domingo, 18 de maio de 2008

* OS CRIMES DO CAPITÃO JORGE NO CARIBE

Como o próprio título diz, este livro é a confissão de um ou mais crimes e por este motivo todos os personagens e locais tiveram seus nomes trocados por razões óbvias. Também por isso não está ilustrado com fotos.

PRÓLOGO

Deitamos uma âncora na popa e nos aproximamos lentamente até beijar a praia com as duas proas do catamaran, baixamos a escada de proa, desembarquei com um cabo de 50 metros amarrando numa árvore de bom tamanho e me preparei para descarregar minha preciosa carga. Após uma boa olhada nos arredores para ver se tudo estava seguro, avisei Fran que já podia abrir as cabines. Apesar de não termos luar a visibilidade era muito boa devido à luz das estrelas, o que nos permitiu uma aterragem segura por entre os recifes de coral. 

Laussante é o primeiro a mostrar sua carapinha saindo da cabine de boreste, olhando bem nos meus olhos ele pergunta:
-É aqui, Capitão?
-Sim, este é o lugar combinado.
Ainda com os olhos fixos nos meus ele diz:
-Capitão Jorge, o senhor é um santo.
Por um instante quase esqueci dos riscos que estava correndo com aquela carga e respondi:
-Talvez seja um santo para vocês, mas para os donos deste país sou um criminoso.

Um por um, me apertando muito forte a mão e com o olhar e palavras de agradecimento, lá se foram 63 almas desembarcando com sua minguada bagagem seguindo em direção às árvores, onde alguns tinham parentes e amigos a sua espera, que foram avisados, por telefone celular, da nossa chegada. Fiquei olhando-os se afastar e pensei: Para estes caras, isto aqui é o paraíso. Pode ser, pois acabo de tirá-los do inferno.

Bem, até aqui tudo ótimo, mas agora é hora de eu também sair daqui, e bem rápido, se quiser continuar sendo um homem livre.

CAPÍTULO I

O COMEÇO DA ENCRENCA

Eu estava muito tranqüilo da vida trabalhando na preparação de meu pequeno veleiro de 27 pés (8,23m) numa pequena vila de pescadores no sul do Brasil, visando à viagem tão esperada rumo ao norte. Quanto ao norte ainda não tinha decidido. Foi quando recebi um e-mail com uma proposta de trabalho irrecusável. Capitanear um catamaran de 65 pés (19,81m) engajado no turismo numa ilha do Caribe. 

Após vários E-mails tratando da negociação resolvi tentar, apesar dos riscos envolvidos, afinal podia se tratar de uma gelada das boas.

Embarquei num avião e me fui rumo ao futuro, que prometia ser muito promissor. Transcrição de E-mail enviado aos amigos: Cheguei ao meu destino às 11 da noite de terça-feira. O patrão (John da Silva, pode?) me pegou na rodoviária e me levou para um tur pela cidade. Coisa de português mesmo. Eu chego cansado pacaraio, depois de trinta horas viajando entre vôos, esperas em aeroportos, mais 4 horas num ônibus e o cara me leva pra um... passeio.

Depois me levou pra um hotelzinho muito mixuruca onde passei a noite. Hoje me transferi para outro hotelzinho mais mixuruca ainda, porem mais barato (130 reais por mês). Vou ficar neste hotel ate encontrar um apartamentinho.

A coisa parece meio esquisita, a secretaria dele me falou que não recebe o salário desde fevereiro e que ele a mantem quase como uma escrava. Ela mora na casa dele e tem que fazer o trabalho doméstico também, sem sexo, segundo ela. Como ele não a paga, ela não tem grana para ir pra outro lugar e a trata muito mal. Sendo brasileira ela não pode nem procurar seus direitos trabalhistas. Ta feia a coisa. Vou ver se acontece o mesmo com outros funcionários. A verdade é que me assustei um pouco. Só vi o barco de longe e é bem bonito.

Amanha vou pra bordo junto com um funcionário que parece ser muito legal e vamos trabalhar juntos. Vou ver se pesco mais informações com eles.

Na manhã seguinte me dirigi, num táxi, ao endereço que John me dera, onde funcionava o escritório da empresa. Era uma casa estilo americano dos anos 80, muito grande e localizada num bairro de bacana, conforme descobri mais tarde.

Lá encontrei sua secretária que descobri ser brasileira e me relatou o acima citado. Chamava-se Dalma e estava na casa dos 40 anos de idade. A coisa do “sem sexo” o John me contaria uma história diferente. Ela me disse que eu deveria ligar para o telefone celular dele, o que fiz, e ele me mandou seguir para uma obra que ele estava construindo.

Chegando lá vi que era uma construção bastante grande para os padrões locais. Um edifício de três andares onde deveria ser um restaurante, uma discoteca, salas comerciais, um apartamento para o
John e mais três apartamentos para aluguel. Conversamos por aproximadamente 2 horas sobre o trabalho e descobri que o barco não estava ainda em condições físicas para o trabalho. Primeira mentira do cara: ele havia me dito (por E-mail) que o barco estava pronto para o trabalho, necessitando apenas alguma manutenção de rotina. 

Após nosso papo fui dar uma volta para conhecer a cidade e procurar um apartamento para morar. Transcrição de E-mail pro Afonso, amigo de fé, irmão de coração:

Tchê Afonso,
Que que é “inhantes”? Boiei.
Mano Véio, é o seguinte: enquanto tava no Sul arreglando o novo motor também tava alinhavando este trampo aqui no Caribe. A Suzana (irmã do Sergio) conheceu este cara e me indicou pra ele. Ele me mandou um imeil e começamos a negociação. Ele tava precisando dum cara pra capitanear um catamaran de 65’ que trabalha no turismo aqui. Mas depois que cheguei aqui a pílula começou a se desdourar. O cara é meio maluco e grosso pacaraio. Vou precisar de um bocado de paciência pra não chutar o balde. Mas se o cara me pagar conforme o combinado dá pra segurar.

