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A REVOLTA DO REPOLHO: O DIA EM QUE FLORIPA VIROU PIADA NO CANAL 16 DE ANGRA

CINCO BARCOS, OITO MARINHEIROS E UM ALMOÇO QUE VIROU LENDA

Tem história de marinheiro que começa com temporal.

Tem história que começa com pane.

Tem história que começa com barco encalhado, motor parado ou uma entrada de barra daquelas.

Essa começou com fome.

E terminou com repolho.

Muito repolho.

Foi durante um Carnaval em Angra dos Reis, muitos anos atrás.

Nós saímos de Florianópolis em cinco embarcações, seguimos até o Rio de Janeiro para embarcar os proprietários, familiares e convidados, e de lá partimos todos juntos para Angra.

A programação era passar cerca de vinte dias navegando pela região.

Naquela época a gente rodava tudo.

Ilha para cá, praia para lá, restaurante, fundeio, mergulho, passeio.

Era uma verdadeira flotilha de Florianópolis em Angra dos Reis.

Eu comandava uma Spirit Ferretti 50.

No grupo havia também duas Intermarine 440 Full, uma 380 Full e outras embarcações na faixa dos 40 pés.

Ao todo éramos cinco comandantes e três ajudantes.

Oito profissionais cuidando daquela turma.

Só no meu barco havia cerca de 18 pessoas.

Em outro, umas 16.

Em outro, 14.

Nos demais, mais oito, dez, doze pessoas.

Era bastante gente.

E quando cinco barcos de Florianópolis chegavam juntos naquele tempo, chamava atenção.

RUMO À ILHA DO ARROZ

Em um daqueles dias estávamos na região da Praia do Dentista quando ouvimos falar da Ilha do Arroz.

Consegui contato pelo VHF com o pessoal de lá.

Expliquei que estávamos chegando com cinco embarcações e uma turma grande para almoçar.

O proprietário do restaurante ficou animado.

Perguntou aproximadamente que horas chegaríamos.

Respondi:

— Meio-dia. Nosso pessoal almoça cedo.

Perguntei o cardápio.

Entre as opções havia moqueca, que demorava um pouco mais para ficar pronta.

Então já deixamos algumas coisas encaminhadas pelo rádio para os convidados.

Saímos da Praia do Dentista e seguimos em direção à Ilha do Arroz.

A FERRETTI VIROU O CAIS

Chegando lá, fundeei a Ferretti 50.

Como era a maior embarcação do grupo, ela acabou virando o centro da operação.

Uma lancha amarrou de um lado.

Outra do outro.

Depois veio mais uma.

E mais outra.

No final, ficaram todos amadrinhados em torno da Ferretti, sustentados praticamente pela minha âncora.

Começamos então a transportar os proprietários, familiares e convidados de bote até o restaurante.

Os marinheiros ficaram por último.

Quando chegamos em terra, os proprietários fizeram aquilo que era absolutamente normal entre nós:

— Sentem aqui com a gente.

Era comum.

Nós convivíamos muito próximos daquelas famílias.

Em viagens longas, marinheiro não ficava isolado num canto como se não existisse.

Muitas vezes sentava na mesma mesa.

Comia junto.

Conversava junto.

Fazia parte da rotina da família.

Mas naquele dia nós mesmos recusamos.

Falamos:

— Fiquem tranquilos. Aproveitem o almoço. A gente volta para os barcos, dá uma organizada e come lá.

E voltamos.

DEZ DIAS DE SANDUÍCHE

A verdade é que a marinheirada já estava cansada.

Durante aqueles dias de correria, muitas vezes a alimentação era sanduíche frio.

Sanduíche de manhã.

Sanduíche à tarde.

Sanduíche no meio de uma saída.

Chegou uma hora em que ninguém queria mais olhar para pão.

Então perguntei:

— O que vocês querem comer?

Eu mesmo respondi:

— Eu quero arroz, feijão, bife acebolado, batata frita e farofa.

Pronto.

Foi unanimidade.

Nada de prato sofisticado.

Nada de camarão.

Nada de lagosta.

