quinta-feira, 4 de maio de 2006

* NAVEGAÇÃO NOTURNA

É surpreendente notar, nos dias de verão, como quase não se vêem barcos no rio depois do pôr do sol

[N.T.: o autor se refere ao Rio da Prata, entre a Argentina e o Uruguai]. Navegar de noite é uma experiência muito interessante, e que não envolve maiores riscos, se observarmos alguns aspectos importantes.

A primeira limitação que enfrentamos durante a navegação noturna, na hora de identificar as luzes de uma bóia, baliza, farol ou a entrada do porto, é a falta de prática, pois a maioria das navegações que realizamos ocorre durante o dia. 

Se navegarmos de noite, em zonas habituais, que conhecemos bem, não teremos maiores dificuldades para reconhecer a costa e seus acidentes principais, porque já memorizamos a geografia da zona. A coisa muda de figura quando navegamos em uma zona pouco conhecida, porque devemos somar à incerteza de nos situarmos na carta e de reconhecermos o ponto exato da costa que estamos observando, a intranqüilidade provocada pela limitação da visibilidade, por causa da escuridão, que pode produzir uma falta de confiança que nos fará duvidar de nossas próprias apreciações.

Há três fatores básicos para navegar de noite com segurança.

1) Atenção: Devemos prestar muita atenção, visto que a visibilidade é muito reduzida, e isso nos obriga a estar muito pendentes de encontrar luzes, reconhecer a linha da costa, e antecipar objetos que não estiverem iluminados, como bóias cegas, troncos, etc. 

2) Segurança: Quanto à nossa posição, é muito importante tirar uma correta marcação, a fim de nos posicionarmos corretamente na carta. 

3) Prática: Isto é muito importante, pois quanto mais navegações noturnas realizarmos, mais hábeis nos faremos para distinguir luzes, entradas, etc. 

Um problema muito comum, no momento de entrar em um porto durante a noite, é que, geralmente, ele fica perto ou no meio de uma cidade. Esta localização faz com que seja muito difícil distinguir as luzes de balizas, faróis e bóias, pois elas se confundem com as luzes da cidade. Neste caso, é muito importante apoiarmo-nos em cartas e roteiros atualizados, com os quais buscaremos identificar a costa , a entrada do porto, sua localização com relação à cidade e a localização de perigos na zona. 

Muitas vezes sucederá que não avistaremos as luzes das balizas até estarmos muito perto delas, e é por isso que não tentaremos arribar de noite com mal tempo, porquanto é muito provável que, se nos equivocarmos, não teremos uma segunda chance, e terminaremos encalhados ou abalroando algum escolho. Sempre que entrarmos em um porto pela primeira vez, programaremos nossa navegação para chegar nele durante o dia, já que arribar de noite pode ser difícil. Pelas mesmas razões que comentamos acima, não tentaremos entrar em um porto durante a noite e com mal tempo, a não ser que a entrada seja fácil, esteja a barlavento e que já tenhamos entrado nele antes.

Devemos lembrar que no sistema de bóias IALA “B”, entrando no porto, teremos a baliza encarnada à direita (“deixada por boreste - BE – por quem entra no porto”) e a verde à esquerda (por bombordo - BB - de quem entra). Se estamos vendo ao contrário, isso indica que estamos indo rumo ao molhe ou ao cais, com um triste final, se não modificarmos o rumo. 

Alguns portos do Uruguai que apresentam particularidades no tocante às luzes:

SAN JUAN: Não tem uma cidade ao fundo, mas a linha de aproamento à bóia de arrimação (Bremen) e a baliza em terra não marcam o caminho de acesso, visto que este segue uma linha de pequenas bóias cegas que são muito difíceis de identificar durante a noite. 

COLONIA: O farol está colocado acima da cidade e tem luz vermelha, o que o torna difícil de ser identificado e visualizado, porque é uma luz muito fraca que se confunde com outras luzes da cidade. O porto de recreio só tem a baliza encarnada (Santa Rita), não tendo a verde. Além disso, a cidade ao fundo dificulta sua visualização.

RIACHUELO: Não tem nenhuma cidade ao fundo, mas tem dois molhes, um deles mais curto do que o outro uns 50 m, o que provoca que se nos aproximamos vindos do Este, parece que as luzes estão invertidas, a verde a BE (boreste) e a encarnada a BB (bombordo). Só quando chegamos à bóia de arrimação e aproamos com a baliza em terra (tapada pelas árvores), se vêem corretamente: a verde a BB e a encarnada a BE.

SAUCE: A arrimação ao porto se faz através de um longo molhe que está paralelo à costa e tem a cidade ao fundo. Isto faz com que seja muito difícil identificar a baliza encarnada que está no seu extremo. A baliza verde está no outro molhe, que fica muito mais para dentro do porto, e que, aproximando-nos de fora, é difícil de ver.

BUCEO, PIRIÁPOLIS E PUNTA DEL ESTE: Todos estes portos têm a cidade ao fundo, o que dificulta a visualização das luzes das balizas, pois estas se confundem com outras em terra.

