AZIMUT 55S 2014 — O DIA EM QUE FUI RECEBER UMA DAS ESPORTIVAS MAIS TECNOLÓGICAS DA ÉPOCA


Porto de Itajaí/SC, Terminal TEPORTI — 31 de março de 2014.

Algumas histórias ficam guardadas na memória. Outras ficam guardadas em fotos, relatórios e anotações.

Essa ficou nos dois lugares.

Em março de 2014 fui ao Terminal TEPORTI, no Porto de Itajaí, para receber tecnicamente uma Azimut 55S 2014, destinada à First.

Não era a primeira vez que eu fazia esse tipo de trabalho. Naquele período eu já tinha acompanhado o recebimento de diferentes embarcações importadas em portos de Santa Catarina.

Pershing, Bertram, Beneteau, Azimut e outros barcos chegaram de navio e, em várias dessas operações, eu estava lá para acompanhar o desembarque, conferir a embarcação e verificar aquilo que efetivamente estava sendo entregue ao cliente.

Hoje, olhando as fotografias daquela 55S, vejo capacete, colete, credencial portuária, barco ainda fora d'água, proteções de transporte e gente trabalhando ao redor.

Naquele dia era trabalho.

Hoje também é história.


UMA AZIMUT BEM DIFERENTE PARA 2014

A Azimut 55S chamava atenção.

E não apenas pelo desenho.

Estamos falando de uma esportiva de aproximadamente 17,3 metros, três cabines, cabine independente para tripulante e um projeto que explorava bastante a integração entre salão, cockpit e área externa.

Mas havia um detalhe que imediatamente diferenciava aquele barco:

Três motores Volvo Penta IPS 600 de 435 hp cada.

Eram 1.305 hp combinados, associados a três PODs IPS e comando eletrônico com joystick.

Hoje joystick, IPS e grandes sistemas eletrônicos fazem parte da conversa cotidiana de quem trabalha com barcos desse nível.

Em 2014 aquilo ainda chamava muita atenção.

A ficha que fiz na época registrava velocidade de cruzeiro na faixa dos 30 nós e máxima próxima de 35 nós, além de capacidade para aproximadamente 1.600 litros de diesel e 590 litros de água doce.

Mas número de catálogo nunca foi o que mais me interessou quando eu subia num barco para recebê-lo.

Eu queria saber o que estava efetivamente instalado — e funcionando.


RECEBER UM BARCO NÃO É PEGAR A CHAVE

Esse talvez seja o principal ponto daquela história.

Um barco daquele porte não chega com meia dúzia de coisas para conferir.

Você começa pelos motores.

Depois vêm transmissões, comandos, baterias, carregadores, gerador, bombas, ar-condicionado, eletrônicos de navegação, hidráulica, equipamentos de segurança, guinchos, âncora, plataforma, passarela, garagem de bote, marcenaria, iluminação, eletrodomésticos e dezenas de outros sistemas.

Na Azimut 55S daquela entrega havia, entre outros equipamentos, gerador Kohler de 20 kVA, ar-condicionado central tipo chiller, passarela Opacmare, escada elétrica de banho, plataforma móvel de popa, teto solar elétrico, equipamentos Raymarine, piloto automático, TV via satélite, guinchos elétricos na proa e na popa, boiler, máquina lava e seca e diversos sistemas auxiliares.

E ainda existiam os itens que parecem pequenos até o dia em que fazem falta.

Defensas.

Manivelas de guincho.

Cabos.

Manuais.

Âncora e corrente.

Bombas.

Baterias.

Anodos.

Ferragens.

Acessórios do bote.

Ferramentas.

Tudo precisa ser conferido.

Porque depois que o barco sai do porto e o processo de entrega termina, aquela discussão clássica começa:

“Isso veio com o barco?”

“Estava funcionando?”

“Já estava assim?”

“Faltava alguma coisa?”

Por isso sempre gostei de fotografar e registrar.


TUDO REGISTRADO, COMO SEMPRE

As fotografias daquele dia mostram exatamente isso.

O barco ainda estava em ambiente portuário.

A Azimut aparece fora d'água, apoiada, sendo preparada, com partes ainda protegidas para transporte.

Há imagens do casco, da popa, das laterais e da operação em andamento.

E há uma fotografia minha no posto de comando.

