segunda-feira, 6 de maio de 2013

* DESVENDANDO O ENJOO A BORDO.


Nada pior do que enjoar num barco. É a chamada cinetose, também conhecida como enjoo de movimento. O mecanismo desse enjoo é basicamente causado quando nosso cérebro recebe informações desconexas de três sistemas: a visão, o labirinto e a propriocepção.

Ãhn??? Proprio quê???

Os sistemas

A propriocepção é a capacidade que o cérebro tem de reconhecer a estática, o equilíbrio, o deslocamento do corpo no espaço, enfim, a orientação espacial. É a propriocepção que nos permite, de olhos fechados, reconhecer que estamos com os braços levantados, de cabeça para baixo, inclinados para frente, com as pernas dobradas, etc.

O labirinto, localizado no ouvido, é formado por uma complexa estrutura óssea com um líquido dentro. O conjunto destas estruturas chama-se labirinto, devido à complexidade da sua forma. Os movimentos desse líquido, causados pelos movimentos da cabeça é interpretado pelo cérebro que identifica os movimentos e nos ajuda a manter em equilíbrio. Finalmente a visão. É óbvio que percebemos os movimentos quando estamos de olho aberto. Mas também podemos ser enganados pela sensação de movimento quando estamos parados e algo à nossa volta se move, como quando estamos num carro olhando pela janela e os carros partem, nos dando a ilusão que estamos indo para trás. Isso pode fazer com que o cérebro interprete que somos nós que estamos andando para trás.

Assim, a visão pode dizer ao cérebro que estamos nos movimentando, quando na verdade estamos parados.

Enjoo

O enjoo então ocorre quando nosso cérebro recebe informações desencontradas desses três sistemas. Quando andamos pela rua o cérebro reúne as informações recebidas dos três sistemas, que “dizem” a mesma coisa. Em um barco isto não acontece. Estamos parados em relação ao barco, mas em movimento em relação à terra e mar (que também se movimenta aleatoriamente), alimentando nossa visão de outra maneira confusa e simultânea. Assim, estamos em movimento real , mas o corpo está parado em relação ao barco. Ao mesmo tempo em que o cérebro recebe informações que o corpo está parado e sem fazer esforço, recebe e informações que o corpo está em movimento graças a aceleração, curvas, caturros, adernamentos, vindas do labirinto.

Quando olhamos para frente ou para o lado e vemos a paisagem passar, o cérebro recebe as informações que compreende. Por isso num primeiro momento as pessoas não sentem enjôos. Mas se você abaixa a cabeça, desce para a cabine ou começa a ler, a visão junto com a propriocepção vão dizer ao cérebro que estamos parados, enquanto o labirinto, estimulado pelos movimentos vai dizer que estamos em movimento, facilitando o surgimento de enjôos. Coitadinho do nosso cérebro… Por mais neurônios que tenhamos, haja cérebro para entender tanta informação desencontrada!

O tipo de movimento também influi nos enjôos. Os movimentos de baixa freqüência, ou seja, aquelas ondulações baixas, regulares e repetitivas, por incrível que possa parecer, são aquelas que mais enjoam. Ao contrario de um tempo bem ruim quando a adrenalina, a motivação, as ações e a atenção focada na situação, minimizam os sintomas e ocupam o cérebro. Deitar reduz a intensidade do enjôo.
Assim fica a primeira dica. Ao menor sinal de que “talvez possa ser que pense em ficar” enjoado, deite-se!

E não importa o que digam, todas as pessoas estão sujeitas ao enjoo do movimento. O que varia é sua tolerância a esses estímulos. Mas a tolerância é aumentada quanto mais a pessoa se expõem aos movimentos, ou seja, nosso cérebro parece aprender com o passar do tempo. Por isso os mais experientes sentem menos enjôos, enquanto os marinheiros de primeira viagem sofrem mais.

Os grupos de risco

Hoje os cientistas estabeleceram “grupos de risco”, ou seja, pessoas e características mais propensas para o enjoo de movimento. Para nosso azar, “mulheres” estão nessa lista. Seguem crianças maiores que quatro anos, a gravidez, a labirintite, dores de cabeça e a ansiedade. Richard Lappin, médico do setor de emergências do Hospital Presbiteriano de Nova York e do Centro Médico Weill Cornell pesquisou o assunto e afirma que “um fator importante é a idade. A náusea causada pelo movimento aparece em torno dos seis anos, chega ao pico próximo dos 10 anos e, muitas vezes, diminui até a idade de 20 anos”. Ele também diz que “as mulheres estão duas vezes mais propensas a sofrer de cinetose do que os homens principalmente as que sofrem de enxaqueca”, explica.

Para quem está iniciando no mundo do mar, nada pior do que piadinhas, gracejos, comentários sobre enjoar. Isso traz a ansiedade e a pessoa não consegue pensar em outra coisa. Resultado: meio caminho andado para chamar o Hugo a sotavento. Outra dica é tentar transmitir pela visão a mesma informação de movimento transmitida pelo labirinto, fixando o olhar em pontos próximos ao horizonte. Nesse sentido ainda valem as seguintes dicas:

- Não leia a bordo
- O Comandante sempre sente menos enjôos que os demais tripulantes basicamente por dois motivos: por estar no leme, ele prevê com antecedência os movimentos do barco. Além disso está com o cérebro ocupado o tempo todo com a navegação. Você pode na medida do possível passar o comando da embarcação para a pessoa a bordo com maior propensão de enjoar (desde que devidamente habilitada!) ou dar a ela alguma outra responsabilidade (não ficar olhando o GPS pelo amor de Deus!).
- Evite as parte internas da embarcação
- Não sente de costas para a direção em que o barco se movimenta
- Evite comer muito em movimento
- Evite ficar com o estômago totalmente vazio
- Evite odores fortes
- Evite locais quentes, mal ventilados ou abafados
- Não fume
- Evite bebidas alcoólicas

Medicamentos

Alguns medicamentos ajudam a minimizar os efeitos da cinetose. Procure um médico que possa prescrever alguns deles. Cada indivíduo reage mais ou menos a cada um dos princípios ativos: anti-histamínicos como Dramin, a escopolamina, a prometazina com cafeína ou ainda mais modernamente a meclizina. Esta última foi desenvolvida especificamente para a Cinetose. Lembre-se: como qualquer remédio, há contra-indicações e o uso pode ser perigoso se não houver um acompanhamento médico.

Levar algum desses medicamentos a bordo para emergências ou com o tempo, tomar preventivamente para poder chegar inteiro ao local pode ser a diferença entre navegar com sua amada e/ou amigos ou deixá-los no pontão.

Por Tangata Manu
www.almanautica.com.br

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