LA PALOMA: A entrada do porto fica a uma milha a NE do farol, um pouco distante do conjunto urbano. Há somente uma baliza verde (Bal. María Magdalena)

(de qualquer forma, recomendamos consultar os Roteiros, nos quais são explicadas as entradas destes portos)

RECONHECIMENTO DE FARÓIS:

Pode acontecer que, durante uma navegação, sejamos obrigados a reconhecer algum farol, seja o de destino ou um de passagem. Todos os faróis e outras luzes marítimas relevantes para a navegação se encontram compiladas na Lista de Faros y Señales Marítimas (Lista de Faróis e Sinais Marítimos), que se divide em três tomos: 

1) H-211 Río de la Plata (Rio da Prata)
2) H-212 Costa Atlántica (desde Cabo San Antonio a Cabo Vírgenes y Punta Dungeness) 
3) H-213 Tierra del Fuego, Estrecho de Magallanes, Canales e islas adyacentes, Islas Malvinas y Antártida Argentina. 

Nestes livros estão indicadas suas características, ritmo de luz, alcance, etc. É importante que estes dados estejam sempre atualizados. Também nas cartas podemos encontrar esta informação, inclusive em forma gráfica.

Procedimento para reconhecer um farol: 

1) Se virmos uma luz no meio da escuridão, verificaremos primeiro se é uma luz móvel, pois, sendo assim, seguramente é a de algum barco. 

2) Se a luz for intermitente, comprovaremos se tem um ritmo determinado e que este não é devido às ondas, que muitas vezes podem ocultar de nossa visão, momentaneamente, o feixe de luz. 

3) Mediante as cartas ou roteiros, veremos quais são os faróis que estão na zona em que navegamos, e quais são as suas características. 

4) Com nossa posição estimada, o alcance indicado pela carta, e o ritmo de luz avistado, podemos identificar o farol com bastante precisão. 

5) É muito importante que não mudemos nunca de rumo para tentar localizá-la, se não localizarmos a luz do farol, mesmo quando acharmos que teríamos que estar vendo a luz, e apesar de encontrarmo-nos dentro de seu alcance teórico e no rumo correto. Fatores como neblina na costa, ondas ou má visibilidade, podem fazer com que não a vejamos até estarmos a poucas milhas de distância. 

O G.P.S. É A SOLUÇÃO?

Sem dúvida que o aparecimento do GPS significou uma grande ajuda para a navegação, dado que nos permite situarmo-nos com bastante precisão, sem necessidade de complicados cálculos. 

Dada a facilidade de orientarmo-nos na carta, graças às coordenadas obtidas, é normal que terminemos confiando cegamente no GPS para a navegação, principalmente para a noturna. 

Entretanto, não podemos deixar de destacar que o GPS, mesmo sendo uma ajuda inestimável, não pode, de nenhuma forma, substituir totalmente as cartas tradicionais e os dados obtidos pelos diversos auxílios à navegação. Não convém entregar totalmente nossa segurança ao GPS, pois seu funcionamento depende de fatores como o fornecimento de energia elétrica, o capricho dos proprietários da rede de satélites, o governo americano, etc. 

Também devemos considerar que a posição que o navegador satelital fornece não é exata, mas, sobretudo, temos que lembrar que, mesmo que o GPS nos ajude a situarmo-nos em um ponto mais ou menos exato, o trabalho de distinguir as luzes do porto ou de reconhecer um farol continuará sendo nosso.

ALGUMAS DICAS:

Estes são alguns conselhos que podem ajudar na hora individualizar luzes. Mas lembre-se que a prática será a melhor ajuda.

• Para localizar um farol, uma baliza ou bóia, em uma zona da escuridão na qual achamos que deveria ser vista, pelo alcance nominal da luz e nossa marcação, dividiremos mentalmente a escuridão em setores, que rastejaremos minuciosa e continuamente, sem saltear. 

• Devemos evitar a obsessão de ver uma luz em um lugar específico. Às vezes, a escuridão nos engana e acabamos vendo o que queremos ver, e não o que existe realmente. 

• Para determinar o ritmo de lampejos ou ocultações de um sinal marítimo, será muito útil um cronômetro. Porém, se isto não for possível por não dispormos de um a bordo, ou pela falta de luz, podemos contar os segundos entre os lampejos, mentalmente, mediante um simples método: temos que contar “um-um, dois-um, três-um, quatro-um...”. Desta forma, não aceleramos a conta inconscientemente, e os segundos são mais ou menos corretos. 

• É importante manter a vista fixa em cada lugar concreto durante vários segundos, dado que as ondas podem ocultar, periodicamente, qualquer feixe de luz. 

• Quando tivermos que diferenciar as luzes da cidade das do porto, é importante saber que as do porto se encontram um pouco afastadas da costa e, portanto, não estão à mesma distância que as da cidade. Isto significa que, ao navegarmos paralelos à costa, a posição dos faróis ou balizas de entrada variará com relação às outras (as da cidade) com maior velocidade, o que nos permitirá diferenciá-las. 

• Qualquer luz a bordo pode distrair nossa atenção ou acentuará a escuridão do horizonte, devido ao contraste. É recomendável apagar todas as luzes do interior e baixar ao mínimo as dos instrumentos, se estivermos tentando identificar algum farol, baliza ou bóia. 

• Uma boa dica para acostumar nossos olhos à escuridão, consiste em fechá-los durante 3 / 4 segundos, antes de olhar a zona que nos interessa. 

Fonte: Ciber - N@utica 

Comente com o Facebook:

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...