quarta-feira, 4 de agosto de 2010

* COMO CONTRATAR UM MARINHEIRO PARTICULAR

Parece muito facil, mas sem um rigoroso critério de avaliação, tudo pode ir por agua abaixo.

Por Alvaro otranto ( Revista Náutica numero 87)

Nos tempos d'antanho, quando os proprietários normalmente comandavam suas próprias fragatas, os tripulantes eram "contratados" de várias formas. Alguns embarcavam por opção própria ou por estímulo das famílias de tradição marítima. Outros, porém, eram cooptados (embora não houvesse essa palavra) por métodos, digamos, "alternativos", do tipo que todos já vimos em filmes de capa-e-espada. Alguém convidava o incauto a beber num botequim (também não havia essa palavra) e ali, o sujeito era sucessivamente embriagado e capturado. 

Quando despertava, o navio já estava ao largo e não havia mais como se safar: o chicote comia solto até uma próxima oportunidade de desembarque. Havia também quem embarcasse como opção de troca por um longo período de cadeia ou até mesmo para escapar da forca. 

E assim era naqueles tempos românticos - ou nem tanto.

Convenhamos, os métodos progrediram bastante e o chicote - e a forca - foram abandonados, pelo menos nesse metier. Já o pileque antes de algumas regatas e pescarias, ainda não. 

De qualquer maneira, a contratação de um marinheiro ou capitão exige alguns critérios de avaliação que muitas vezes os proprietários, não mais de caravelas mas de iates, deixam passar despercebidos. 

Alguns, a nosso ver, fundamentais.

À primeira vista, contratar pode parecer um procedimento simples, mas fique sabendo que alguns proprietários têm recorrido até mesmo a head-hunters para localizar e selecionar os bons profissionais da área. Não é preciso tanto. 

Se você pretende contratar um marinheiro para o seu barco, basta seguir as dicas que se seguem:

Experiência
Sem dúvida é o primeiro ponto a ser medido. Ao analisar as experiências anteriores de seu candidato, leve em conta o tipo de embarcação, o tempo de embarque e também o antigo patrão. Às vezes, três meses de embarque em um veleiro no Caribe significam muito mias do que um ano inteirinho numa escuna esquecida lá no fundão de um estaleiro.

Confiança
Talvez a mais importante entre todas as qualidades necessárias. Afinal, você estará entregando seu capital, fruto do trabalho de anos a fio, nas mãos de alguém que deve mantê-lo em perfeito estado. Mas não é somente isso. O profissional contratado deverá também cuidar com todo o esmero da segurança de sua família, mesmo quando você não estiver presente - ou principalmente na sua ausência. Pense nisso com todo carinho, meu caro.

Horários
A disponibilidade de tempo é fator preponderante. Quem trabalha nessa área sabe que a rígida programação de horários só existe mesmo para encontro de negócios. 
Admita: é só quando dá ou quando se pode escapar da azáfama do escritório. Por isso, o marinheiro deve estar ciente de seus hábitos e, às vezes, até mesmo em escuta permamente, portando um receptor - prática comum hoje em dia. Deixar o rapaz disponível, tudo bem. Porém, saiba liberar ou pelo menos avisar quando mudarem os planos de lazer. É comum ver o marinheiro no clube, de branco e com o barco arrumadinho, enquanto o dono está em Nova York ganhando dinheiro ou num spa perdendo peso.

Prata da casa
Parabéns, o Chiquinho trabalha sob suas ordens desde que você conseguiu comprar aquele primeiro 22 pés! Era um belo veleirinho, com motor de popa 5 hp. Hoje, você se endinheirou, tem uma bela 54 pés com dois motores de trocentos cavalos e sistema computadorizado de monitoração, e quer que o pobre Chiquinho dê conta do recado (de preferência com o mesmo salário). Saia dessa! Tripulantes precisam ser treinados e, assim como qualquer profissional, possuem certas limitações que devem ser respeitadas, caso você pretenda ficar a bordo para se divertir - e não para se aborrecer.