Nada de cozinha gourmet.

Oito marinheiros queriam comida de verdade.

Arroz.

Feijão.

Bife acebolado.

Batata frita.

Farofa.

E Coca-Cola.

O PEDIDO ERA SIMPLES

Voltei de bote até o restaurante.

Cheguei ao balcão e expliquei:

— Nós somos oito marinheiros. Quero comida para oito pessoas. Se puder colocar tudo separado, facilita para a gente.

Pedi uma marmita com arroz.

Outra com feijão.

Outra com os bifes acebolados.

Outra com batata frita.

Farofa.

Tudo separado.

A gente levaria para o barco, colocaria no centro da mesa e cada um montaria seu prato.

Pedido feito.

Combinei:

— Quando ficar pronto, chama a Prima Donna no VHF.

Voltei para bordo.

Continuamos organizando os barcos.

Pouco depois veio a chamada:

— Prima Donna, Prima Donna, Ilha do Arroz.

Respondi.

— A comida de vocês está pronta.

Peguei o bote e fui buscar.

A SURPRESA

As marmitas estavam todas dentro de sacolas.

Peguei tudo e voltei para bordo.

A mesa já estava pronta.

A marinheirada sentada.

Todo mundo com fome.

Chegaram também duas garrafas grandes de Coca-Cola.

Até aí, perfeito.

Então abrimos a primeira marmita.

Arroz.

Muito arroz.

Em cima, repolho.

Muito repolho.

E um peixe cozido.

Nós ficamos olhando.

Abrimos a segunda.

A mesma coisa.

Terceira.

A mesma coisa.

Quarta.

Igual.

Todas.

Arroz.

Repolho.

Peixe cozido.

Parecia que tinham dado um susto no peixe dentro da água quente, jogado em cima do repolho e fechado a tampa.

Eu nunca tinha visto tanto arroz e tanto repolho juntos.

“A GENTE NÃO É GADO, PÔ”

Na hora eu peguei o VHF.

Chamei:

— Ilha do Arroz, Ilha do Arroz, na escuta?

Responderam.

A pessoa pediu para mudar de canal.

Só que eu esqueci.

Continuei falando no canal 16.

E mandei:

— Pô, a gente acabou de pedir comida aí e vocês mandaram um monte de arroz e repolho pra gente. A gente não é gado, pô. A gente veio de Florianópolis até aqui pra comer isso?

Silêncio.

Aí percebi.

Eu ainda estava no 16.

O canal de chamada.

Em Angra dos Reis.

Cheio de barcos.

Cheio de marinheiros.

Pronto.

A desgraça estava feita.

“HOJE A COMIDA DO MARINHEIRO É ESSA”

Peguei as marmitas, botei novamente no bote e fui até o restaurante.

Cheguei ao balcão e expliquei:

— Eu pedi arroz, feijão, bife acebolado, batata frita e farofa. O que é isso aqui?

E veio a resposta:

— É porque hoje a comida do marinheiro é essa.

Aí mudou tudo.

Eu respondi:

— Eu não pedi comida de marinheiro. Eu pedi comida.

Nesse momento nossos patrões perceberam a discussão.

Vieram até o balcão.

— O que aconteceu, Ney?

Expliquei.

Mostrei as marmitas.

Contei o que havíamos pedido.

E aí eles tomaram nossa defesa na hora.

Um deles falou:

— Não. Pode servir o que eles pediram.

Outro completou:

— Se vocês não fizerem a comida deles, nós não vamos pagar a nossa conta.

E ainda disseram algo importante:

— Eles estão trabalhando. Lá em Florianópolis, marinheiro é tratado como família. Inclusive chamamos eles para sentar na mesa com a gente. Eles é que preferiram comer no barco.

Aquilo encerrou a discussão.

O restaurante concordou em refazer o pedido.

Voltei para bordo.

O CANAL 16 PEGOU FOGO

Quando cheguei no barco, a marinheirada estava quase passando mal de tanto rir.

Perguntei:

— Que foi?

Responderam:

— Escuta o rádio.

Liguei o VHF.

E começou.

— Cadê o pessoal de Floripa?