Colete, identificação do terminal e painel à frente.

Aquilo resume bem o trabalho.

Eu não estava ali para fazer fotografia bonita do barco.

Estava ali para conferir.

Ao longo dos anos, fui percebendo que o registro fotográfico não era simplesmente um complemento.

Ele fazia parte da documentação técnica.

Uma fotografia muitas vezes consegue mostrar exatamente a condição de determinado componente naquele momento.

E isso, anos depois, vale muito.

Essas imagens da 55S são um exemplo perfeito.


NÃO EXISTE UM BARCO IGUAL AO OUTRO

Foi também naquele período de recebimentos, surveys e vistorias cada vez mais complexas que uma metodologia começou a ganhar forma.

O que posteriormente se tornou o "Laudo Blindado 217®".

O raciocínio era simples.

Havia informação demais para depender apenas da memória.

Era preciso dividir a embarcação em categorias e sistemas.

Casco.

Estrutura.

Propulsão.

Transmissão.

Elétrica.

Eletrônica.

Hidráulica.

Combustível.

Climatização.

Segurança.

Convés.

Marcenaria.

Equipamentos.

Documentação.

E assim por diante.

A divisão reduz o risco de terminar uma vistoria e perceber depois que determinado sistema não foi verificado.

Mas existe uma diferença importante:

padronizar o método não significa padronizar o laudo.

Até hoje algumas pessoas me perguntam:

“Ney, me manda um modelinho da tua vistoria.”

Não adianta.

O laudo de um barco não serve para outro.

Às vezes nem o laudo de duas embarcações do mesmo modelo e do mesmo ano pode ser tratado da mesma maneira.

Uma recebeu eletrônicos novos.

Outra teve retrofit elétrico.

Uma fez manutenção dos IPS corretamente.

Outra acumulou histórico de falhas.

Uma permaneceu anos na água.

Outra navegou pouco.

Uma foi modificada pelo proprietário.

Outra continua praticamente original.

Cada barco tem sua própria história.

Por isso eu costumo dizer:

eu padronizei a forma de procurar. Nunca padronizei aquilo que vou encontrar.

UMA 55S PODE TER CENTENAS DE PONTOS DE INSPEÇÃO

É difícil dizer que uma embarcação possui exatamente 180, 200 ou 220 itens para vistoriar.

Esse número muda conforme o nível de detalhamento e a configuração de cada unidade.

Mas numa embarcação como a Azimut 55S, passar de centenas de pontos de verificação não é exagero.

Só o conjunto propulsor daquela unidade já envolvia três motores diesel, três transmissões IPS, três PODs e todos os sistemas associados.

Combustível.

Refrigeração.

Escape.

Eletrônica.

Comandos.

Direção.

Sensores.

Filtros.

Mangueiras.

Chicotes.

Baterias.

Carregamento.

E isso ainda é apenas propulsão.

Depois vêm todos os outros sistemas da embarcação.

É justamente por isso que uma vistoria técnica não pode ser apenas uma caminhada pelo barco olhando acabamento.

O acabamento importa.

Mas o barco está cheio de sistemas escondidos.

E geralmente é justamente atrás de uma tampa, dentro de um compartimento ou embaixo de um piso que aparecem as informações que mais interessam numa compra.

O BARCO PASSA. O REGISTRO FICA.

Mais de uma década depois, aquela Azimut 55S provavelmente já navegou milhares de milhas, mudou equipamentos, recebeu manutenção e talvez até tenha mudado de proprietário.

Mas eu continuo com o registro daquele 31 de março de 2014.

Tenho as fotografias.

Tenho a relação de equipamentos.

Tenho as observações.

Tenho a ficha técnica que fiz na época.

E tenho principalmente a lembrança de um período em que boa parte do conhecimento que utilizo hoje estava sendo construída na prática.

Dentro de barcos.

Em marinas.

Em estaleiros.

E também dentro dos portos.

A Azimut 55S foi mais uma dessas embarcações.

Mas olhando aquelas imagens hoje, percebo que ela também registra uma fase importante da minha trajetória profissional.

No fim das contas, é por isso que continuo guardando essas coisas.

Porque barco muda.

Tecnologia muda.

Mercado muda.

Mas aquilo que foi bem documentado continua contando a história.

Até o próximo artigo!

Ney Broker
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