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PEDRINHO TREME-TREME E A MARES 45 QUE PULOU UMA REDE NO CANAL NORTE


Tem história de pescador.

Tem causo de marinheiro.

E tem aquelas histórias que, de tão improváveis, acabam ficando melhores com o passar dos anos.

Essa é uma delas.

E o personagem é o Pedrinho Treme-Treme.

Pedrinho infelizmente já faleceu. Conto esta história com carinho e bom humor, como lembrança de um daqueles personagens que fizeram parte de uma época das marinas de Florianópolis.

Quem conviveu em marina sabe como funciona.

Sempre existe alguém que conta uma história aumentando um pouquinho daqui, acrescentando outro detalhe dali e, quando você percebe, já está diante de uma verdadeira produção cinematográfica.

Pedrinho tinha esse talento.

E uma das histórias mais inesquecíveis que ele me contou envolvia uma Mares 45, o Canal Norte de Florianópolis, uma rede de pesca e um par de flaps que, aparentemente, possuíam funções desconhecidas pela engenharia naval.

A HISTÓRIA COMEÇOU DIAS DEPOIS

Eu não estava a bordo.

É importante deixar isso claro.

Pedrinho fez a navegação e, alguns dias depois, nós estávamos conversando na marina quando ele começou a contar o que teria acontecido.

Ele estava trabalhando em uma Mares 45, com propulsão convencional por eixo e hélice, o famoso sistema que muita gente no meio náutico chama de pé de galinha.

Segundo ele, estava voltando de Jurerê em direção a Florianópolis pelo Canal Norte.

Era noite.

Tudo escuro.

E a embarcação vinha navegando em velocidade de cruzeiro, aproximadamente 23 nós.

Até aí, nenhuma novidade.

Então Pedrinho começou:

— Ney, eu vinha navegando quando olhei lá na frente e vi um monte de bolinha branca.

Perguntei:

— Bolinha branca?

— É. As boias de uma rede.

Eu já achei interessante.

Porque estamos falando de navegação noturna, barco andando rápido e pequenas boias no meio da água.

Mas a história estava apenas começando.

“EU CONHEÇO ESSA REDE”

Pedrinho continuou:

— Aí eu olhei melhor e pensei: “Pô, conheço essa rede.”

Eu interrompi.

— Como assim, Pedrinho? Tu conhece a rede?

Ele respondeu:

— Conheço. É de um amigo meu.

Aí começou a ficar bom.

Uma coisa é enxergar uma rede.

Outra é identificar, durante a noite, navegando no Canal Norte, quem seria o proprietário daquela rede.

Perguntei:

— Mas como é que tu sabia que aquela rede era do teu amigo?

Ele respondeu com absoluta tranquilidade:

— Porque eu conhecia a rede dele.

Pronto.

Não havia muito o que argumentar.

Na versão do Pedrinho, além de radar, GPS e visão noturna, ele também possuía um sistema próprio de reconhecimento de rede por proprietário.

O PROBLEMA ERA NÃO CORTAR A REDE DO AMIGO

Segundo ele, nesse momento apareceu a preocupação:

— Eu pensei: “Não vou cortar a rede do meu amigo.”

E isso, naturalmente, fazia sentido.

Passar sobre uma rede de pesca com eixo e hélice pode causar um grande problema.

Rede ou cabo podem enrolar no hélice, eixo ou sistema propulsor e provocar danos ou até deixar a embarcação sem propulsão.

O procedimento normal seria reduzir velocidade, parar se necessário, localizar a rede corretamente e desviar.

Mas Pedrinho tinha outra solução.

O FAMOSO FLAP DE DECOLAGEM

Segundo a história, a Mares 45 vinha a aproximadamente 23 nós quando ele percebeu que estava chegando perto demais da rede.

Então Pedrinho acionou os flaps.

Ele dizia que apertou os comandos, observou uma espécie de pequena marola levantar pela proa e…

a Mares 45 passou por cima da rede.

Na versão dele, o barco simplesmente pulou a rede.

Sem enrolar nada.

Sem cortar nada.

Sem pegar nas hélices.

Sem pegar nos eixos.

E Pedrinho terminou a história satisfeito:

— Graças a Deus, Ney. Não cortei a rede do meu amigo.

Eu fiquei olhando para ele.

“PEDRINHO, BARCO NÃO PULA REDE”

Perguntei:

— Pedrinho, espera aí. Tu quer me dizer que apertou o flap e a Mares 45 pulou a rede?