Cara, aqui tudo quanto é moto é táxi. Tu botas o pé na rua e já aparece um. Por dois pilas te levam a qualquer lugar. A maluquice é que ninguém usa capacete nem espelho retrovisor. Todas as motos são 125cc de dois tempos. Centenas delas. 

Ontem fui fazer o tur no barco do concorrente pra ver como eles trabalham, a mando do patrão e pago por ele (79 dólares). Foi bem legal e tava cheio de turistas europeus, canadenses e americanos, na sua maioria casais jovens. Alguns casais coroas também.

A tripulação era formada por um jamaicano como capitão e o resto (4) de locais. Levei um papo com eles, mas me fazendo passar por turista. Somente hoje fui conhecer o barco que irei trabalhar. É maior e mais bonito que o do concorrente. Precisa de alguns pequenos reparos na fibra, alguma pintura, consertar os motores e fica bala pra trabalhar.

O povo local é muito simpático e hospitaleiro. As mulheres são lindas. Tudo meio mulata. O problema é que tem mulher de programa pra pacaraio aqui e fica difícil distinguir. Tu vais num barzinho e não sabe quem é profissional e quem não é e fica ruim sair perguntando, né!? 

To morando num hotelzinho muito merreca, mas limpo e bem familiar. To procurando um apartamento pra alugar. O portuga tá construindo um restaurante aqui e ta procurando um cara, que fale inglês, pra tomar conta de todo o marketing do restaurante e do barco. Conheces alguém? De qualquer modo é melhor esperar o que rola comigo aqui. Pra entrar em roubada, só o Jorginho aqui. 

Talvez o leitor estranhe esta transcrição de e-mails, mas acho que transmite mais os sentimentos do momento. Confiando apenas na minha memória talvez não fosse a mesma coisa. Então que até onde mandei e-mails, alguns serão reproduzidos aqui.
Resposta do Afonso:
Jorge, Inhantes, do brasileiro inhantar, que significa apenasmente “ANTES”. O que aconteceu antes, era a pergunta.
Antes de você chegar aí, antes de tudo...
Ao que eu saiba você ia à cata de um motor, e, depois, estava tentando colocar ele dentro do seu veleiro.
A história acabava aí e, de repente, você está no Caribe!
É bom ver como o portuga reage, na hora dos pagamentos, pois se interessar muito, eu me candidato...

Não se esqueça que, mulher de programa ou semi, ou aprendiz, ou ainda não iniciante, em todas e com todas (e todos também, pois tem uns caras que enganam bem à beça!) vale a máxima: é melhor “tocar uma” e ficar vivo, do que transar sem camisinha e morrer!

Encontrar um apartamento foi mais fácil do que imaginei no princípio. Conheci uma hoteleira canadense que tinha uma casa de dois andares e o segundo andar estava vago. No andar térreo morava um inglês, proprietário de uma zona a poucas quadras da casa. Chamava-se Peter e era um cara muito legal.

Mudei-me para este apartamento no dia seguinte, perdendo os pilas do adiantamento do hotel, pois havia pago o mês todo e o dono do hotel não quis devolver. Tudo bem, não era tanta grana assim. 

Mais e-mail pro Afonso:

Tão tá, Mano
Acho que a pergunta do inhantes tá respondida.
Este teu brasileirês é meio complicado, as vezes.
Bom, encontrei um apartamento e já to me mudando hoje à tarde.
Este meu patrão é meio doido mesmo. Ele soube disso pela secretaria e já me mandou a grana do aluguel por ela hoje de manha.
Hoje vimos juntos, num bar, o jogo de Portugal e pela primeira vez conversamos outros assuntos que não fossem trabalho. Amanhã vamos ver juntos o jogo do Brasil no mesmo bar. Acho que não vai ser tão difícil com o eu pensei no começo de lidar com o cara. Ele é mal educado com a peonada, mas comigo tem se portado como gente grande. Espero que continue assim, no mais só o que tenho que fazer, é ter muita catega, fazer meu trabalho direito e não aprontar nenhuma cagada.
Vou tentar saber cumé que tá o assunto do cara do marketing. Ele tinha me falado duma curitibana que viria para isto, mas hoje ele falou que não tá certo ainda a vinda dela. Vamos esperar mais um pouco e ver como fica esta história. Tá parecendo muito promissora a coisa toda aqui. O cara tá investindo uma grana na construção de um restaurante, bar e discoteca aqui. Daí que eu acho que ele não vai parar por aí. Esquecí de dizer que ele tem tres catamarans e que quer levar um deles pro Brasil num futuro próximo, ano que vem, talvez. Te atualizo assim que der.

As coisas pareciam andar bem comigo e o patrão até que a Dalma me perguntou se eu topava ela vir morar comigo e dividirmos o aluguel.
Falei que estava tudo bem, afinal o apartamento era bastante grande e eu queria mesmo economizar uns pilas. Na noite deste mesmo dia, lá pelas 11 horas, John vai ao apartamento e me convida para tomar uns drinques. Achei estranho, mas como era meu aniversário, topei. Fomos para um bar na beira da praia e ele foi direto ao assunto. Ele tava p... da vida com esta história da Dalma morar comigo.
Que ela tinha vindo a este país para ser sua mulher mas que ela não era o que dizia ser em seus contatos iniciais. Falou-me de suas preferências sexuais e ela não se encaixava. Vi logo que tinha assuntos de “xana”no relacionamento deles apesar de ela dizer que não. Falei pro cara: vim de muito longe pra trabalhar e não vou deixar que este tipo de assunto interfira em meus propósitos.
Pra mim este caso está encerrado e amanhã mesmo direi a ela que não será possível sua mudança. Ele ficou visivelmente aliviado e me agradeceu, mas senti um certo constrangimento por parte dele por se expor daquela maneira.