Multifuncional X faz-tudo
Não tenha um pato a bordo, pois ele voa mal, nada mal e anda mal. Sim, ele faz várias coisas, mas nada direito. Se você quer um mecânico, eletricista, técnico em eletrônica, pintor e carpinteiro, desista de ser um iatista e compre um estaleiro. 
Seu capitão deve ter os conhecimentos básicos para tirá-lo de um sufoco inesperado, mas manutenção é coisa séria, que deve ser tratada por profissionais capacitados e, de preferência, autorizados por seu representante, o marinheiro. Ele deve controlar, testar e confirmar todo o trabalho que essas pessoas fazem a bordo. Afinal, é ele que deve conduzir a embarcação - e todos a bordo em segurança, sempre.

Limpeza
A maioria esmagadora dos barcos é branca - e não por acaso. Se barco sujo agrada a você, então compre um jipe e mude de hobby. Já ouvi de um empresário que seu marinheiro não se ligava muito nesse negócio de ficar limpando, mas era ótimo no trato com seus filhos (do empresário). Ora, você diria que seu gerente de marketing é um desastre, mas que, em compensação, sua sogra o acha muito simpático? Não apenas o barco, mas também a apresentação da tripulação deve espelhar o modo em que as coisas andem a bordo e quanto seu proprietário é uma pessoa bem sucedida e organizada - e, sobretudo, limpa.

Formação
Em nosso país, e como em nenhum outro, existem cursos de formação ou aprimoramento de tripulantes para iates. Um nível de escolaridade mínimo seria interessante além da carteira de arrais, mestre ou capitão, dependendo de onde se pretende navegar. Cuidado com as carteiras falsas. Elas são um problema gravíssimo - e real.

Caráter
Honestidade não se pode medir numa simples olhada. O convívio e o trato pessoal vão moldar as relações patrão-empregado para que se mantenha em equilíbrio uma relação de respeito e confiança. Se você não pode confiar-lhe uma garrafa de vodca, admita: menos ainda um barco.

Remuneração
O que você espera a bordo? Um barco limpo, organizado e funcionando, com um tripulante disposto a atendê-lo? Ou uma operação-tartaruga, acompanhada de cara emburrada? Um azedume nublado a bordo pode estragar um domingo de sol lá fora.


E como escolher um patrão?
(dirigido a Marinheiros com "M" maiúsculo)

Quase todas as regras para a escolha de um tripulante têm uma relação com a melhor maneira de achar um bom patrão:

Experiência
Caso ele seja um iniciante no iatismo, veja se não anda acompanhado de um amigo sabichão, daqueles que se metem a entender de tudo. Se for assim, você passará uma boa parte do tempo arrumando as besteiras que esse tal "conhecedor" fizer a bordo. Não deixe que seu patrão perceba que você é mais capaz que o sabichão. Guarde isso para o momento oportuno.

Confiança
Levante as características de seu candidato a patrão junto a outros empresários para saber a solidez de sua condição financeira e de sua verdadeira posição social. 
E não se esqueça de conversar com os antigos tripulantes dele. Quanto mais ex-tripulantes ele tiver, pior. Cuidado com aquelas que contratam bem no comecinho do verão. Geralmente costumam dispensar o pessoal depois do Carnaval.
Tem mais: trate seus acertos logo de início, antes de assumir o trabalho, pois, depois que você já estiver a bordo, dificilmente conseguirá qualquer tipo de modificação ou vantagem do tipo vale-transporte ou carro de serviço.

Última dica
Se você é novo na profissão, aí vai um conselho: esqueça dos sábados, domingos, Carnaval, Natal, Ano Novo, aniversário de filho, esposa, etc. Prepare-se para passar essas grandes datas trabalhando, servindo caipirinha e tomando chuva em manobra. Enfim, meu caro, prepare-se para dar duro como um verdadeiro profissional.


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