— Pulou.

— Por cima?

— Por cima.

— E não pegou em nada?

— Nada.

Aí eu falei:

— Pedrinho, flap não é asa de avião.

Ele mantinha a versão.

E quanto mais eu perguntava, mais convicto ele ficava.

Voltei então para o começo:

— E tu viu aquelas boias no escuro?

— Vi.

— E ainda reconheceu que a rede era do teu amigo?

— Reconheci.

— E depois passou por cima usando os flaps?

— Foi.

Não tinha discussão.

UM PEQUENO AVISO DE HIDRODINÂMICA

Antes que algum leitor resolva experimentar:

não existe flap para fazer uma lancha de 45 pés saltar uma rede de pesca.

Os flaps são superfícies instaladas geralmente na popa da embarcação e utilizadas para modificar sua atitude de navegação.

Eles podem ajudar a controlar o trim, baixar ou levantar relativamente a proa conforme a configuração e velocidade, corrigir banda e melhorar o comportamento do casco em determinadas condições.

Mas não existe:

MODO PULAR REDE.

Se existisse, provavelmente seria vendido como opcional:

Pacote Pesca Plus — Flaps com função anti-rede.

Talvez Pedrinho estivesse apenas décadas à frente do mercado.

ERA UM CAUSO DE MARINA

E é justamente aqui que está a graça da história.

Este não é o relato técnico de uma ocorrência náutica.

É um causo de marina.

Daqueles que você escuta sentado no cais, no galpão ou perto de uma oficina e pensa:

“Não é possível.”

Mas deixa o sujeito terminar porque a história está boa demais.

Pedrinho era um desses personagens.

Tinha um jeito muito particular, era magro, sempre com aquele ar de personagem de televisão e quase sempre acompanhado de um cigarro.

Era uma figura marcante.

E gostava de contar histórias.

Algumas provavelmente começavam em algum fato real.

O problema era descobrir onde terminava o acontecimento e onde começava o causo.

TODA MARINA TEM SEUS PERSONAGENS

Quem passou a vida perto de barcos sabe disso.

Marina não é feita apenas de embarcações, motores, píeres e oficinas.

É feita de gente.

Marinheiros.

Comandantes.

Mecânicos.

Pescadores.

Proprietários.

Funcionários.

Brokers.

E cada geração acaba produzindo seus personagens inesquecíveis.

Tem aquele que enfrentou uma tempestade que ninguém mais viu.

Tem o pescador cujo peixe aumenta um pouco a cada vez que a história é contada.

Tem aquele barco que sempre dava cinco nós a mais quando ninguém estava presente para confirmar.

E tinha o Pedrinho Treme-Treme.

O homem que enxergou uma rede no escuro.

Reconheceu de quem era.

E ainda garantiu que uma Mares 45 passou por cima dela depois que ele acionou os flaps.

A REDE DO AMIGO

Nunca soube o que realmente aconteceu naquela navegação.

Talvez tivesse realmente uma rede.

Talvez Pedrinho tenha desviado dela.

Talvez tenha passado perto.

Talvez alguma parte da história tenha acontecido exatamente como ele contou.

Mas a versão que ficou para nós foi outra.

A Mares 45 voadora.

E ainda hoje consigo imaginar a conversa:

— Ney, eu conheci a rede.

— No escuro, Pedrinho?

— No escuro.

— Era do teu amigo?

— Era.

— E tu passou por cima?

— Passei.

— Apertando os flaps?

— Foi.

E pronto.

Você podia discutir hidrodinâmica até o dia seguinte.

Pedrinho já tinha encerrado o assunto.

A rede era do amigo.

A Mares 45 passou por cima.

E ninguém iria convencer o Pedrinho Treme-Treme do contrário.

Hoje, lembrando disso tantos anos depois, não penso apenas na história impossível.

Penso numa época.

Nas conversas de marina.

Nos personagens que passaram pelos cais.

E nas histórias que ficaram.

Porque, no fim das contas, talvez seja essa a melhor parte dos causos de marinheiro.

Não precisam ser totalmente verdadeiros para serem completamente inesquecíveis.

O mar nunca deixa de ensinar. Algumas vezes ensina navegação. Outras vezes deixa histórias que atravessam gerações e continuam fazendo a gente rir muitos anos depois.

Até o próximo artigo!

Ney Broker
38 anos de experiência no mercado náutico brasileiro
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217 • Vistoria In Loco

WhatsApp: (48) 9 8461-1646 

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