Dia seguinte conheci o Bob, que seria o capitão do outro catamaran, mas iríamos trabalhar juntos na reparação dos três barcos. Estavam todos em más condições devido ao longo tempo sem uso e sem manutenção apropriada. Bob era americano, veterano do Vietnam e aposentado como capitão de embarcações de pesca. Residia na ilha já há dois anos. Grande conhecedor destas águas caribenhas, pois esta era sua área de pesca. Logo ficamos bons amigos e parecia que já nos conhecíamos de longa data.

E-mail do Veco, primo de fé, irmão de coração:
E aí guri... de outrora.
Porra, manda histórias.
Telefonaste pros caras?
Um soco nos peitos (gaúcho despede-se assim)
Veco

Minha resposta:
Brigado pelo guri, mesmo que seja de outrora...
Não tenho tido muitas novidades, por isso não tenho escrito.
Hoje é que abraçamos o trabalho no barco, depois de só trabalhar em consertar os carros do patrão. O barco ta meio caidinho. O antigo capitão negligenciou demais o barco. Um dos motores foi todo refeito, mas não ta instalado, faltam algumas peças, tipo motor de arranque e alternador. O motor que deveria estar funcionando também não está. Acho que o motor de arranque ta enferrujado por dentro. Também mergulhei pra dar uma olhada nos cabos de amarra da poita e descobri que o suporte do eixo da hélice ta torto e falta uma das hélices. Pra esta merda ficar decente temos que puxar, o que não será fácil, pois não tem lugar pra puxar aqui. Também temos que ir a outro porto, que é um abrigo perfeito contra furacões para uma olhada nos outros dois barcos do patrão. Diz ele que estão em piores condições do que o que está aqui. Bamo vê.
Não liguei pros caras porque tu disse pra eu não esquentar que a grana ia sair. Então quando tu me disseres pra ligar pra eles, eu ligo. No mais, um calor infernal aqui e até agora não comi ninguém, mas também não dei pra ninguém e empate fora de casa é vitória.

Um dia, na obra, um dos peões, Laussante, um negrinho bem preto, baixinho e musculoso, chegando bem de mansinho me pergunta se eu sou o novo capitão, respondo que sim e, sem rodeios, ele me pergunta se eu toparia transportar imigrantes ilegais para uma ilha próxima.
Fiquei meio assustado e lhe disse para conversarmos numa outra hora e num outro lugar. Marcamos encontro para depois do trabalho num dos barzinhos da praia.
Lá chegando pedimos cerveja, conversamos algumas amenidades e fomos ao assunto que ali nos levara.
-Então? Como funciona este negócio de imigrantes ilegais?
Perguntei.
-Simples. Muita gente quer sair do meu país e estão dispostos a pagar uma boa grana a quem os leve para outra ilha. (Ele disse qual ilha, mas por razões óbvias não revelarei aqui). Tenho listados mais de 50 até agora, só esperando que eu lhes consiga um capitão disposto a correr este risco.
-E eles não podem fazer isso legalmente?
-Não. Não estão aptos a receber os vistos necessários.
-E quanto estão dispostos a pagar?
-Dois mil dólares por cabeça. Metade adiantada e a outra metade no embarque.
-Quanto é a tua parte?
-Quinhentos de cada um. São mil e quinhentos limpos para você.
-Mas estes caras vivem numa miséria de dar dó. De onde vão tirar esta grana?
-Os parentes e amigos que já estão lá mandam para eles.
-Quais os riscos?
-Se formos pegos pelas autoridades, seremos mandados de volta e você irá para a cadeia por, pelo menos, uns seis meses.

A embarcação ficará retida pelas autoridades locais também. Você precisará de uns 10 mil dólares para os advogados, neste caso. Por isso você fica com a maior parte da grana. Fique tranqüilo, eu fazia isso com um sócio americano, que foi embora pros states depois de ganhar muita grana. Nunca fomos pegos.
-Caraio! Dê-me duas semanas para pensar nisto. Nunca fiz nada ilegal na minha vida, mas dizem que sempre existe uma primeira vez. Pra ser sincero, nem sei se tenho coragem pra fazer isso. Daqui a duas semanas terei uma resposta pra você.
Paguei as cervejas e fui pra casa com esta maluquice martelando meus miolos.
Pensei: se alguma merda der com este portuga, esta pode ser uma alternativa bem interessante. E, ademais, será mesmo crime grave tirar gente que vive num país em meio a guerras, ditadores sanguinários, em miséria total por mais de 40 anos e levá-los para outro país em paz e com maiores chances de ter uma existência digna? Na minha consciência, nenhum crime, nenhum

CAPÍTULO II

NEM TUDO É ENCRENCA

Tudo andava muito bem, apesar das maluquices do portuga que a cada dia se mostrava mais e mais instável no seu humor, num momento estava alegre e bem humorado, quase humano, no momento seguinte estava virado numa besta de novo.
Eu já estava acostumado com estas mudanças repentinas de comportamento, que é típica dos viciados em cocaína, já tinha visto isto antes com um meio-irmão meu que esteve enterrado nesta bosta e acabou morrendo de uma over-dose aos trinta anos de idade.
Estava acostumado, mas continuava não gostando.

Depois de conhecer este portuga nunca mais contei piada
DE português, só piada DO português.
A que mais gosto é esta:
John: Quem foi o idiota que fez isto?
Jorge: Fui eu.
John: E por que tu foi fazer uma merda destas?
Jorge: Porque tu mandou.
Bob: É verdade. Eu estava junto quando mandasses o Jorge fazer isto.
John, sem saber o que dizer:
-P... que o pariu!
-TU NÃO PODES FAZER TUDO QUE EU MANDO, CARAIO!

