domingo, 25 de setembro de 2005

* MARES PARA OS VIPS

A maioria das pessoas vê a praia quase sempre sobre a mesa perspectiva: uma faixa de areia com o mar ao fundo. Mas para os donos de embarcações de luxo, a paisagem litorânea é, no mínimo, diferente.

Por Fabiano Moraes repórter do Diário Catarinense
fabiano.moraes@diario.com.br 

Da proa (parte anterior da embarcação) de uma lancha ou de um iate, o mar sempre esta em primeiro plano. Pé na areia? Só se for no caminho que leva até o melhor restaurante da praia. Em um dia de verão em Florianópolis com sol e pouco vento, a quantidade de embarcações de luxo. Principalmente lanchas, singrando o mar ou atracadas na marina da sede oceânica do iate clube Veleiros da Ilha, em Jurere tradicional, chama a atenção.

De dezembro até Fevereiro, o empresário gaúcho do ramo calçadista curte com sua família a lancha de 52 pés (15,8 metros), ano 2005 que possui – a lancha reproduz com fidelidade o conforto de uma casa. E que casa. A lancha pode receber até 14 pessoas, tem uma suíte e dois quartos completos e é totalmente climatizada. Na “sala de estar”, TV de tela plana com 33 polegadas distrai os convidados.

O empresário aproveita sua casa flutuante geralmente aos fins de semana, quando deixa a sua cidade no Rio Grande do Sul, onde mora com a família, estalas-se em sua casa de veraneio na praia de Jurere Internacional, norte da ilha de Santa Catarina.

-As crianças adoram passear de lancha. Nenhuma delas enjoa a bordo - diz o empresário.
-A gente nada, mergulha... é uma opção de lazer diferente – explica sua esposa.

Uma das atividades da família é a ida até a ilha do Campeche. As saídas geralmente ocorrem no sábado as 10h, e a chegada é ainda a tempo de escolher um dos restaurantes do local. Entre um passeio e outro, não é raro o casal abrir um garrafa de champanhe e levar as taças para um brinde na parte superior da lancha. Outro destino muito procurado pelos donos de embarcações de luxo é a praia de Tinguá, em Governador Celso Ramos. 

Outro empresário paulista de 48 anos (que não quis ser fotografado nem ter seu nome publicado, por segundo de “questões de segurança”) mantem, há cinco anos uma lancha 47 pés (14,3 metros) avaliada em quase 2 milhões na sede administrativa do Yate Clube Veleiros da Ilha. 

A embarcação só vai para a água aos finais de semana. O empresário do ramo transportes trabalha na capital paulista de segunda a sexta-feira. No sábado e no domingo ele esta em casa, com a família, em Jurere internacional, ou na sua “segunda casa”, navegando.

-Minha vida em São Paulo é muito corrida.

O mar funciona como uma terapia – revela.

Terapia para poucos. Em um de dois dias, só de combustível (diesel ou gasolina), o empresário gasta 2 mil.

Com o conforto de uma casa reproduzindo as custas altas cifras, embarcações dominam o litoral de Santa Catarina.

DO PASSEIO AS REUNIÕES DE NEGÓCIOS

De acordo com Ildefonso W. Junior, velejador e vice-comodoro de eventos do Iate Clube Veleiros da Ilha, clube com cerca de 600 sócios, o perfil dos proprietários de embarcações é formado por empresários do Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.

-Alem do lazer com a família alguns utilizam para reuniões de negócios – diz Ildefonso, que também é o diretor da sede oceânica do clube.
O valor pago por uma embarcação varia de acordo com o tamanho (medido em Pés), opcionais, ano e modelo. Algumas lanchas podem valer mais de U$$ 1 milhão.

O modelo de lancha mais vendido por Marcelo Menezes, diretor comercial da Scharfer Yachts, fábrica de lanchas localizada em Palhoça, na grande Florianópolis, tem lista de espera. A cada dia e meio uma dessas embarcações é vendida. E o comprador ainda para receber o produto.

-No verão há um acréscimo de 30% nas vendas – diz.

Quem compra uma embarcação de porte agrega custos de manutenção (depende do tamanho), salário do marinheiro (cerca de R$ 2,5 mil mensais), mensalidade do clube náutico (R$130, em media, é um valor cobrado na capital), aluguel da vaga para guardar o barco no clube – no veleiros, cada pé pode custar entre R$ 10 e R$ 18 (para uma lancha de 47 pés o valor pode chegar a R$ 846), seguro e IPVA (alíquota de 5% sobre o valor da embarcação).

Por mês, os gastos podem chegar a R$ 3,5 mil – isso sem que a embarcação vá para a água.

Há também a possibilidade de alugar uma lancha ou iate para curtir com o “deslize”, de cem pés (30,48 metros), com helicóptero – o ex-campão de F1 Nelson Piquet tem um semelhante – ou “Ravi”, 110 pés, que já foi alugado pelo programa Caldeirão do Hulk para o quadro Amor a Bordo, podem ser colocados por U$$ 5 mil por dia.

Os menos abonados podem optar por uma lancha de 47 pés com diária R$ 8 mil. 

LAZER NO MAR TAMBEM REQUER ETIQUETA

-Tire os sapatos, por favor.

A recomendação, feita por Alcedino José da Cruz, conhecido como Dino, 46 anos, poderia soar antipática para o primeiro contato, mas revelou-se uma preciosa dica de etiqueta no dia-a-dia de quem vive em função de embarcações e clubes náuticos.

Paulista nascido em Ilha Bela, Litoral Norte de São Paulo, Dino trabalha como marinheiro de embarcações há 18 anos. Filho de pescador, há sete anos e quatro anos meses presta serviços a um empresário paulista, e é o principal responsável por um dos patrimônios do executivo: uma lancha 44 pés ( 13 metros de comprimento) com dois quartos e dois banheiros, equipada com fogão, microondas e freezer, estimada em US$ 350 mil.

-Quando o patrão não esta a bordo, digo que esta é a minha casa – afirma Dino, que recebe R$ 2,7 mil mensais.

O trabalho de marinheiro particular exige, além de habilitação em navegação, conhecimentos de culinária e de regras de recepção de convidados. Dotes como barman também são bem-vindos. Dino sabe fazer canapés e diz que seu Dry Martini é (imbatível), herança dos tempos que tinha um quiosque na beira da praia. Ele saiu sozinho de Ilhabela no dia de Natal e atracou em Florianópolis depois de 20 horas de viagem. A partida depende do chefe, mas está agendada para o dia 5 de março. A saudade da mulher e dois filhos – casado a 14 anos, é pai de uma menina de 10 e um menino de 14 – ele ameniza com escassos telefonemas. Mesmo quase três meses longe da família, Dino diz que é feliz com o trabalho. E sobre o habito de só andar descalço a bordo?

- Barco é como casa tradicional no Japão. Tem que tirar o calçado para manter a limpeza e mostrar que não é marinheiro de primeira viagem – explica ele, rindo.

O MARINHEIRO DINO TROUXE DE SÃO PAULO PARA FLORIANÓPOLIS A LANCHA DO PATRÃO QUE SÓ A USUFRUI AOS FINAIS DE SEMANA. NA AUSÊNCIA DO CHEFE, VIRA SUA CASA.

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