêndio em praça de máquinas, alguns segundos podem separar um pequeno incidente da perda completa de uma embarcação.
Ney Broker
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