Bom, e assim eu e Bob íamos levando toda a coisa, na piada, dando muita risada das cagadas do portuga. Daí pra frente sempre esperávamos uns 15 minutos antes de executar suas ordens, afinal ele poderia mudar de idéia a qualquer momento. Ia quase todos os dias na lan-house checar e responder e-mails e foi aí que num destes dias conheci uma garota linda, gostosona mesmo, negra, parecendo uma deusa africana. Me pareceu um tanto jovem para mim que já não cozinho na primeira fervura, mas ainda dou bom caldo.
Joguei um pouco de charme, puxei assunto e a coisa fluiu nos conformes. Fomos para um barzinho da praia e ela me diz que trabalha na recepção de um hotel bacana que fica na praia em que o barco está ancorado. Fiquei aliviado, pois já tava achando que era profissional. Afinal, uma Deusa destas dando mole pro coroa aqui, era de desconfiar.
Chamava-se Dora, tinha 23 anos e era estudante de turismo.
Falava algum inglês e já tinha sido casada com um americano que por estas bandas andara e por aqui teria feito muito dinheiro. Ela não me disse como e eu não perguntei. Tinha morado com o cara nos states, mas as coisas não rolaram direito e ela achou melhor retornar para cá e viver com seus pais que já eram bem idosos. Seus irmãos mais velhos tinham todos migrado para outras plagas. Falei um pouco de mim e ficamos de nos encontrar no dia de sua folga, que seria no próximo domingo. Iríamos a uma praia que fica a uns vinte km daqui.

Primeira coisa a fazer no dia seguinte foi ligar pro tal hotel e perguntar se tinham uma funcionária com aquele nome. Precisava checar antes de entrar em roubada. Para meu alívio confirmaram e até me deram seu horário de trabalho, caso eu quisesse falar com ela.
Agradeci e desliguei pensando: ta bom demais pra ser verdade. Fazia já muito tempo que eu não passava um domingo tão agradável e prazeroso. Dora levou junto sua amiga Lucy e juntos passamos o dia todo conversando, bebendo cerveja, comendo petiscos típicos, nadando naquele mar cor de turquesa caracterísco das praias caribenhas. Ao entardecer fomos para o apartamento que tinha alugado e preparei um jantar a base de macarrão com frango e um molho que é minha especialidade culinária. Depois levei-as para casa, nos despedimos com uns beijinhos inocentes e fiquei de ligar para Dora em breve. Voltei pro apartamento, tomei uma boa chuveirada e dormi feito um bebê, como há muito tempo não dormia.
Acho que sonhei com sereias.

CAPÍTULO III

A WEB MASTER

Então um dia chega a web master que tanto o portuga esperava.
Vinha do Paraná e já tinha trabalhado por estas bandas. Chamava-se Eliane, baixinha, morena, um pouco acima do peso, na casa dos trinta anos e no mesmo dia de sua chegada o cara despediu a secretária Dalma, que foi morar com um amigo. Claro que sem pagar o que lhe devia. Logo na chegada de Eliane percebi que ela não tinha ido muito com a minha cara, mas também podia ser o jeitão dela mesmo e não dei maior importância a isso.
Os dias foram se passando como desde o começo. Mais trabalho na obra do que no barco. Eu virei capataz de peão de obra e o Bob virou motorista de caminhão da obra. Éramos os peões mais caros na folha de pagamento do portuga. Até que num destes dias Eliane, me surpreendendo, sugere almoçarmos juntos. Claro, uma boa oportunidade para nos conhecermos um pouco melhor e tirar alguma diferença que porventura existisse.
Durante o almoço ela me conta das dificuldades que está tendo com o patrão. Nada que eu já não soubesse. Falei para ela que esta era a mesma história de todos que com ele trabalhavam: o cara era muito grosso, agressivo e extremamente mal-educado.
Ela disse que o cara tinha mentido muito em seus contatos anteriores e que nada do que haviam previamente acordado estava sendo cumprido por parte dele.
Exatamente como tinha acontecido comigo. Então disse a ela que só lhe restava duas opções: voltar para casa ou ter muita paciência e esperar para ver no que iria dar esta coisa toda.
Ela resolveu apostar no futuro e esperar, como eu.
Mas não foi preciso ela esperar muito.
Dois dias depois, por volta das 19;00 hs ela me telefona e diz que precisa sair da casa do portuga com urgência e sem que ele saiba.
Perguntei se tinha acontecido alguma coisa e ela respondeu: não, mas quase e poderá se repetir. Me contaria o resto mais tarde.
Disse a ela que esperasse o cara dormir e me ligasse novamente que iria apanhá-la.
As 22;00hs ela ligou, peguei um táxi e fui apanhá-la. Ela já me esperava na esquina com toda sua bagagem.
Caraio! Mulher viaja com um bocado de mala...Levei-a para meu apartamento e aí ela contou que o portuga tinha tentado estuprá-la.
Fiquei doido e queria voltar lá e aplicar um corretivo neste fio da put... Ela me acalmou e explicou que foi por isso que não tinha me dito nada ao telefone.
-Ta bom, não vou fazer nada agora, mas isto não vai ficar assim...
Ficamos de papo até tarde da noite e ela me dá informações que me seriam muito úteis mais adiante.
Como ela estava fuçando no computador do cara, ela tinha descoberto sua senha do banco e, mais importante, o saldo bancário.
E ela me deu o caminho de como chegar na senha do cara em seu computador pessoal, pois não lembrava da senha.
Eu não estava me reconhecendo, por causa das coisas que estavam passando na minha cabeça naquele momento.
Nunca cometi nenhum ato criminoso na vida e agora já tinha três em planejamento. Eu já estava ficando com raiva deste cara.
Cheguei ao trabalho na manhã seguinte como quem não sabe de nada e o portuga foi logo perguntado se eu sabia do paradeiro de Elaine.
Ele disse que ela tinha sumido sem aviso nenhum.
Respondi que nada sabia e que não tinha tido nenhum contato com ela e achava que ela retornara para o Brasil. Neste mesmo tempo Elaine estava contatando sua família que neste mesmo dia lhe comprou uma passagem de volta pra casa.
Embarcou naquela tarde. Mas deixou informações valiosíssimas.
Eu já tinha tudo planejado na minha nova mente de criminoso.