Outro entrava:

— Encosta aqui que tem repolho!

Outro:

— Cuidado aí, não vai peidar dentro do barco!

Outro:

— Tem arroz pros pombos!

E começou uma sequência interminável de piadas.

Tudo que alguém pudesse imaginar sobre arroz, repolho, gases, marinheiro e Florianópolis apareceu naquele rádio.

De tempos em tempos alguém entrava pedindo:

— Pessoal, desocupem o canal 16!

Mas não adiantava.

A brincadeira já tinha tomado conta.

E como ninguém conseguia identificar direito quem estava falando, aparecia marinheiro de tudo quanto era canto dando a sua contribuição.

A gente ligava o VHF e vinha:

— Cadê a turma do repolho?

Desligava.

Ligava de novo.

— Ó o pessoal de Floripa aí!

Chegou num ponto em que praticamente desligamos o rádio.

Eu não conseguia nem chamar o restaurante novamente para saber se a comida estava pronta.

DUAS SACOLAS NO TRAPICHE

Algum tempo depois, olhei para o trapiche da Ilha do Arroz.

A funcionária estava lá em cima abanando para nós.

Na mão, duas sacolas.

Peguei o bote e fui buscar.

Agora sim.

Arroz.

Feijão.

Bife acebolado.

Batata frita.

Farofa.

Tudo separado como havíamos pedido desde o início.

Vieram duas sacolas simplesmente porque a comida para oito homens não cabia em uma só.

Voltei para bordo.

Sentamos todos juntos na Ferretti 50.

Abrimos as marmitas.

Montamos os pratos.

E finalmente almoçamos.

Depois de dez dias comendo sanduíche frio, aquele bife acebolado devia estar parecendo jantar de comandante de transatlântico.

A PIADA DUROU MAIS QUE O ALMOÇO

A comida acabou.

O Carnaval acabou.

Os vinte dias em Angra acabaram.

Mas o repolho ficou.

Durante muito tempo bastava aparecer alguma turma de Florianópolis no rádio para alguém lembrar da história.

— Olha o pessoal do repolho aí.

Nós mesmos ríamos.

Porque marinheiro é assim.

Pode passar raiva na hora.

Depois vira causo.

E quanto mais tempo passa, melhor fica.

NÃO ERA SÓ SOBRE COMIDA

Mas existe um detalhe dessa história que hoje eu valorizo ainda mais.

Os proprietários haviam nos convidado para sentar à mesa com eles.

Nós é que escolhemos ficar a bordo.

Quando descobriram que a tripulação estava sendo tratada de maneira diferente, imediatamente reagiram.

Aquilo dizia muito sobre a relação que existia entre nós.

Marinheiro estava ali para trabalhar.

Para cuidar do barco.

Para cuidar da família.

Para garantir que todo mundo navegasse, chegasse e voltasse com segurança.

Respeito a bordo sempre precisa funcionar nos dois sentidos.

O marinheiro respeita o proprietário.

O proprietário respeita o marinheiro.

Quando isso acontece, deixa de existir aquela divisão absurda entre “quem é dono” e “quem trabalha”.

Existe uma equipe.

E talvez seja por isso que, depois de tantos anos, eu ainda me lembre não apenas da piada.

Eu me lembro deles levantando da mesa para defender a gente.

A REVOLTA DO REPOLHO

Hoje, quando lembro daquela cena, eu rio.

Cinco barcos amadrinhados em Angra.

Oito marinheiros mortos de fome.

Duas garrafas de Coca-Cola.

Uma montanha de arroz.

Outra montanha de repolho.

Peixe cozido.

E um comandante de Florianópolis esquecendo de trocar o canal do VHF.

Foi o suficiente para virar assunto em Angra.

Tem causo de marinheiro que precisa de temporal.

Tem causo que precisa de pane.

Esse precisou apenas de um rádio no canal errado…

e repolho suficiente para alimentar um rebanho.

Ney Broker
38 anos de náutica
Broker • Survey • Skipper • Due Diligence Naval • Laudo Blindado 217 • Vistoria In Loco

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