TRÊS ERROS DE INICIANTE: A VIAGEM QUE ME LEMBROU QUE O MAR NÃO PERDOA O EXCESSO DE CONFIANÇA

Durante mais de três décadas navegando pela costa brasileira, aprendi uma lição que repito sempre aos meus clientes: o mar não faz distinção entre um comandante experiente e um marinheiro de primeira viagem. Basta uma sequência de decisões equivocadas para transformar uma travessia tranquila em uma verdadeira prova de resistência.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo em janeiro de 2017.

Naquele dia, fui contratado para realizar a vistoria técnica de uma Intermarine 43, localizada na praia da Tabatinga, litoral norte de São Paulo. Depois de uma inspeção completa, testes de navegação e verificação dos principais sistemas da embarcação, apresentei meu parecer ao comprador.

A embarcação foi aprovada.
Como eu já estava no local e o destino final seria Balneário Camboriú (SC), resolvi fazer eu mesmo o traslado navegando.

Hoje, olhando para trás, percebo que aquela viagem começou com três decisões que jamais repetiria.


Erro nº 1 — Navegar sozinho

Quem trabalha com traslados (Skipper) sabe que alguns trechos de uma viagem costeira exige atenção constante.

Além da fadiga natural de muitas horas de navegação, sempre existe a possibilidade de uma emergência mecânica ou mudança repentina das condições do tempo.

Até convidei alguns marinheiros e  conhecidos para fazer a viagem comigo.

Porem era pleno verão.

E todos que falei ou estavam de ferias em outros lugares ou estavam trabalhando.

Resolvi seguir sozinho.

Naquele momento, pareceu apenas um detalhe.


Na prática, foi meu primeiro erro.

Ter outra pessoa a bordo não serve apenas para revezar o comando. Um segundo tripulante ajuda na observação da navegação, na operação da embarcação e, principalmente, oferece apoio quando algum problema acontece.

E problema aconteceu.

Erro nº 2 — Misturar combustíveis

Concluido a primeira perna da navegacao Tabatinga SP ao Guaruja SP. 

Aportei no Iate Clube de Santos

No Iate Clube para abastecer.

Perguntei se havia diesel marítimo.

A resposta foi negativa.

O posto possuía apenas diesel Verana.

Como já estava anoitecendo e o posto encerraria o atendimento em poucos minutos, tomei uma decisão rápida.

Abasteci.

Naquele momento imaginei que não haveria qualquer problema.

Afinal, o combustível atendia às especificações do motor.

Mas algumas horas depois comecei a entender que nem sempre a teoria acompanha a prática.

Tudo perfeito...

...até deixar de ser.

Saí da barra de Santos por volta das quatro horas da manhã.

O mar estava excelente.

A Intermarine navegava de forma impecável.

As primeiras cem milhas rumo ao sul foram absolutamente tranquilas.

De repente, os dois motores começaram a oscilar.

2800 RPM...

2300...

1500...

Voltavam.

Caíam novamente.

Como a falha acontecia simultaneamente nos dois motores, imediatamente percebi que dificilmente seria um defeito isolado.

Desci para a praça de máquinas.

Olhei níveis de óleo do motor, reversor, tanque de combustível 

Subi para o painel de comando principal

Cheguei

Temperaturas.

Pressões.

Tudo aparentemente normal.

Tentei novamente.

Poucos minutos depois...

A mesma falha.

Foi então que abri os filtros separadores de combustível (RACOR).

Quando drenei os copos...


Só lama.

Abri a tampa.

Mais lama.

Naquele instante tudo fez sentido.

Muito provavelmente havia anos de resíduos, sedimentos e umidade acumulados no tanque.

O abastecimento com diesel Verana acabou desprendendo toda aquela contaminação.

Começou uma batalha que parecia não ter fim.


Limpa.

Troca filtro.

Sangra sistema.

Liga novamente.

Navega alguns minutos.

Entope outra vez.

E novamente.

E novamente.

Depois de várias limpezas, já havia retirado praticamente um balde de sujeira do sistema.


