ESPECIAL | A HISTÓRIA DO MARINHEIRO PARTICULAR NO BRASIL
Uma viagem no tempo para lembrar como tudo começou.
Há poucos dias recebi um material muito interessante enviado pelo Fabrício.
Entre documentos, reportagens antigas, fotografias e um ofício encaminhado à Marinha do Brasil, comecei a folhear uma parte da história que muitos marinheiros particulares nunca conheceram.
Enquanto lia aquele material, fui voltando no tempo.
Lembrei de uma época em que quase ninguém falava em marinheiro particular.
Não existia WhatsApp.
Não existia Facebook.
Instagram então...
Nem pensar.
Quem queria conversar com outro marinheiro precisava pegar o telefone ou encontrar alguém na marina.
Naquela época, o Brasil tinha milhares de embarcações.
Mas os marinheiros trabalhavam praticamente sozinhos.
Cada um no seu canto.
Foi nesse cenário que começaram a aparecer as primeiras iniciativas para aproximar esses profissionais.
No meu caso, lá em 1999, surgiu a AMPARB — Associação dos Marinheiros Particulares do Brasil.
Era uma iniciativa simples.
A internet ainda engatinhava.
Então eu imprimia cartazes com telefone de contato e saía colando nas marinas por onde passava.
Era tudo muito artesanal.
Quem ligava...
Virava amigo.
Conhecia outro marinheiro.
Indicava outro profissional.
Assim a informação começava a circular.
A associação acabou encerrando suas atividades alguns anos depois.
Mas ficou uma lembrança importante.
Naquela época já existia gente tentando aproximar os marinheiros particulares espalhados pelo Brasil.
Enquanto isso, outras iniciativas também começaram a surgir.
Algumas nasceram em São Paulo.
Outras no Rio de Janeiro.
Santa Catarina também passou a organizar seus profissionais.
Depois vieram associações no Paraná.
Na Bahia.
No Norte.
No Nordeste.
Na RiodeJaneiro.
Cada uma dentro da sua realidade.
Cada uma procurando fortalecer a profissão da sua maneira.
Algumas permaneceram ativas.
Outras encerraram suas atividades.
Isso faz parte da história de qualquer movimento.
O importante é que a conversa nunca morreu.
Com o passar dos anos, esse movimento começou a ganhar força.
Vieram reuniões.
Debates.
Publicações.
Projetos de lei.
Encontros entre representantes da categoria e a Marinha do Brasil.
A discussão deixou de acontecer apenas nas marinas e começou a chegar aos órgãos públicos.
Foram anos de avanços.
Também houve momentos de silêncio.
Projetos que pareciam esquecidos.
Mudanças de governo.
Mudanças de legislatura.
Parecia que nada acontecia.
Mas quem acompanha a náutica há bastante tempo sabe que o assunto nunca deixou de existir.
Enquanto isso, novas entidades foram surgindo.
Hoje existem sindicato e associações organizadas, principalmente no Guarujá, em São Paulo, em Santa Catarina e em outras regiões do país, além de grupos organizados no Norte e no Nordeste, todos contribuindo para fortalecer a profissão, promover cursos, trocar informações e representar os marinheiros particulares em diferentes frentes.
Cada uma escreveu um pequeno capítulo dessa história.
E talvez seja justamente por isso que seja impossível apontar um único começo.
Porque essa história teve vários começos.
Teve gente organizando reuniões.
Teve gente criando associações.
Teve gente formando sindicatos.
Teve gente divulgando cursos.
Teve gente defendendo projetos.
E teve milhares de marinheiros particulares que simplesmente continuaram trabalhando todos os dias, mantendo viva uma profissão que ainda buscava reconhecimento.
Depois de muitos anos, finalmente veio uma grande notícia.
Em dezembro de 2025 foi sancionada a Lei nº 15.283, reconhecendo oficialmente a profissão de Marinheiro Profissional de Esporte e Recreio.
Foi um momento histórico.
Mas, curiosamente, essa conquista não encerrou a conversa.
Na verdade...
Ela abriu uma nova etapa.
Agora o assunto passou a ser outro.
Como essa profissão será regulamentada?
Como a Marinha do Brasil vai se comportar?
Quais critérios serão adotados?
Como ficará o reconhecimento desses profissionais na prática?
Foi exatamente por isso que o material enviado pelo Fabrício chamou minha atenção.
O ofício elaborado por ele não fala sobre a criação da profissão.
A profissão já existe.
O documento apresenta uma proposta para a próxima etapa: a regulamentação.
Concordando ou não com a proposta, ela cumpre um papel importante.
Ela provoca uma discussão técnica.
Faz as pessoas estudarem.
Lerem a legislação.
Conversarem.
E pensarem no futuro da profissão.
Foi justamente esse material que me fez olhar para trás e lembrar de tudo o que aconteceu até chegarmos aqui.
Por isso resolvi escrever esta retrospectiva.
Não para dizer quem fez mais.
Não para escolher vencedores.
Nem para distribuir medalhas.
Mas para lembrar que nenhuma profissão nasce pronta.
Ela é construída ao longo do tempo.
E essa história ainda está sendo escrita.
No próximo artigo, vamos falar justamente sobre a nova fase dessa caminhada: a regulamentação da profissão e as propostas que começam a surgir para definir como tudo isso funcionará na prática.
"O mar nunca deixa de ensinar. Esta foi apenas uma das muitas histórias reais que ainda tenho para compartilhar"
Até o próximo artigo.
Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
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