Primeira coisa que fiz foi falar com Laussante e dar-lhe minha resposta prometida duas semanas antes.
Muito de cantinho eu disse a ele:
-To dentro, vamos acertar os detalhes.
Mais tarde, no bar da praia, nos encontramos e partimos para os finalmentes. Acertamos que cada um dos passageiros viajaria com dois volumes de bagagem, no máximo. Todos levariam água e comida para si próprios para no mínimo três dias de viagem.

Expliquei que não toleraria armas de fogo e nenhum outro instrumento que pudesse ser utilizado como arma.
Não sabia como eu iria impedir isto, mas fiz esta exigência assim mesmo. Laussante me assegurou que todos eram gente séria e pacífica e não marginais fugindo da lei.
Não sei por que razão, acreditei nele.

CAPÍTULO IV

O PLANEJAMENTO COMEÇA

Fiz uma lista de tudo que precisava fazer ANTES de por em prática meus planos para sacanear o portuga. Tinha que ser um plano muito bem elaborado para não deixar nenhuma falha.
Faltei ao trabalho, alegando não estar me sentindo bem e voei para uma ilha que é um destes paraísos fiscais tão comuns por estas bandas e bem conhecida pelos políticos brasileiros. Sem maiores problemas ou complicações abri uma conta num banco. Isto me tomou a manhã inteira, mas na tarde daquele mesmo dia já estava de volta ao trabalho.

A primeira parte do plano já estava executada.
A seguir fui procurar um bom lugar para o embarque do pessoal. Encontrei uns dois ou três lugares que serviam muito bem para este propósito. Tinham que ser de fácil acesso, longe dos olhares de curiosos e das autoridades. Laussante tinha me falado do antigo lugar que ele e o americano faziam isto, mas descartei logo por pensar que se já tinham utilizado várias vezes, poderia estar sendo vigiado.

Bom, ponto de embarque definido, restava marcar uma data.
Teria que ser num sábado, pois eu pretendia roubar o barco do portuga.
Assim ele só perceberia minha ausência na segunda-feira e até descobrir que o barco não estava onde deveria estar já seria a tarde deste dia e eu já estaria a poucas milhas da ilha de destino. Até que um alerta de barco roubado fosse emitido e as autoridades iniciassem as buscas eu já estaria com minha carga entregue e feliz.
Mas tínhamos um probleminha a ser resolvido.
Estávamos em plena época dos famosos furacões caribenhos, então que o olho na meteorologia foi redobrado a fim de não partir com um destes monstros nos ameaçando.
Pesquisei bastante os furacões de anos anteriores e outros deste mesmo ano e descobri que seguiam uma rota muita parecida e que poderiam ser evitados se tomarmos uma rota mais a oeste da rota mais comumente usada para esta travessia. Mesmo aumentando em umas cem milhas o percurso, achei que valeria a pena. Afinal de contas, cem milhas num catamaran destes, neste vento de direção constante na casa dos 15 nós, são só algumas horas a mais, porém mais seguro nesta rota.

Em toda minha vida de velejador sempre optei pelas rotas mais seguras em vez das rotas mais rápidas.
O que é o tempo para quem navega ao sabor do vento?

CAP JORGE II

Poucos dias depois o portuga me pede para dar uma “guaribada” no computador dele, que não estava funcionando direito.
Sempre fui um cara sortudo e parece que continuava sendo.
Então ali mesmo, com o cara sentado no outro lado da mesa, de frente pra mim, comecei a dar uma voltinha naquela máquina que guardava o segredo para eu botar a mão em um milhão e duzentos mil dólares. Suando frio e me segurando pra não bater uma tremedeira, segui as instruções que tinham me sido dadas pela Eliane dias antes.
Rapidinho encontrei a senha de acesso à conta bancária do portuga. À conta não, às contas, a grana do cara tava dividida em três contas em três diferentes bancos, informação esta também passada pela Eliane.
Entrei no site do primeiro banco, acessei a conta e lá estava o saldinho da criatura...550 mil dólares. Dei um sorrisinho maroto já gozando meu deleite. Sem maiores problemas, uns 5 minutos depois o portuga tava 550 mil dólares mais pobre e um brazuca doido 550 mil dólares mais rico.
Meu Deus, como foi fácil.
E quando estava para acessar o segundo banco, pau, caiu a energia elétrica em quase toda a cidade.
Falei pro portuga que não tinha conseguido terminar a “limpeza” de seu micro, mas que agora já estava um pouco mais “leve”.
Agora precisava correr, pois esta parte do plano aconteceu antes do previsto, e no corredor de saída encontrei Laussante e lhe falei rapidamente pra nos encontrarmos no bar da praia em 15 minutos.
Alguns dias antes eu tinha saído com Dora e fomos dançar num clube bem bacana, decoração caribenha e um pátio interno com um jardim onde ficava a pista de dança propriamente dita. Dançamos aqueles ritmos típicos do caribe todos, alguns eu nem conhecia, mas foi muito divertido. Ao final desta dançarada toda, fomos pro meu apartamento onde fizemos amor até o amanhecer.
Acordei-a já com o café da manhã pronto. Comemos torradas e frutas. Foi então que descobri que seu ex-marido e o ex-sócio de Laussante eram a mesma pessoa.

