segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

* UM BATE PAPO ENTRE NEY BROKER E O CAPITÃO ALEXANDRE ISRAEL

MARINHEIRO E CAPITÃO ALEXANDRE ISRAEL

Buscando sempre aprender com marinheiros mais experiêntes em navegação, tive um bate bapo com o Marinheiro (Nacional e Internacional), e Capitão Alexandre Israel.

Ney Broker: - Alexandre, Gostariamos de saber, já que você é um comandante experiênte em navegações nacional e internacional, qual a diferença entre Marinheiros de esporte e recreio do Brasil com marinheiros do exterior?

Alexandre: - Os marinheiros no exterior são mais técnicos, trabalham com certos cuidados que vão desde a limpeza da embarcação com produtos adequados até a questão da segurança no trabalho o que não vejo como uma grande preocupação de alguns colegas no Brasil. Devo salientar que os brasileiros por sua vez são mais versáteis, ou seja, tem uma capacidade maior de improvisar e de resolver certos tipos de problemas.

Ney Broker: - Você acha que os marinheiros do Brasil estão preparados para a navegação possuindo apenas carteiras de amadores como as de Arrais, mestre, capitão e alguns curso básicos como primeiros socorros e combate a incêndio?

Alexandre: Sei que tem varios comandantes responsavéis e bons no que fazem no Brasil, porém as carteiras de amadores em si não resolvem muito.Hoje não se trabalha em barcos no exterior sem o certificado STCW95 que engloba várias matérias como primeiros socorros, combate a incendio, sobrevivencia no mar e responsabilidade civil, esse curso hoje pode ser feito no Brasil mas certos capitães não aceitam, maiores informações sobre esse certificado podem ser encontrados no site www.yachtmaster.com.

As carteiras de amadores não permitem o trabalho embarcado, é necessário as profissionais, no Brasil MOC e Moço de Convés ajudam bastante.

O que conta mesmo é a experiencia em viagens mais longas e longos períodos embarcados, o que acredito ser a pior parte.

Hoje tenho na minha tripulação um marinheiro baiano (o Tudão) que trabalhou comigo na Bahia de 2005 a 2007 quando fizemos uma longa viagem de Salvador a Trinidad e Tobago com 2 lanchas de 80 e 50 pés. Depois disso ele trabalhou em um iate da MCP de 98 pés que navegou de Fortaleza ao Caribe por mais ou menos um ano. Tenho um outro brasileiro , o Marcelo Gentil que também trabalhou comigo de 2004 a 2005 quando foi para um super barco de 47 metros que ele acompanhou do Chile a Nova Zelandia, Polinésia Francesa e outros lugares.

Isso serve para mostrar que nossos marujos podem executar esse tipo de trabalho com excelente qualidade.

Ney Broker: Quanto ganha um marinheiro no exterior para comandar uma embarcação de 50 pés por exemplo?

Alexandre: O que entendo por marinheiro seria o que se chama de deck-hand, na Europa dependendo do tamanho do barco vai de €2.000,00 a €3.500,00 e na América de US$2.000,00 e US$3.500,00, para Capitão depende muito do tamanho do barco e da experiencia , mas a base que as agencias de emprego dão é de US$1.000,00 por pé por ano. (50 pés= US$50.000,00 por ano e assim por diante). Com a crise mundial os salários estão bastante diferenciados.

Ney Broker: Sabemos que os Marinheiros contratados por empresários Brasileiros para trabalhar fora do pais é bem valorizado, porem eles não valorizam os marinheiros que vem com mais experiência do exterior para trabalhar somente no Brasil? Porque isso acontece?

Alexandre:Tenho visto isso acontecer, acho que como no Brasil os barcos navegam pouco, em lugares que todos já conhecem e não há necessidade de pessoas que falem outros idiomas, os proprietários preferem economizar um pouco.

Ney Broker: - O que os Marinheiros do Brasil precisam fazer para serem reconhecidos como Marinheiros de alto nível?

Alexandre: Eu acho que a preparação profissional (cursos) e a postura são fatores muito importantes. No exterior dificilmente se vê um profissional sem uniforme ou muito menos sem camisa no trabalho.É uma forma do proprietário vê-lo como um profissional e não como um quebra-galho. 

Ney Broker: - há Cada dia que passa é comum ver mulheres trabalhando em barcos de recreio. Será que os Marinheiros mais velhos vão se acostumar com a idéia? Como você vê isso já que você tem experiências com tripulante feminina?

Alexandre: Nos iates é fundamental a presença de mulheres, todos tem, certos tipos de trabalho exigem qualidades que as mulheres superam os homens.

