A TRAVESSIA MAIS DIFÍCIL DA MINHA VIDA: FLORIANÓPOLIS X ANGRA DOS REIS EM UMA PANTHER 33
Existem travessias que a gente nunca esquece.
Essa aconteceu no final de 1989, quando eu tinha apenas 17 anos. Embarquei ao lado do meu tio Zeca, um marinheiro muito experiente, para levar uma Intermarine Panther 33 de Florianópolis até Angra dos Reis.
A Panther 33 era um dos modelos esportivos mais desejados do Brasil naquela época. Para quem gosta de barcos, basta lembrar de um detalhe: foi esse mesmo modelo que o Ayrton Senna escolheu para ter como sua embarcação de lazer. Era uma lancha rápida, bonita e muito respeitada no mercado.
O proprietário queria o barco em Angra antes do Natal. As transportadoras já estavam em férias coletivas e só voltariam em janeiro.
A solução foi fazer a entrega navegando.
Saímos do Iate Clube de Florianópolis na madrugada do dia 22 de dezembro. O plano do meu tio era seguir praticamente direto para Santos, navegando por fora, sem ficar costeando.
Lembro que questionei aquela decisão.
— Tem certeza?
Ele respondeu sem nem olhar para mim.
— Estou no comando. Vai dar certo.
No começo parecia que ele tinha razão.
Lua cheia, mar calmo e vento fraco. Minha tia havia preparado galinha frita com farofa para a viagem. Fomos comendo durante a navegação, enquanto a Panther seguia firme pelo Canal Norte.
Parecia que seria apenas mais uma entrega.
Mas o mar muda muito rápido.
Olhei para a proa e vi uma nuvem muito escura. Pouco tempo depois ela derivou para leste e pensei que tínhamos escapado.
Só que alguns minutos depois olhei para trás.
Ela estava vindo pela nossa popa.
E vinha muito mais rápido do que imaginávamos.
Em poucos minutos o mar virou completamente.
Ondas de três a quatro metros começaram a levantar a popa da Panther e jogá-la para frente com uma violência impressionante.
Meu tio brigava com o leme para manter o barco alinhado e desviar das ondas maiores, aquelas que os marinheiros costumam chamar de "jacarés".
Foi quando ouvi um grito.
— Ney! Coloca o colete e pega um pra mim!
Vestimos os coletes quase sem conseguir ficar em pé.
Cada pancada fazia o casco inteiro estremecer.
Como se aquilo não bastasse, ainda chegou a hora de abastecer o tanque com o diesel que levávamos em galões de reserva.
Meu tio precisou me entregar o comando do barco.
Foi uma das maiores responsabilidades que já senti na vida.
Uma onda embarcou pela popa, arrancou o para-brisa e jogou água por cima de mim.
Por alguns segundos achei que o barco fosse virar.
Meu tio retomou o leme imediatamente.
— Vai abastecendo!
Naquela época não existia bomba elétrica portátil.
Era na mangueira.
Tive que puxar o diesel na boca para iniciar o sifão.
Engoli combustível.
Logo em seguida vomitei tudo.
O diesel.
A galinha com farofa.
E praticamente toda a coragem que eu achava que tinha.
O cheiro de diesel misturado com maresia ficou gravado na minha memória.
As horas pareciam não passar.
Em vários momentos achei que não chegaríamos vivos.
Quando finalmente avistei terra, gritei aliviado.
— Terra!
Meu tio apenas respondeu:
— Calma... ainda é a Ilha das Queimadas.
Santos ainda estava longe.
Somente perto da meia-noite conseguimos entrar na barra de Santos.
Nunca esqueci a primeira cerveja que tomei depois daquela travessia.
Estava quente.
E foi uma das melhores cervejas da minha vida.
Quando atracamos, até os vigias e seguranças do Iate Clube de Santos ficaram sem acreditar que tínhamos vindo de Florianópolis naquele barquinho com aquele mar.
Quem conhece uma Panther 33 sabe que era uma embarcação robusta para a época. Mesmo assim, a força daquele mar arrancou o para-brisa, quebrou móveis, soltou partes da estrutura interna e deixou o casco bastante castigado. Aquela tempestade mostrou que, por melhor que seja um barco, a natureza sempre fala mais alto.
Descansamos poucas horas.
No dia seguinte seguimos viagem para Angra dos Reis.
Ainda enfrentamos mar mexido, mas somente na Ponta Negra e na Ponta da Juatinga, porém nada comparado ao que havíamos enfrentado antes de Santos.
Quando finalmente entramos na Baía de Angra, parecia outro mundo.
Mar calmo.
Água lisa.
O proprietário e toda a família já nos esperavam na Marina do Frade para passar o Natal.
O mais curioso é que ele usou o barco durante toda a temporada, mesmo com todos os danos da travessia.
Somente no fim de fevereiro a Panther 33 voltou em um caminhão para a Intermarine, onde passou pelos reparos estruturais.
Hoje, olhando para trás, percebo que aquela viagem me ensinou muito mais do que qualquer curso de navegação.
O mar não faz acordos.
Não aceita experiência como garantia.
Não respeita pressa.
Ele apenas exige preparo, humildade e respeito.
E tem uma lição que carrego comigo até hoje.
Galinha frita com farofa em travessia? Nunca mais.
Pode até ser superstição.
Mas, depois daquela viagem, eu resolvi não desafiar a sorte.
Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217 • Vistoria In Loco
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