Muita coincidência, né? Mas neste momento nem dei muita importância a isto, apesar de não acreditar muito em coincidências.
Encontrei Laussante no bar da praia e ajustamos os últimos detalhes daquela empreitada maluca. Eu estava quase desistindo disso, pois de grana eu já estava safo. Mas a idéia de levar aquele povo sofrido para um lugar onde pudessem ter mais chances de uma vida mais digna me deixava muito empolgado. E ainda ia deixar o portuga sem barco. Estava com raiva do cara...

Acertamos que seria na noite seguinte, pois eu não podia dar tempo pro portuga descobrir que tinha sido aliviado de um certo peso monetário. Claro que eu tinha “desconfigurado” o computador dele para que ele não pudesse acessar sua conta, pelo menos não através daquele computador e até o cara descobrir o problema eu esperava ter tempo de já estar milhas adentro do lindo e famoso Mar da Caraíbas.
Nesta noite mesmo Laussante foi ao meu apartamento levar a grana de adiantamento da rapaziada. Metade, como combinado. A outra metade seria paga no embarque.
Chequei a meteorologia e levei um cagaço dos bons.
Um furacão se formava na costa africana e avançava rapidamente na direção da ilha que era meu destino. Ou seja, meu destino estava entre minha posição e o furacão, que vinha na minha direção.
Refiz meus cálculos de rota e decidi manter o curso mais a sudoeste, como planejado antes. Não podia esperar, tinha que sair dali e rápido. Lembrei daquela vez em que uns pescadores foram pegos pelo furacão Catarina, que até hoje os meteorologistas discutem se foi um furacão ou só uma tempestade tropical. Que importa o nome? O fato é que foi vento pacaraio.

Estes pescadores estavam no abrigo do porto em Torres-RS e resolveram que iriam para casa, no porto de Laguna-SC. Sabiam do Catarina, fizeram os cálculos e “acharam que dava”, como disse um dos sobreviventes. Não deu e foram pegos pelo monstro. Não lembro quantos morreram, dois sobreviveram pra contar a cagada feita.

Pois é. Eu estava “achando que ia dar”.
Eu tinha como vizinho de apartamento um inglês de 1,90 de altura na casa dos 40 anos e era proprietário de uma zona numa das ruas próximas à praia. Um cara muito bacana, de fala mansa e muita paciência, típica dos donos de bar, acostumados a ouvir com tolerância as desventuras dos bêbados.

Era ele quem ouvia minhas lamúrias.
Chamava-se Peter e era muito solidário com as minhas agruras com o portuga e já estava com tanta raiva do cara quanto eu.
Nada tinha lhe falado sobre o plano de transportar imigrantes ilegais. Nunca poderia imaginar que este cara calmo, pacífico e de índole pacata pudesse ser meu aliado no meu próximo plano. E este veio a acontecer também prematuramente. O destino conspirava a meu favor.

Alguns dias antes de eu “limpar” o computador (e a conta bancária) do portuga, o governo local havia derrubado todas as construções próximas à praia, na maioria barzinhos e quiosques de praia, para dar lugar a um grande empreendimento hoteleiro.
Como no Brasil, a politicada local comeu bola grande e fabricaram uma lei que proibia bares naquela praia. Empreendimento americano, claro. E uma das exigências dos americanos era que a praia estivesse “limpa” de nativos. Dançaram também os vendedores ambulantes. Houve protestos e todo aquele tititi, normais em casos assim. E terminou como sempre termina, a polícia baixou o cacete, prendeu os “desordeiros” e ficou por isso mesmo. Também como no Brasil, a imprensa não tocou mais no assunto. 

Nesta leva tinha ido o Peter deixando ele e mais umas 15 “moçoilas” sem local de trabalho.
Peter me disse que havia perdido tudo e estava quebrado.
Não havia conseguido salvar nada de seu estabelecimento, pois as autoridades não lhe haviam dado tempo suficiente para fazer, pelo menos tirar algumas coisas, como bebidas e máquinas. Tudo virou escombro.
Foi então que lhe falei do plano. Eu precisava de um marinheiro e guarda-costas e ele podia desempenhar estas duas funções muito bem. Ele topou na hora.

O EMBARQUE

Eu tinha escolhido uma praia um pouco afastada da cidade para evitar olhares de curiosos e possíveis autoridades.
Era uma praia bem estreita, com não mais de dez metros entre a água e um arvoredo que margeava toda sua extensão. Já tinha levado o barco pra lá no começo da noite e ancorado a uns sessenta metros da praia. Ali fiquei esperando e matutando. Confesso que tava com medo. Na verdade sou meio cagão mesmo. Dizem que quem tem medo se cuida. Acredito nisso. Com o bote inflável remei até a praia, dei uma boa olhada e vi que estava tudo conforme o esperado.
Remei de volta ao barco, aproximei-o até tocar a proa na areia e baixei a escada de embarque.
Pelo telefone celular dei o aviso a Laussante que me observava de uma distancia segura. Eu não podia vê-lo, mas sabia que ele me via. Tinha combinado com ele que viriam um de cada vez, em intervalos de trinta segundos e deveriam vir correndo. Por que correndo?
Simples, se algum deles portasse alguma arma, poriam a mão na cintura para segura-la e carregando uma bolsa, mochila ou mala, isto seria muito difícil de disfarçar. Este macete aprendi com um taxista do Rio de Janeiro, que parava sempre uns 50 metros adiante do ponto onde se encontrava seu passageiro e pelo espelho retrovisor observava. O cara tinha que correr e, se portasse uma arma, teria que por a mão na cintura para segura-la e, se isso acontecesse, ele simplesmente arrancava e deixava o cara para trás.

