EXISTIU UM TEMPO EM QUE VIAJAR DE BARCO ERA O MELHOR NEGÓCIO PARA UM MARINHEIRO
Quem começou a navegar profissionalmente nos anos 80 e 90 certamente vai entender o que estou dizendo.
Naquela época, quando o patrão anunciava:
— Vamos levar o barco para Angra dos Reis.
Quase sempre havia disputa entre os marinheiros para conseguir a escala.
Muita gente pode imaginar que era apenas pela oportunidade de conhecer um dos lugares mais bonitos do litoral brasileiro.
Claro que isso fazia parte.
Mas existia um motivo ainda melhor.
Além do salário, a tripulação recebia uma diária para cobrir todas as despesas durante a viagem.
Fazendo uma correção aproximada pela inflação, aqueles R$ 50 por dia equivaleriam hoje a algo entre R$ 250 e R$ 350.
Era dinheiro suficiente para pagar o almoço, a janta, aquele café na marina e todas as pequenas despesas que surgiam durante a travessia.
O melhor de tudo era saber que o salário chegaria praticamente inteiro para a família.
Enquanto eu estava no mar, minha esposa administrava a casa com o salário, e eu utilizava apenas as diárias para viver durante a viagem.
Para quem estava construindo uma família, isso fazia uma enorme diferença.
Viajar deixava de ser apenas uma obrigação profissional.
Também era uma oportunidade de melhorar a vida dentro de casa.
Foi justamente em uma dessas viagens que aconteceu uma das histórias mais engraçadas da minha carreira.
Meu aniversário é em 29 de fevereiro.
Quem nasce nessa data sabe que ela só aparece de quatro em quatro anos.
Por isso, quando finalmente chegava, sempre havia um motivo para comemorar.
Estávamos retornando de Angra dos Reis para Florianópolis.
Durante a viagem fizemos uma parada no Guarujá, litoral paulista.
Meu irmão olhou para mim e disse:
— Hoje quem paga sou eu. Vamos comemorar teu aniversário.
Entramos em uma choperia.
Entre uma conversa e outra sobre barcos, motores, viagens e histórias do mar, as horas passaram sem que percebêssemos.
Quando a conta chegou, veio a surpresa.
52 chopes.
Na hora de pedir a nota fiscal para a prestação de contas da viagem, o atendente explicou que ela precisava ser emitida exatamente conforme o consumo realizado.
Não havia outra alternativa.
A nota saiu registrando, em letras bem claras:
52 CHOPES.
Alguns dias depois, meu irmão foi prestar contas da viagem.
O patrão conferia cada despesa com atenção.
Quando chegou naquela nota, levantou os olhos e perguntou:
— Clésio... cinquenta e dois chopes?
Sem perder a calma, meu irmão respondeu:
— Era o aniversário do Ney. E durante toda a temporada em Angra ele foi nosso guia. Se o senhor tivesse contratado um guia para nos acompanhar, teria gastado muito mais do que isso.
O patrão ficou alguns segundos olhando para a nota.
Depois sorriu e respondeu:
— Então está certo. Pode lançar.
Todos caíram na risada.
Até hoje, quando lembro dessa história, não penso nos 52 chopes.
Penso na confiança que existia entre patrões e tripulações.
Era uma época em que o compromisso era demonstrado no trabalho, na palavra e na responsabilidade.
Os barcos mudaram.
A tecnologia evoluiu.
A profissão também.
Mas algumas lembranças continuam tão vivas quanto naquele dia.
E essa é uma delas.
"O mar nunca deixa de ensinar. Esta foi apenas uma das muitas histórias reais que ainda tenho para compartilhar."
Até o próximo artigo.
Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217 • Vistoria In Loco
WhatsApp: (48) 9 8461-1646
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