Trabalhei como imediato de um iate de 130 pés que de sete tripulantes 4 eram mulheres e funcionava perfeitamente.

Ney Broker: - Como é navegar fora do Brasil?

Alexandre: - Exige muito da tripulação e principalmente do Capitão, você navega muito em lugares que não conhece, tudo depende muito de um planejamento perfeito das rotas e da meteorologia (assunto bastante delicado), lugares como França e Itália não se fala muito inglês, é importante conhecimentos dos idiomas locais pelo menos que permita comunicar-se com as marinas , imigração, alfandega e outros.Os Cruising Guides são fundamentais para uma navegação segura.

Este ano terminei minha segunda temporada no Mediterrâneo e sempre me deparo com lugares novos e situações que não havia visto antes. É muito importante que a navegação, mesmo em lugares já conhecidos, seja feita com o mesmo cuidado que se tem ao navegar em um lugar novo.

Lugares como Saint Tropez, Antibes e Monaco tem um tráfego intenso de iates que exige muita atenção, principalmente a noite, quando muitos iates trafegam para que os proprietários aproveitem melhor seu tempo. 

Ney Broker:  - Qual foi a pior situação que você enfrentou no mar?

Alexandre: A pior eu não posso te afirmar qual foi, mas posso dizer que os lugares aonde passei aperto foram na costa do Uruguai e Rio Grande do Sul, Golfo de Lion na França e uma noite terrível no Golfo de Saint Tropez com vento Mistral que variou de 35 a 65 nós por umas 30 horas. Isso a gente tenta esquecer.

Ney Broker: - E qual foi a melhor navegação que fez?

Alexandre: Foram muitas, a Waterway na Flórida é fantástica, canais maravilhosos e lugares fantásticos como Fort Lauderdale, Bocca Ratton e Palm Beach.

A costa norte do Brasil, Fortaleza, São Luiz, Ilha do Marajó, é fantástica.

As Ilhas Vulânicas da Itália são impressionantes.

Ney Broker: - Você pode nos falar sobre seu currículo e experiências em navegação para que os marinheiros tenham como base para o crescimento profissional deles?

Alexandre: Comecei a velejar em 1970 na classe laser e desde então sempre procurei estar navegando , passei para os veleiros maiores e nunca perdi uma oportunidade de dar uma velejada. Fiz muita viagens em barcos de amigos e muitas regatas. Em 1999 larguei meu trabalho de comerciante e confeccionista para me dedicar aos barcos indo morar em Angra dos Reis. Depois de vários deliveries principalmente de Buenos Aires para o Brasil acabei como capitão de uma lancha Tango 80 que trouxe da Argentina. O proprietário comprou uma 50 pés e depois uma escuna de 18 metros, acabei trabalhando com ele por 5 anos navegando bastante pela costa brasileira. Em 2007 larguei este trabalho deixando as duas lanchas em Trinidad (Caribe venezuelano).

Em 2008 me dediquei junto com a minha esposa aos estudos indo para Saint Maarten no Caribe e Fort Lauderdale na Flórida, consegui a licensa Master of Yachts 200 ton offshore do MCA e ela fez vários cursos de stewardess no American Yacht Institute. Daí para frente trabalhamos em diversos iates e em várias posições, fiz inclusive um trabalho como capitão de um veleiro de 72 pés que era transportado no deck do megayacht Le Grand Bleu de 345 pés, daí passei para primeiro oficial de um Royal Denship de 130 pés que estava em Miami e depois de tranportá-lo de navio para a Europa fizemos uma ótima temporada no verão de 2008 no Mediterrâneo.

Em setembro de 2008 fui convidado pela MCP Yachts para comandar o novo MCP EUROPA 100 no qual naveguei 13000 milhas até setembro deste ano. Navegamos de Santos para o Uruguai, Salvador, Noronha, Cabo Verde, Canárias, Espanha, França, Monaco, Itália e atualmente o barco descansa na Sardenha.


Ney Broker: Você deixaria algum conselho para ops novos e atuais Marinheiros?

Alexandre: " O conselho que dou para meus colegas é que se preparem, estudem , leiam manuais dos eletrônicos, motores, geradores e equipamentos que tenham bordo, o inglês hoje é o mínimo, e como disse antes a postura e as atitudes são fundamentais para que sejamos reconhecidos como profissionais" 



Comentários e perguntas enviar para Alexandre Israel.

E-mail: alexandreisrael@hotmail.com








Um Abraço e boas navegações


Ney Broker
www.neybroker.com.br

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