E veio o primeiro, correndo. Quando chegou na minha frente, ao pé da escada, vi que seus olhos brilhavam. De excitação, medo,esperança? Não sei dizer. Botou a mão num bolso de sua bermuda surrrada e me passou a outra metade de sua passagem para o seu esperado paraíso. Enfiei o dinheiro numa mochila reservada para este fim. E vieram os outros, todos com a mesma expressão no olhar, algumas mulheres entre eles. Laussate foi o último a embarcar.

Na minha contagem, 62. Confere, disse ele. Para meu alívio ninguém botou a mão na cintura, pois não gostaria de ter que revistar alguém. Cada um que embarcava encontrava no topo da escada aquele inglês enorme, que os ia acomodando no barco da melhor maneira possível. Tinham que ir se ajeitando de qualquer jeito, não havia beliches para todos, claro. Estes catamarans construídos para o transporte de turistas têm muito espaço livre no convés, com bancos que foram improvisados como camas. Acomodei e amarrei o inflável no topo da cabine e liguei os motores, que roncaram suavemente.

Engatei a ré e fomos tirando a proa da praia devagarzinho.
Proa safa, o barco fez um giro de 360 graus sobre seu próprio eixo, na manobra de um motor a vante e outro a ré. Por entre uns corais traiçoeiros fomos avançando para fora da baía, com o Peter na proa para poder me ajudar a safar estes corais. Era uma noite sem luar, mas as estrelas proviam claridade suficiente para divisar qualquer obstáculo.

Já fora da baía botei o barco no rumo sudoeste, levantamos as velas, grande e genoa, e desliguei os motores. Agora era só aquele marulho gostoso do casco singrando o mar e do vento acariciando as velas. Vento fraco, mas nossa velocidade era de 8 nós. Como andam estes catamarans...Eu sabia que a medida que a noite avançasse o vento diminuiria de intensidade, como é normal nesta latitude.

Por volta de uma hora da madrugada o vento morreu totalmente e novamente acionei os motores. Nossa velocidade agora era de 10 nós. Nada mau, pensei eu. Todos já estavam mais ou menos confortáveis e o mar ajudava, com ondas suaves de não mais que 60 cm. O cat nem sentia estas ondas, cortando-as suavemente. Eu timoneando com Peter de um lado e Laussante do outro e como se estivéssemos num cruzeiro de lazer conversávamos descontraidamente.
Claro, com olhos bem abertos, pois as luzes de navegação estavam todas desligadas para evitar sermos vistos por pesqueiros e outras embarcações. Eu sabia que podia ser visto pelos radares dos barcos da Guarda Costeira americana, que patrulham aquelas águas procurando por traficantes de drogas. Mas eu estava no rumo oposto ao utilizado pelos traficantes, então que pouco me preocupei com a
Guarda Costeira.
Estava preocupado era com aquele furacão na costa da África, que a estas horas já devia ter alcançado a longitude de 40 graus oeste. Pelo rádio VHF corujava qualquer coisa fora da normalidade e senti muita falta de um rádio SSB para poder monitorar a meteorologia, pois já estava fora do alcance das estações meteorológicas de VHF. Estes cats de turismo não são equipados com eletrônicos, como radar, sonda, piloto automático ou GPS. Só um VHF. Com as velas é a mesma coisa, mestra e genoa. Nada mais. GPS tinha o meu portátil, que estava resolvendo a encrenca. Se bem que nestas águas se pode fazer uma navegação estimada muito satisfatória devido ao grande número de referências visuais, como ilhas, ilhotes e recifes de corais.
Cruzamos com um número enorme de embarcações pesqueiras e algumas mercantes, mas ninguém pareceu notar nossa presença, salvo os mercantes que poderiam nos detectar no radar, setivesse alguém acordado na ponte de comando.

Resolvi arriscar e chamei um destes mercantes pelo VHF. Inacreditável. Tinha um cara atento. Perguntei-lhe se tinha um boletim da meteorologia disponível e o cara foi muito gentil, me passando o último, de 2 horas antes. O monstro africano já estava na longitude de 45 graus oeste e se dirigindo para noroeste.
Caraio. Era só o que eu não queria ouvir. Só restava esperar amanhecer e o vento começar a nos empurrar mais rápido. Na nossa velocidade atual a coisa iria nos pegar na testa. Pensei, esta porra ta vindo de ENE e estou no curso SW. Tem que dar...Se eu tiver velocidade suficiente, dá. Não queria arriscar e guinei para oeste, me afastando mais ainda do meu destino, o qual agora ficava quase no través de bombordo. Estava fazendo jus à minha fama de cagão. Eu tinha 65 vidas, inclusive a minha, a bordo. Vidas cheias de esperanças e sonhos.

Passei o timão para o Peter e fui dar uma olhada na minha preciosa carga. Alguns dormiam pelo chão mesmo, outros conversavam baixinho em seu dialeto antilhano. Não entendia o que falavam, mas me pareceu que estavam tranqüilos. Claro, nada sabiam do que estava vindo da terra nativa de seus ancestrais. Tudo estava em ordem, se é que se podia chamar aquilo de ordem, pelo menos todos pareciam bem.

Meu Deus...parecia um navio negreiro. Só que desta vez não transportava infelizes almas para o cativeiro, a escravidão, a humilhação e outras barbaridades. Era um navio negreiro do século 21, fazendo o trajeto oposto ao feito por seus bisavos.

Transportava sonhos, sorrisos brilhantes, muita esperança e estavam ali por vontade própria...Tinham até pago para estarem ali.
A partir daí rebatizei o barco. Agora se chamava Esperanza.
Em espanhol mesmo. Não lembro bem por que.
A seguir preparei café instantâneo e levei para o Peter e o Laussante. E um para mim, claro. Com açúcar, muito açúcar.
Estranhava um pouco aquele clima de tranqüilidade a bordo, nem parecia que estávamos transportando passageiros ilegais. Amanheceu o dia e o vento começou a soprar um pouco mais. Máquinas ligadas, panos para baixo. E la vai o Esperanza a 8 nós. Que maravilha!