Muita gente pergunta o que fiz com aquele combustível contaminado.

A resposta é simples.

Antes de iniciar qualquer limpeza desliguei todos os automáticos das bombas de porão.

Nenhuma gota de diesel foi lançada ao mar.

Todo o combustível utilizado na limpeza permaneceu retido no porão da embarcação até que eu chegasse a uma marina com condições adequadas para realizar o descarte correto e a higienização completa da praça de máquinas.

Criar um problema ambiental jamais foi uma opção.

Depois de muito trabalho, a quantidade de sujeira começou a diminuir.

Os motores voltaram a funcionar de forma mais estável.

Mas eu já não tinha confiança suficiente para exigir potência máxima.

Passei a navegar entre 1.000 e 1.200 RPM, evitando qualquer aceleração brusca que pudesse desprender ainda mais resíduos e voltar a entupir os filtros.

Foi justamente nesse momento que surgiu o terceiro erro.

Erro nº 3 — Fundear durante a trovoada

O céu escureceu rapidamente.

Uma trovoada típica de verão aproximava-se pelo sul.


O vento aumentou.

O mar começou a crescer.

Eu já navegava nas proximidades do Banco do Cigano, na aproximação da barra de Paranaguá.

Mesmo com potência reduzida, eu ainda tinha propulsão.

Hoje, analisando friamente, reconheço que poderia ter girado aproximadamente 180 graus, manter a embarcação trabalhando nos motores, "apopando" para as ondas, voltando engatado em direção a ilha do Castilho  e aguardando a tempestade passar.

Trovoadas de verão normalmente duram poucos minutos.

Mas naquele instante, vendo o vento me empurrar em direção ao banco dos Ciganos  e preocupado com a possibilidade de exigir demais dos motores contaminados, tomei outra decisão.

Fundeei.

Larguei cerca de cinquenta metros de corrente.

Naquele momento achei que estava fazendo o correto.

Hoje reconheço que foi um erro de julgamento.

Enquanto o barco permanecia fundeado enfrentando o temporal, continuei na praça de máquinas limpando filtros, drenando combustível contaminado e sangrando novamente todo o sistema.

Praça de maquinas, cheiro forte de combustível e o barco ricocheteando nas ondas nao é para qualquer um.

Depois de algum tempo a tempestade começou a perder força.

Os motores responderam melhor.

Pensei que o pior havia passado.

Até tentar suspender a âncora.

O ferro havia agarrado com força no fundo.

Sem potência suficiente do Guincho  para arrancá-lo, e sem alguem para ajudar no comando dos motores,   improvisei.

Amarrei uma defensa na extremidade da corrente, marquei sua posição e segui lentamente até Paranaguá.


No dia seguinte, já com o mar completamente calmo, retornei acompanhado por um barqueiro local para recuperar a âncora.

Depois disso realizamos a limpeza completa do tanque, das linhas de combustível, da praça de máquinas e de todo o sistema de alimentação.

Daquele ponto até Balneário Camboriú, a viagem transcorreu sem qualquer nova ocorrência.


O maior aprendizado daquela viagem

Quando conto essa história, muitas pessoas imaginam que o objetivo seja mostrar coragem.

Não é.

Na verdade, faço questão de relatá-la justamente para mostrar que experiência não elimina a possibilidade de erro.

Ela apenas aumenta nossa responsabilidade de reconhecer quando erramos.

Naquela travessia, meus três erros foram claros:

Navegar sozinho;

Subestimar os efeitos da troca de combustível em um sistema antigo;

Fundear quando ainda existia outra alternativa de manobra.

Nenhum comandante está imune a decisões equivocadas.

O importante é manter a calma, preservar a minha segurança e da embarcação, proteger o meio ambiente e, acima de tudo, transformar cada dificuldade em um aprendizado.

Depois de milhares de milhas navegadas, continuo acreditando em uma frase que resume perfeitamente aquela travessia:

"O mar nunca deixa de ensinar humildade."

Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico
Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217 Itens • Broker • Survey • Skipper

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