É sempre o mesmo entusiasmo quando se levanta as velas.
Isto só pode se maluquice de velejador. Cada vez que levanto um pano e o barco se move é como se ganhasse vida própria eu estivesse nas nuvens tal o deleite que sinto. Uma paz imensurável me invade o espírito. Mas eu precisava de mais velocidade e para isso precisava de mais vento. E veio. Lá pelas 10 da manhã. Este é o Caribe, se pode regular as velas no porto. O vento entra na hora certa. Todos os dias.
15 nós de vento e o Esperanza mandando ver. Velocidade de 12 nós com o vento nos empurrando pela aleta de bombordo.

Peter, que tinha algum conhecimento de navegação, me pergunta se não estou no rumo errado. Confirmei e só então lhe falei do furacão. Ele, brancão daquele jeito, ficou mais branco ainda. Me deu uma bronca bem merecido e depois se acalmou, dizendo que eu tinha feito a coisa certa, me afastando da rota do furacão. Mas nos afastava de nossa ilha também. Mantive este rumo até o meio da tarde e fiz os cálculos de nossa posição e a provável posição do furacão.

Por estes cálculos já estávamos safos da encrenca e resolvi que era hora de guinar pra leste e agora eu precisava era de pouca velocidade, pois tinha que esperar o dito passar na nossa proa a umas 200 milhas de distancia. Tinha 180 pra andar até a ilha e, mais uma vez, não arrisquei.

Só com a grande bem folgada e com o vento pela bochecha de boreste, avançávamos a 6 nós. Era só não deixar o barco andar muito rápido. Isto nos dava trinta horas de velejada ainda. Tempo suficiente para safar o furacão. A partir daí velejada de almirante. Só que agora fazia a rota dos traficantes de drogas...E bem próximo da área onde tinham sido relatados ataques a veleiros por modernos piratas. 

Estes piratas estão atrás dos eletrônicos de bordo e também dos motores e caixas reversoras. Além de cartões de crédito e qualquer coisa que possa ser trocada por dinheiro ou drogas. Precisava ficar muito atento. Mas também precisava dormir um pouco. Aproveitei que estava tudo calmo e dormi umas duas horas ali mesmo no convés.

Acordei já no começo da noite e substituí Peter no timão, após um bom café e um sanduíche, primeira coisa que comi desde a nossa partida 20 horas antes. Como esperado o vento diminuiu bastante e nossa velocidade agora era de apenas 4 nós, o que nos servia muito bem já que eu não pretendia me aproximar da nossa ilha de destino com luz do dia. A noite passou numa calma de dar gosto.

Meus passageiros estavam confortáveis e aparentemente tranqüilos.
Todos tinham levado suas próprias provisões, que nada mais eram que sanduíches, galinha assada e bananas. Coincidentemente as mesmas que eu tinha levado para mim mesmo, alem de algumas barras de cereais. Estas barras de cereais quebram o maior galho na hora do aperto. Os banheiros já começavam a ter aquele cheirinho danado de urina, então eu mesmo fiz uma limpeza geral com bastante sabão e desinfetante.

Amanheceu o dia e divisamos os contornos de algumas ilhas que até ali tínhamos visto somente suas luzes. Caraca, muitas embarcações de pesca retornavam aos seus portos e pedi a todos que permacessem deitados no convés para assim não serem vistos por estes barcos. Um cat de turismo com aquele monte de passageiros, todos negros, não era uma coisa muito usual naquela área. Talvez em lugar nenhum...

Nos dirigimos para uma destas ilhas e entramos numa pequena enseada. Ficaria ali até o meio da tarde, escondidos. Aproveitamos para dormir, limpar o barco, banho de mar e até pescaria rolou. Um de meus passageiros fisgou algumas lagostas com um arpãozinho improvisado, outro catou umas frutinhas em terra. Parecia um passeio com a turma no fim de semana. O tal furacão já tinha passado pela nossa proa e atacava agora a costa de Porto Rico.

Estávamos todos estranhamente calmos dado à situação e agora era hora de “partir pro abraço”. Mais 80 milhas e tudo estaria terminado. Agora eu tinha pressa e com o vento fraco da noite liguei os motores e mantive a grande içada. 12 nós. Ta bom pacaraio, pensei.

Por volta das 3 horas da manhã já divisava as luzes de nossa ilha. Pouco antes do amanhecer estava lançando ferro naquela pequena baía que neste momento era o próprio Éden para meus sofridos passageiros. Todos desembarcaram me apertando a mão e me abraçando efusivamente com se eu fosse seu salvador.

Peter, com um sorriso maroto nos lábios, me olha e diz: você é o fdp mais sortudo que eu já conheci, como conseguiu driblar aquele furacão? Sorri de volta e respondi: você mesmo já descobriu... sorte. 

Neste momento lembrei de um velejador alemão que encontrei anos atrás no porto de Rio Grande-RS. Ele já estava ali há uns bons cinco anos, seu veleiro era muito bom e eu não entendia por que estava parado há tanto tempo. Perguntei-lhe e ele respondeu que tinha tido sempre muita sorte em suas velejadas pelo mundo e que agora estava com medo de ter se acabado esta sorte.

Falei que entendia este sentimento, pois eu mesmo sempre tivera muita sorte também.
Alguns minutos mais tarde e estaria ouvindo aquela frase, que ficou gravada na minha memória para sempre: 

- Capitão Jorge, o senhor é um santo.

Livro escrito pelo comandante ROGERIO BASSANI E-Mail: rovebas@hotmail.com

"Neste livro além de "compactar" o maximo para poder publicar no blog do Ney e facilitar a leitura, tambem misturei realidade com ficção. você leitor que decide o que é uma coisa e o que é outra"

Um abraço  e boas navegações

Ney Broker
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